Checklist dos peixes de água doce do Estado de São Paulo, Brasil

ictio-paulista

Resumo: As espécies de peixes de água doce encontradas no estado de São Paulo distribuem-se entre quatro bacias hidrográficas principais: Alto Paraná, Paraíba do Sul, Ribeira de Iguape e um conjunto de pequenas drenagens costeiras que desembocam diretamente no oceano Atlântico. Como estas bacias drenam áreas com diferentes tipos de vegetação, solos, etc., cada uma tem uma composição de espécies diferente. No Alto Paraná, o grande Rio Paraná e alguns de seus maiores afluentes (Tietê, Paranapanema e Grande) possuem espécies de grande porte que sustentam a pesca comercial e de subsistência, mas 70 a 80% da ictiofauna é composta por espécies de pequeno porte de pequenos riachos, incluindo os de cabeceira, onde muitas são endêmicas. O inventário da ictiofauna foi incrementado através de três projetos de pesquisa apoiados pelo programa BIOTA/FAPESP, mas ainda resta muito trabalho de coleta e descrição de novas espécies de áreas pouco exploradas, como calhas de rios, regiões de cabeceiras, alagadiços em áreas marginais de reservatórios e lagos. A ictiofauna do Estado de São Paulo tem sofrido da ação deletéria de poluição, desmatamento, esgotos urbanos e construção de reservatórios para produção de energia elétrica, etc., de tal forma que atualmente 66 espécies são consideradas ameaçadas em vários níveis, de acordo com os critérios da “International Union for Conservation of Nature and Natural Resources” (IUCN). Palavras-chave: peixes de água doce, biota paulista, Programa BIOTA/FAPESP.

Número de espécies: No mundo: 28.000, no Brasil: 2.587, estimadas no Estado de São Paulo: 393.

Introdução

As águas doces do Estado de São Paulo concentram-se em quatro bacias hidrográficas: Alto Paraná, Paraíba do Sul, Ribeira de Iguape e um conjunto de pequenas drenagens situadas numa estreita faixa litorânea que fluem diretamente para o oceano Atlântico e compõem as Drenagens Costeiras ou Bacia Litorânea. O Alto Paraná, a maior das quatro bacias hidrográficas, inclui também parte dos estados de Minas Gerais, Goiás, Mato Grosso do Sul, Paraná além do Distrito Federal; o Ribeira de Iguape drena também parte das terras do Paraná; e o Paraíba do Sul partes de Minas Gerais e Rio de Janeiro. A bacia do Alto Paraná está quase que inteiramente incluída no bioma do Cerrado, com exceção da sub-bacia do Alto Tietê que, desde a sua nascente em Salesópolis até Pirapora do Bom Jesus e Santana do Parnaíba, drena áreas de Mata Atlântica. As outras três bacias hidrográficas que drenam o estado estão no bioma da Mata Atlântica (Oyakawa et al. 2009).

Estima-se que existam cerca de 55.000 espécies de vertebrados em todo o mundo, das quais aproximadamente 28.000 são peixes (Nelson 2006). Nas águas doces neotropicais existem atualmente 4.475 espécies válidas e cerca de 1.550 espécies ainda não descritas segundo estimativa recente, totalizando 6.025 espécies nestes ambientes (Reis et al. 2003); deste total o Brasil abriga 2.587 espécies, segundo Buckup et al. (2007).

Metodologia

A lista apresentada na Tabela 1 é resultado da consulta a diferentes fontes (Reis et al. 2003, Buckup et al. 2007, Langeani et al. 2007, Oyakawa et al. 2009, Eschmeyer 2010), artigos recentes de revisões e descrições de novas espécies de peixes do Estado de São Paulo e exame da coleção de peixes do Museu de Zoologia da Universidade de São Paulo. Na lista foram consideradas, indistintamente, para cada bacia hidrográfica, as espécies autóctones ou nativas (que ocorrem naturalmente em cada uma das quatro bacias), as alóctones (espécies originárias de outras bacias hidrográficas da Região Neotropical e introduzidas nas bacias hidrográficas do Estado de São Paulo) e exóticas (espécies originárias de outros continentes).

Calcular com precisão o número de espécies de peixes de água doce restritas ao Estado de São Paulo é uma tarefa difícil uma vez que, como mencionado na Introdução, as quatro bacias hidrográficas do estado compartilham seus limites com outros estados vizinhos à São Paulo o que dificulta sobremaneira a delimitação de limites geopolíticos das espécies de peixes. Nesse sentido, a bacia do Alto Paraná é a mais complexa, pois seus limites abrangem cinco estados diferentes.

Resultados e Discussão

No estado de São Paulo existem cerca de 391 espécies, o que corresponde a aproximadamente 15% do total estimado para todo o território brasileiro (Tabela 1). Desse total, 260 espécies ocorrem no Alto Paraná, 97 no Ribeira de Iguape, 71 no Paraíba do Sul e 57 na Bacia Litorânea, algumas espécies podendo ocorrer em duas ou mais bacias diferentes. As espécies estão distribuídas em 10 ordens e 39 famílias, sendo Characidae com 83 e Loricariidae com 81 as mais numerosas.

O Rio Paraná e seus principais afluentes (Tietê, Paranapanema e Grande) possuem cursos d’água de maior porte que ainda abrigam várias espécies de médio e grande porte como os curimbatás, piaparas, pintados e jaús que apresentam ampla distribuição geográfica e importância econômica na pesca comercial e de subsistência. As bacias do Ribeira de Iguape, Paraíba do Sul e as drenagens costeiras não possuem espécies de grande porte e migradoras como o Alto Paraná, com exceção, talvez, da presença de Hoplias lacerdae e Hypostomus tapijara, espécies de grande porte, na bacia do Ribeira de Iguape; a primeira representada por exemplares capturados recentemente com 85 cm e a segunda por exemplares até 50 cm de comprimento total.

Além desses cursos maiores existem, em todas as quatro bacias hidrográficas do estado, um incontável número de riachos e ambientes de cabeceiras habitados por espécies pequenas, com até 10 a 15 cm de comprimento, de distribuição restrita, com pouco ou nenhum valor comercial (exceto de algumas poucas espécies exploradas no comércio de peixes ornamentais) e com grande dependência da vegetação ripária como fonte de itens alimentares de origem alóctone, para reprodução e proteção (Castro & Menezes 1998). É possível afirmar que entre 70 a 80% das espécies do Estado de São Paulo são de pequeno porte e habitam preferencialmente esses ambientes de riacho. Dentre as 36 espécies de peixes descritas do Estado de São Paulo no período de 2000 a 2010, somente duas, Hypostomustapijara e Sternarchorhynchus britskii, ocorrem em habitats fora de ambientes de riachos e cabeceiras. Hypostomus tapijara Oyakawa, Akama & Zanata, 2005, é conhecida somente dos rios maiores da bacia do Ribeira de Iguape e Sternarchorhynchus britskii Campos da Paz, 2000, do reservatório de Ilha Solteira, no Rio Paraná.

Um aspecto importante a ser ressaltado foi o apoio do Programa BIOTA/FAPESP à inventariação da fauna de peixes de água doce das bacias do Alto Paraná e do Ribeira de Iguape nos últimos doze anos, que possibilitou a descoberta da grande maioria das espécies descritas nesse período. Três projetos foram subsidiados pelo Programa: “Diversidade de peixes de riachos e cabeceiras da bacia do Alto Paraná no Estado de São Paulo coordenado por Ricardo Macedo Corrêa e Castro; “Diversidade de Peixes de Riachos e Cabeceiras da Bacia do Rio Ribeira de Iguape no estado de São Paulo, coordenado por Osvaldo Takeshi Oyakawa e “A Ictiofauna do Alto Paraná”, coordenado por Francisco Langeani Neto. O projeto “Conhecimento,” conservação e utilização racional da diversidade da fauna de peixes do Brasil” – PRONEX/CNPq, coordenado por Naércio Aquino Menezes também contribuiu para inventariação da fauna do estado, em especial da Bacia do Rio Ribeira de Iguape.

No estado de São Paulo existem atualmente 66 espécies sob ameaça de extinção em diferentes graus (Tabela 1), além de 16 espécies classificadas como DD, ou seja, deficiente em dados, segundo os critérios propostos pela IUCN (International… 2001). Neste caso, a grande maioria das espécies também são de pequeno porte, típicas de riachos de cabeceiras, sujeitas à poluição dos corpos d’água por esgotos industriais e domésticos, assoreamento e destruição da mata ripária.

Grandes peixes migradores do Alto Paraná, como os pacus, jaús, pintados e surubins sofrem também com a fragmentação dos habitats resultante da construção de inúmeras barragens hidrelétricas de grande porte nos maiores rios da bacia. Além destas, outras menores conhecidas como Pequenas Centrais Hidrelétricas (PCH) também têm sido construídas nos rios de menor porte, causando os mesmos efeitos nocivos sobre a ictiofauna. Um desses empreendimentos atualmente sendo construído no Rio Paraíba do Sul, quase na divisa com o Estado do Rio de Janeiro, vai comprometer seriamente um dos únicos trechos de corredeira e grandes poços de pedra do rio no Estado de São Paulo, habitat do surubim-do-paraíba (Steindachneridion parahybae).

Espécies de peixes restritas à bacia litorânea, formada por pequenos rios que drenam diretamente para o mar, também sofrem os impactos negativos da urbanização desenfreada que provoca a destruição de grandes áreas da mata de restinga. A parte baixa da bacia do Ribeira de Iguape, já na planície litorânea, nos municípios de Iguape e Cananéia, onde existem extensas áreas de restinga, também sofrem com a destruição das matas, assoreamento e poluição de suas águas.

Tabela 1. Ictiofauna do Estado de São Paulo. (*) Espécies ameaçadas de extinção segundo Oyakawa et al. 2009

Alto Paraná Ribeira de Iguape Paraíba do Sul Bacia Litorânea
 
Myliobatiformes
Potamotrygonidae
Potamotrygon falkneri Castex & Maciel, 1963 X
Potamotrygon motoro (Müller & Henle, 1841) X
Clupeiformes
Clupeidae
Platanichthys platana (Regan, 1917) X
Cypriniformes
Cyprinidae
Aristichthys nobilis (Richardson, 1845) X
Ctenopharyngodon idella (Valenciennes, 1844) X
Cyprinus carpio Linnaeus, 1758 X
Characiformes
Acestrorhynchidae
Acestrorhynchus lacustris (Lütken, 1875) X
Anostomidae
Leporellus vittatus (Valenciennes, 1850) X
Leporinus aguapeiensis Amaral-Campos, 1945 X
Leporinus amblyrhynchus Garavello & Britski, 1987 X
Leporinus conirostris Steindachner, 1875 X
Leporinus copelandii Steindachner, 1875 X
Leporinus friderici (Bloch, 1794) X
Leporinus lacustris Campos, 1945 X
Leporinus macrocephalus Garavello & Britski, 1988 X
Leporinus mormyrops Steindachner, 1875 X
Leporinus obtusidens (Valenciennes, 1836) X
Leporinus octofasciatus Steindachner, 1915 X
Leporinus paranensis Garavello & Britski, 1987 X
Leporinus cf. steindachneri Eigenmann, 1097 X
Leporinus striatus Kner, 1859 X
Leporinus thayeri Borodin, 1929 * X
Schizodon altoparanae Garavello & Britski, 1990 X
Schizodon intermedius Garavello & Britski, 1990 X
Schizodon nasutus Kner, 1858 X
Characidae
Aphyocharax anisitsi Eigenmann & Eigenmann, 1903 X
Aphyocharax dentatus Eigenmann & Kennedy, 1903 X
Aphyocheirodon hemigrammus Eigenmann, 1915 X
Astyanax altiparanae Garutti & Britski, 2000 X
Astyanax cf. bimaculatus (Linnaeus, 1758) X X
Astyanax biotae Castro & Vari, 2004 X
Astyanax bockmanni Vari & Castro, 2007 X
Astyanax fasciatus (Cuvier, 1819) X X
Astyanax giton Eigenmann, 1908 X
Astyanax intermedius Eigemann, 1908 X
Astyanax janeiroensis Eigenmann, 1908 X X
Astyanax parahybae Eigenmann, 1908 X
Astyanax paranae Eigenmann, 1914 X X

Tabela 1. Continuação…

Alto Ribeira Paraíba Bacia
Paraná de Iguape do Sul Litorânea
Astyanax ribeirae Eigenmann, 1911 X
Astyanax cf. scabripinnis Eigenmann, 1908 X X X
Astyanax schubarti Britski, 1964 X
Astyanax taeniatus (Jenyns, 1842) X X
Astyanax trierythropterus Godoy, 1970 * X
Brycon amazonicus (Agassiz, 1829) X
Brycon hilarii (Valenciennes, 1903) X
Brycon insignis Steindachner, 1876 * X
Brycon nattereri Günther, 1864 * X
Brycon opalinus (Cuvier, 1817) * X
Brycon orbignyanus (Valenciennes in Cuvier & Valenciennes, 1850) * X
Bryconamericus exodon Eigenmann, 1907 X
Bryconamericus iheringii (Boulenger, 1887) X
Bryconamericus microcephalus (Ribeiro, 1908) X
Bryconamericus stramineus Eigenmann, 1908 X
Bryconamericus turiuba Langeani; Lucena; Pedrini & Tarelho-Pereira, 2005 X
Colossoma macropomum (Cuvier, 1818) X
Coptobrycon bilineatus (Ellis, 1911) * X X
Cynopotomus kincaidi (Schultz, 1950) X
Deuterodon iguape Eigenmann, 1907 X X
Deuterodon pedri Eigenmann, 1908 X
Galeocharax knerii (Steindachner, 1879) X
Glandulocauda melanopleura ( Ellis, 1911) * X X X
Gymnocorymbus ternetzi (Boulenger, 1895) X
Hasemania hanseni (Fowler, 1949) X
Hemigrammus marginatus Ellis, 1911 X
Hemigrammus parana Marinho, Carvalho, Langeani & Tatsumi, 2008 X
Hollandichthys multifasciatus (Eigenmann & Norris, 1900) X X X
Hyphessobrycon anisitsi (Eigenmann, 1907) X
Hyphessobrycon balbus Myers, 1927 X
Hyphessobrycon bifasciatus Ellis, 1911 X X X
Hyphessobrycon duragenys Ellis, 1911 * X X X
Hyphessobrycon eques (Steindachner, 1882) X X X
Hyphessobrycon flammeus Myers, 1924 * X
Hyphessobrycon griemi Hoedeman, 1957 X X
Hyphessobrycon reticulatus Ellis, 1911 X X X X
Knodus moenkhausii (Eigenmann & Kennedy, 1903) X
Metynnis maculatus (Kner, 1858) X
Metynnis mola Eigenmann & Kennedy, 1903 X
Mimagoniates lateralis (Nichols, 1913) * X
Mimagoniates microlepis (Steindachner, 1876) X X
Moenkhausia intermedia Eigenmann, 1908 X
Moenkhausia sanctaefilomenae (Steindachner, 1907) X
Myleus tiete (Eigenmann & Norris, 1900) * X
Mylossoma duriventre (Cuvier, 1818) X
Odontostilbe microcephala Eigenmann, 1907 X
Oligobrycon microstomus Eigenmann, 1915 X
Oligosarcus hepsetus (Cuvier, 1817) X X
Oligosarcus paranensis Menezes & Géry, 1983 X

Tabela 1. Continuação…

Alto Ribeira Paraíba Bacia
Paraná de Iguape do Sul Litorânea
Oligosarcus pintoi Campos, 1945 X
Oligosarcus planaltinae Menezes & Géy, 1983 X
Piabina anhembi Silva & Kaefer, 2003 X
Piabina argentea Reinhardt, 1867 X
Piaractus mesopotamicus (Holmberg, 1887) * X
Planaltina britskii Menezes; Weitzman & Burns, 2003 X
Planaltina glandipedis Menezes; Weitzman & Burns, 2003 X
Probolodus heterostomus Eigenmann, 1911 X X
Pseudocorynopoma heterandria Eigenmann, 1914 * X X
Rachoviscus crassiceps Myers, 1926 * X
Roeboides descalvadensis Fowler, 1932 X
Salminus brasiliensis (Cuvier, 1816) X X
Salminus hilarii Valenciennes, 1850 X X
Serrapinnus heterodon (Eigenmann, 1915) X
Serrapinnus notomelas (Eigenmann, 1915) X
Serrasalmus maculatus Kner, 1858 X
Serrasalmus marginatus Valenciennes, 1837 X
Spintherobolus broccae Myers, 1925 * X
Spintherobolus leptoura Weitzman & Malabarba, 1999 * X
Spintherobolus papilliferus Eigenmann, 1911 * X
Triportheus nematurus (Kner, 1858) X
Crenuchidae
Characidium alipioi Travassos, 1955 X
Characidium fasciatum Reinhardt, 1866 X
Characidium gomesi Travassos, 1956 X
Characidium japuhybense Travassos, 1949 X X X
Characidium cf. lagosantense Travassos, 1956 X
Characidium lanei Travassos, 1967 X X
Characidium laterale (Boulenger, 1895) X
Characidium lauroi (Travassos, 1949) X X
Characidium oiticicai Travassos, 1967 X X X
Characidium pterostictum Gomes, 1947 X
Characidium schubarti Travassos, 1955 X X
Characidium zebra Eigenmann, 1909 X
Curimatidae
Cyphocharax gilbert (Quoy & Gaimard, 1824) X X
Cyphocharax modestus (Fernández-Yépez, 1948) X
Cyphocharax nagelii (Steindachner, 1881) X
Cyphocharax santacatarinae (Fernandez-Yepez, 1948) X X
Cyphocharax vanderi (Britski, 1980) X
Steindachnerina insculpta (Fernández-Yépez, 1948) X
Cynodontidae
Rhaphiodon vulpinus Spix & Agassiz, 1829 X
Erythrinidae
Erythrinus erythrinus (Bloch & Schneider, 1801) X
Hoplerythrinus unitaeniatus (Agassiz, 1829) X
Hoplias intermedius (Günther, 1864) X
Hoplias lacerdae Miranda-Ribeiro, 1908 * X
Hoplias cf. malabaricus (Bloch, 1794) X X X X

Tabela 1. Continuação…

Alto Ribeira Paraíba Bacia
Paraná de Iguape do Sul Litorânea
Lebiasinidae
Nannostomus beckfordi Günther, 1872 X
Pyrrhulina australis Eigenmann & Kennedy, 1903 X
Parodontidae
Apareiodon affinis (Steindachner, 1879) X
Apareiodon ibitiensis Campos, 1944 X
Apareiodon piracicabae (Eigenmann, 1907) X
Parodon moreirai Ingenito & Buckup, 2005 X
Parodon nasus Kner, 1859 X
Prochilodontidae
Prochilodus lineatus (Valenciennes, 1836) X X
Prochilodus vimboides Kner, 1859 * X X
Gymnotiformes
Apteronotidae
Apteronotus albifrons (Linnaeus, 1766) X
Apteronotus brasiliensis (Reinhardt, 1852) X
Apteronotus caudimaculosus Santana, 2003 X
Sternarchella curvioperculata Godoy, 1968 * X
Sternarchorhynchus britskii Campos-da-Paz, 2000 X
Tembeassu marauna Triques, 1988 * X
Gymnotidae
Gymnotus carapo Linnaeus, 1758 X X X
Gymnotus inaequilabiatus (Valenciennes, 1842) X
Gymnotus pantanal Fernandes, Albert, Daniel-Silva, Lopes, Crampton & Almeida- X
Toledo, 2005
Gymnotus pantherinus (Steindachner, 1908) X X X X
Gymnotus paraguensis Albert & Crampton, 2003 X
Gymnotus sylvius Albert & Fernandes-Matioli, 1999 X X
Hypopomidae
Brachyhypopomus jureiae Triques & Khamis, 2003 * X
Brachyhypopomus pinnicaudatus (Hopkins, Comfort, Bastian & Bass, 1990) X
Rhamphichthyidae
Rhamphichthys hahni (Meinken, 1937) X
Sternopygidae
Eigenmannia trilineata López & Castello, 1966 X
Eigenmannia virescens (Valenciennes, 1847) X X
Sternopygus macrurus (Bloch & Schneider, 1801) X
Siluriformes
Aspredinidae
Bunocephalus larai Ihering, 1930 * X
Auchenipteridae
Ageneiosus militaris Valenciennes, 1836 X
Auchenipterus osteomystax (Miranda-Ribeiro, 1918) X
Glanidium cesarpintoi Ihering, 1928 X
Glanidium melanopterum Miranda-Ribeiro, 1918 X X
Tatia neivai (Ihering, 1930) X
Trachelyopterus coriaceus Valenciennes, 1840 X
Trachelyopterus galeatus (Linnaeus, 1766) X
Callichthyidae

Tabela 1. Continuação…

Alto Ribeira Paraíba Bacia
Paraná de Iguape do Sul Litorânea
Aspidoras fuscoguttatus Nijssen & Isbrücker, 1976 X
Aspidoras lakoi Miranda-Ribeiro, 1949) X
Callichthys callichthys (Linnaeus, 1758) X X X
Corydoras aeneus (Gill, 1858) X
Corydoras difluviatilis Britto & Castro, 2002 X
Corydoras ehrhardti Steindachner, 1910 X X
Corydoras flaveolus Ihering, 1911 X
Corydoras nattereri Steindachner, 1877 X X
Hoplosternum littorale (Hancock, 1828) X X X X
Lepthoplosternum pectorale (Boulenger, 1895) X
Megalechis personata (Ranzani, 1841) X
Scleromystax barbatus (Quoy & Gaimard, 1824) X X X
Scleromystax macropterus Regan, 1913 * X X
Scleromystax prionotos Nijssen & Isbrücker, 1980 * X X
Cetopsidae
Cetopsis gobioides Kner, 1857 X X
Clariidae
Clarias gariepinus (Burchell, 1840) X X
Doradidae
Platydoras armatulus(Valenciennes, 1840) X
Pterodoras granulosus (Valenciennes, 1821) X
Oxydoras eigenmanni Boulenger, 1895 X
Rhinodoras dorbignyi (Kner, 1855) X
Trachydoras paraguayensis (Eigenmann & Ward, 1907) X
Heptapteridae
Acentronichthys leptos Eigenmann & Eigenmann, 1889 X X
Cetopsorhamdia iheringi Schubart & Gomes, 1959 X
Chasmocranus brachynema Gomes & Schubart, 1958 * X
Chasmocranus lopezi (Miranda Ribeiro, 1968) X
Heptapterus multiradiatus Ihering, 1907 * X
Imparfinis borodini Mees & Cala, 1989 X
Imparfinis mirini Haseman, 1911 X
Imparfinis minutus (Lütken, 1874) X X
Imparfinis piperatus Eigenmann & Norris, 1900 X
Imparfinis schubarti (Gomes, 1956) X
Phenacorhamdia tenebrosa (Schubart, 1964) X
Pimelodella avanhandavae Eigenmann, 1917 X
Pimelodella boschmai Van der Stigchel, 1964 X
Pimelodella eigenmanni (Boulenger, 1891) X
Pimelodella gracilis (Valenciennes, 1835) X
Pimelodella kronei (Ribeiro, 1907) * X
Pimelodella lateristriga (Müller & Troschel, 1849) X
Pimelodella meeki Eigenmann, 1910 X
Pimelodella taenioptera Miranda-Ribeiro, 1918
Pimelodella rudolphi Miranda-Ribeiro, 1918 X
Pimelodella transitoria (Ribeiro, 1907) X
Rhamdella longipinnis Borodin, 1927 X
Rhamdia quelen (Quoy & Gaimard, 1824) X X X X
Rhamdioglanis frenatus Ihering, 1907 X

Tabela 1. Continuação…

Alto Ribeira Paraíba Bacia
Paraná de Iguape do Sul Litorânea
Rhamdioglanis transfasciatus Miranda-Ribeiro, 1908 X
Rhamdiopsis microcephala (Lütken, 1874) X
Taunaya bifasciata (Eigenmann & Norris, 1900) * X X X
Loricariidae
Ancistrus cirrhosus (Valenciennes, 1836) X
Ancistrus multispinis (Regan, 1912) X
Corumbataia cuestae Britski, 1997 * X
Farlowella hahni Meinke, 1937 X
Farlowella oxyrhyncha (Kner, 1853) X
Harttia carvalhoi Miranda-Ribeiro, 1939 X
Harttia gracilis Oyakawa, 1993 * X
Harttia kronei Miranda-Ribeiro, 1908 X
Harttia loricariformis Steindachner, 1876 * X
Hemipsilichthys gobio (Lütken, 1874) * X
Hisonotus depressicauda (Miranda-Ribeiro, 1918) X
Hisonotus depressinotus (Miranda-Ribeiro, 1918) X
Hisonotus francirochai (Ihering, 1928) X
Hisonotus leucofrenatus (Miranda-Ribeiro, 1908) X
Hisonotus insperatus Britski & Garavello, 2003 X
Hisonotus notatus Eigenmann & Eigenmann, 1889 X
Hisonotus paulinus (Regan, 1908) X
Hypostomus affinis (Steindachner, 1877) X
Hypostomus agna (Miranda-Ribeiro, 1907) X
Hypostomus albopunctatus (Regan, 1908) X
Hypostomus ancistroides (Ihering, 1911) X X X
Hypostomus brevis (Nichols, 1919) X
Hypostomus fluviatilis (Schubart, 1964) X
Hypostomus hermanni (Ihering, 1905) X
Hypostomus iheringi (Regan, 1908) X
Hypostomus interruptus (Miranda-Ribeiro, 1918) X
Hypostomus lexi (Ihering, 1911) X
Hypostomus luetkeni (Steindachner, 1876) X
Hypostomus margaritifer (Regan, 1908) X
Hypostomus meleagris (Marini; Nichols & La Monte, 1933) X
Hypostomus microstomus Weber, 1987 X
Hypostomus nigromaculatus (Schubart, 1967) X
Hypostomus paulinus (Ihering, 1905) X
Hypostomus regani (Ihering, 1905) X
Hypostomus scaphyceps (Nichols, 1919) X
Hypostomus strigaticeps (Regan, 1908) X
Hypostomus tapijara Oyakawa, Akama & Zanata, 2005 X
Hypostomus ternetzi (Boulenger, 1895) X
Hypostomus tietensis (Ihering, 1905) X
Hypostomus topavae (Godoy, 1969) X
Hypostomus variipictus (Ihering, 1911) X
Isbrueckerichthys alipionis (Gosline, 1947) X
Isbrueckerichthys duseni (Miranda-Ribeiro, 1907) * X
Isbrueckerichthys epakmos Pereira & Oyakawa, 2003 * X
Kronichthys heylandi (Boulenger, 1900) X
Kronichthys lacerta (Nichols, 1919) X
Kronichthys subteres Miranda-Ribeiro, 1908 X

Tabela 1. Continuação…

Alto Ribeira Paraíba Bacia
Paraná de Iguape do Sul Litorânea
Lampiella gibbosa (Miranda-Ribeiro, 1908) X
Loricaria piracicabae Ihering, 1907 X
Loricaria simillima Regan, 1904 X
Loricariichthys castaneus (Casteulnau, 1855) X X
Loricariichthys platymetopon Isbrücker & Nijssen, 1979 X
Loricariichthys rostratus Reis & Pereira, 2000 X
Megalancistrus parananus (Peters, 1881) X
Neoplecostomus paranensis Langeani, 1990 * X
Neoplecostomus microps (Steindachner, 1876) X
Neoplecostomus ribeirensis Langeani, 1990 X
Neoplecostomus seleneae Zawadzki, Pavanelli & Langeani, 2008 * X
Otocinclus affinis Steindachner, 1877 X
Otothyris juquiae Garavello, Britski & Schaefer, 1998 * X
Otothyropsis marapoama Ribeiro; Carvalho & Melo, 2005 X
Pareiorhina brachyrhyncha Chamon, Aranda & Buckup, 2005 * X
Pareiorhina carrancas Bockmann & Ribeiro, 2003
Pareiorhina rudolphi (Miranda-Ribeiro, 1911) * X
Parotocinclus maculicauda (Steindachner, 1877) X X
Pogonopoma parahybae (Steindachner, 1877) X
Proloricaria lentiginosa (Isbrücker, 1979) X
Proloricaria prolixa (Isbrücker & Nijssen, 1978) X
Pseudotocinclus juquiae Takako, Oliveira & Oyakawa, 2005 * X
Pseudotocinclus parahybae Takako, Oliveira & Oyakawa, 2005 * X
Pseudotocinclus tietensis (Ihering, 1907) * X
Pseudotothyris obtusa (Ribeiro, 1911) X X
Pterygoplichthys anisitsi Eigenmann & Kennedy, 1903 X
Rhinelepis aspera Spix & Agassiz, 1829 X
Rineloricaria kronei (Miranda-Ribeiro, 1911) X
Rineloricaria latirostris (Boulenger, 1900) X
Rineloricaria lima (Kner, 1853) X X
Rineloricaria nigricauda (Regan, 1904) X
Rineloricaria pentamaculata Langeani & Araújo, 1994 X
Rineloricaria steindachneri (Regan, 1904) X
Schizolecis guntheri (Ribeiro, 1918) X X
Pimelodidae
Hemisorubim platyrhynchos (Valenciennes, 1840) * X
Hypophthalmus edentatus Spix & Agassiz, 1829 X
Iheringichthys labrosus (Lütken, 1874) X
Pimelodus fur (Lütken, 1874) X
Pimelodus maculatus La Cepède, 1803 X X X X
Pimelodus microstoma Steindachner, 1877 X
Pimelodus paranaensis Britski & Langeani, 1988 * X
Pimelodus platicirris Borodin, 1927 X
Pinirampus pirinampu (Spix & Agassiz, 1829) X
Pseudoplatystoma corruscans (Spix & Agassiz, 1829) * X
Pseudoplatystoma fasciatum (Linnaeus, 1766) X
Sorubim lima (Bloch & Schneider, 1801) X
Steindachneridion parahybae Eigenmann & Eigenmann, 1888 * X
Steindachneridion punctatum (Miranda-Ribeiro, 1918) * X

Tabela 1. Continuação…

Alto Ribeira Paraíba Bacia
Paraná de Iguape do Sul Litorânea
Steindachneridion scriptum (Miranda-Ribeiro, 1918) * X
Zungaro jahu (Ihering, 1898) * X
Pseudopimelodidae
Microglanis cottoides (Boulenger, 1891) X
Microglanis garavelloi Shibatta & Benine, 2005 X
Microglanis parahybae (Steindachner, 1880) X
Pseudopimelodus mangurus (Valenciennes, 1835) * X
Pseudopimelodus aff. pulcher (Boulenger, 1887) X
Trichomycteridae
Homodiaetus graciosa Koch, 2002 * X
Ituglanis proops (Miranda-Ribeiro, 1908) X
Ituglanis parahybae (Eigenmann, 1918) X X
Ituglanis sp. X
Listrura camposi (Miranda-Ribeiro, 1957) * X
Listrura nematoperyx de Pinna, 1988 X
Listrura picinguabae Villa-Verde & Costa, 2006 * X
Microcambeva ribeirae Costa, Lima & Bizerril, 2004 X
Paravandellia oxyptera Miranda Ribeiro, 1912 X
Parastegophilus paulensis (Miranda Ribeiro, 1918) X
Trichogenes longipinnis Britski & Ortega, 1986 * X
Trichomycterus alternatus (Eigenmann, 1917) X
Trichomycterus brasiliensis Reinhardt, 1873 X
Trichomycterus davisi (Haseman, 1911) X X
Trichomycterus diabolus Bockmann; Casatti & de Pinna, 2004 X
Trichomycterus iheringi (Eigenmann, 1917) X X X X
Trichomycterus immaculatus (Eigenmann & Eigenmann, 1889) X
Trichomycterus itatiayae (Miranda-Ribeiro, 1906) X
Trichomycterus jacupiranga Wosiacki & Oyakawa, 2005 X
Trichomycterus maracaya Bockmann & Sazima, 2004 X
Trichomycterus mimonha Costa, 1992 X
Trichomycterus paolence (Eigenmann, 1917) * X X
Trichomycterus pauciradiatus Alencar & Costa, 2006
Trichomycterus tupinamba Wosiacki & Oyakawa, 2005 X
Trichomycterus triguttatus (Eigenmann, 1918) X
Trichomycterus zonatus (Eigenmann, 1918) X X
Cyprinodontiformes
Poeciliidae
Cnesterodon iguape Lucinda, 2005 * X
Phalloceros harpagos Lucinda, 2008 X X X X
Phalloceros lucenorum Lucinda, 2008 X
Phalloceros reisi Lucinda, 2008 X X X
Phalloceros tupinamba Lucinda, 2008 X
Phalloptychus januarius (Hensel, 1868) X
Phallotorynus fasciolatus Henn, 1916 * X X
Phallotorynus jucundus Ihering, 1931 * X
Poecilia reticulata Peters, 1859
Poecilia vivipara Bloch & Schneider, 1801 X X X
Hiphophorus helleri Heckel, 1848 X
Xiphophorus maculatus (Günther, 1866) X

Tabela 1. Continuação…

Alto Ribeira Paraíba Bacia
Paraná de Iguape do Sul Litorânea
Rivulidae
Campellolebias dorsimaculatus Costa, Lacerda & Brasil, 1989 * X
Campellolebias intermedius Costa & De Luca, 2006 * X
Kryptolebias caudomarginatus (Seegers, 1984) X
Kryptolebias ocellatus (Hensel, 1868) X
Leptolebias aureoguttatus (Cruz, 1974) * X X
Leptolebias itanhaensis Costa, 2008 * X
Rivulus apiamici Costa, 1989 X
Rivulus santensis Köhler, 1906 X X X
Synbranchiformes
Synbranchidae
Synbranchus marmoratus Bloch, 1795 X X X
Perciformes
Blenniidae
Lupinoblennius paivai (Pinto, 1958) X
Centrarchidae
Micropterus salmoides (La Cepède, 1802) X
Cichlidae
Astronotus crassipinnis Heckel, 1840 X
Australoheros facetus (Jenyns, 1842) X
Australoheros ribeirae Ottoni, Oyakawa & Costa, 2008 X
Cichla kelberi Kullander & Ferreira, 2006 X
Cichla piquiti Kullander & Ferreira, 2006 X
Australoheros facetus (Jenyns, 1842) X
Cichlasoma paranaense Kullander, 1983 X
Crenicichla britskii Kullander, 1982 X
Crenicichla haroldoi Luengo & Britski, 1974 X
Crenicichla iguapina Kullander & Lucena, 2006 X
Crenicichla jaguarensis Haseman, 1911 X
Crenicichla jupiaiensis Britski & Luengo, 1968 * X
Crenicichla lacustris (Castelnau, 1855) X
Geophagus brasiliensis (Quoy & Gaimard, 1824) X X X
Geophagus iporanguensis Haseman, 1911 X
Geophagus proximus (Castelnau, 1855) X
Oreochromis niloticus (Linnaeus, 1758) X X
Satanoperca pappaterra (Heckel, 1840) X
Tilapia rendalli (Boulenger, 1897) X X
Eleotridae
Dormitator maculatus (Bloch, 1792) X
Eleotris pisonis (Gmelin, 1789) X
Guavina guavina (Valenciennes, 1837) X
Gobiidae
Awaous tajasica (Lichtenstein, 1822) X
Ctenogobius shufeldti (Jordan & Eigenmann, 1887) X
Sciaenidae
Plagioscion squamosissimus (Heckel, 1840) X
Pleuronectiformes
Achiridae
Catathyridium jenynsii (Günther, 1862) X

ictio-paulista2

Observando-se novamente a Tabela 1, alguns aspectos merecem ser ressaltados. Das quatro espécies que compõem o gênero Spintherobolus, três ocorrem em São Paulo e as três estão ameaçadas. Todas as três espécies do gênero Pseudotocinclus, cada uma delas restrita à uma bacia hidrográficas do estado, estão sob diferentes graus de ameaça. Steindachneridion, gênero composto por seis espécies, possui três representantes no estado; duas dessas – S. punctatum (Miranda-Ribeiro, 1918) e S. scriptum (Miranda-Ribeiro, 1918) do Alto Paraná estão ameaçadas e S. parahybae (Steindachner, 1877), da bacia do Paraíba do Sul, foi considerada como regionalmente extinta no Estado de São Paulo. Populações naturais de Brycon insignis Steindachner, 1877, que na década de 1950 foi um importante recurso pesqueiro na porção paulista da bacia do Rio Paraíba do Sul, e B. nattereri Günther, 1864 do Alto Paraná, estão provavelmente extintas no estado (Oyakawa et al. 2009).

Mesmo sendo a mais extensa bacia hidrográfica do Estado de São Paulo, o Alto Paraná como um todo, possui uma das ictiofaunas da América do Sul melhor conhecida e estudadas; apesar deste fato, o número de espécies ainda está longe de representar a realidade, uma vez que a curva de acúmulo de espécie não mostra nenhuma tendência de estabilização, e diversas descobertas futuras de novos táxons são esperadas na bacia (Langeani et al. 2007). A segunda bacia melhor estudada é a do Ribeira de Iguape, sendo o número estimado de espécies, cerca de 100, bastante fidedigno. Entretanto, aqui também existem algumas espécies novas e também um gênero novo da família Trichomycteridae já descobertas, mas que ainda não foram descritas formalmente. A bacia do Paraíba do Sul e a bacia litorânea ainda são praticamente terra incógnita na sua porção paulista, uma vez que ainda não foram objetos de inventariação sistemáticos como as duas outras bacias.

Pelo exposto acima fica claro que muito trabalho de coleta e de descrição das novas espécies ainda necessitam ser realizadas. No que tange às coletas, no Alto Paraná ambientes profundos de calha nunca foram amostradas, bem como ambientes como áreas marginais e de alagadiços de rios e represas (Langeani et al. 2007). Duas espécies de Gymnotiformes, ameaçadas de extinção, Sternarchorhynchus britskii Campos da Paz, 2000 e Tembeassu marauna são conhecidas de coletas feitas em ensecadeiras, no leito do Rio Paraná em locais de rochas e corredeiras, durante a construção da usina hidrelétrica de Ilha Solteira, nos anos de 1965 e 1972. Atualmente existem outros exemplares da primeira espécie coletadas em outras localidades como o Rio Grande na divisa entre São Paulo e Minas Gerais (Campos-da-Paz 2005). Tembeassu marauna Triques, 1998, por outro lado, até o momento só é conhecida dos três exemplares que serviram de base para a sua descrição em 1998.

Na bacia do Alto Tietê, em áreas intensamente urbanizadas dos municípios de Embu das Artes, Itapecerica da Serra e São Paulo, coletas recentes revelaram a presença de pequenas populações de espécies raras, espécies ameaçadas de extinção e também de espécies que nunca antes haviam sido registradas no Alto Tietê. Alguns exemplos são: Hyphessobrycon flammeus Myers, 1924, espécie ameaçada de extinção e conhecida apenas da baixada fluminense; Rivulus santensis Köhler, 1906, conhecida apenas da bacia litorânea; Trichomycterus paolence (Eigenmann, 1917), também ameaçada de extinção, conhecida anteriormente somente da região de Paranapiacaba no município de Santo André; e Ituglanissp. gênero nunca antes referido para o Alto Tietê. Outro exemplo bastante ilustrativo sobre a necessidade de coletas em diferentes ambientes é dado pelo trabalho de Serra et al. (2007) no Rio Itatinga, afluente do Rio Itapanhaú que pertence à bacia litorânea. O Rio Itatinga, apesar de ser um afluente do Itapanhaú, que pertence à bacia litorânea, tem suas nascentes no topo da serra da região do planalto atlântico paulista. Neste rio os autores identificaram uma grande população de Coptobrycon bilineatus (Ellis, 1911), espécie ameaçada de extinção, da qual os únicos registros anteriores datavam do longínquo ano de 1908 na região de Paranapiacaba. Além desta espécie foram registradas também Pseudotocinclus tietensis (Ihering, 1907), Glandulocauda melanopleura (Ellis, 1911) e Taunayia bifasciata (Eigenmann & Norris, 1900), todas também ameaçadas de extinção, além de Trichomycterus iheringi (Eigenmann, 1917) identificado pelos autores como Trichomycterus sp., todos típicos representantes da ictiofauna do Alto Tietê. O trabalho de Ribeiro et al. (2006) também é bastante ilustrativo ao registrar na parte superior do Rio Guaratuba, outro rio litorâneo cujas cabeceiras também estão localizadas no planalto atlântico, espécies como Astyanax paranae Eigenmann, 1914, Glandulocauda melanopleura (Ellis, 1911), Characidium oiticicai Travasso, 1967e Trichomycterus paolence (Eigenmann, 1917), também anteriormente conhecidos por só ocorrerem no Alto Tietê. Trabalhos de inventariação ainda não finalizados parecem indicar o mesmo padrão na bacia do Rio Capivari-Monos, localizado na APA Capivari-Monos, na zona sul do município de São Paulo.

Durante as reuniões para a elaboração do Livro Vermelho da Fauna Ameaçada de Extinção do Estado de São Paulo”, um dos integrantes do grupo de trabalho relatou a ocorrência de Rachoviscus crassiceps Myers, 1926, em riachos de águas pretas do município de Itanhaém. Anteriormente esta espécie só era conhecida oficialmente dos riachos litorâneos do município de Guaratuba no estado do Paraná. Posteriormente uma equipe do Museu de Zoologia da Universidade de São Paulo logrou coletar alguns exemplares da espécie que estão depositadas na coleção de peixes deste museu.

Na bacia do Rio Paraíba do Sul há outro exemplo do quanto ainda é falha a inventariação da ictiofauna do estado, pois recentemente foi registrada a ocorrência, em um dos braços a represa de Paraibuna, de Pogonopoma parahybae (Steindachner, 1877), espécie ameaçada de extinção, conhecida anteriormente só das porções carioca e mineira do Paraíba do Sul.

Entre os vários trabalhos de descrição de espécies novas do estado, três merecem ser destacados. Garutti & Britski (2000) descrevem Astyanax altiparanae e fazem uma síntese a respeito das sete espécies do gênero que ocorrem no Alto Paraná. Astyanax altiparanae é espécie amplamente distribuída em todo o Alto Paraná mas era identificada, anteriormente à este trabalho, como Astyanax bimaculatus (Linnaeus, 1758), cuja localidade-tipo seria provavelmente no Suriname. Segundo os autores, análises preliminares indicariam que formas de Astyanax do grupo bimaculatus, portadoras de determinadas características como nesta espécie, ocorreriam somente na bacia Amazônica e ao norte desta; não ocorrendo, portanto em nenhuma bacia hidrográfica de São Paulo. Ainda segundo esses mesmos autores, Astyanax eigenmanniorum (Cope, 1894), descrita originalmente do Rio Grande do Sul e posteriormente assinalada em outras bacias, inclusive em São Paulo, seria também constituída de um complexo de espécies, que à semelhança de “A. bimaculatus”, deverão ser desmembradas em várias espécies quando se realizarem análises mais criteriosas das mesmas. Confirmando esta afirmação, Vari & Castro (2007) descrevem Astyanax bockmanni com base no exame de grande número de exemplares coletados no Alto Paraná, inclusive em São Paulo, todos identificados anteriormente como Astyanax eigenmanniorum (Cope, 1894).

Lucinda (2008) descreve 21 espécies novas de Phalloceros, até então tido como um gênero monotípico e com ampla distribuição nos rios do Sul e Sudeste do Brasil. O gênero, apesar de bem conhecido sob vários aspectos como ecologia, anatomia e embriologia, era muito pouco estudado quanto à sua sistemática e taxonomia. Em São Paulo, o autor reconhece quatro espécies novas, sendo uma no Paraíba do Sul, duas no Alto Paraná e três no Ribeira de Iguape e na Bacia Litorânea.

Os principais grupos ativos de pesquisa sobre peixes de água doce no estado de São Paulo encontram-se no Museu de Zoologia da Universidade de São Paulo (MZUSP), Laboratório de Ictiologia de Ribeirão Preto, Departamento de Biologia, Universidade de São Paulo, Ribeirão Preto (LIRP), Laboratório de Ictiologia, Departamento de Zoologia e Botânica, Universidade Estadual Paulista – campus de São José do Rio Preto (DZSJRP) e Coleção do Laboratório de Biologia e Genética de Peixes da Universidade Estadual Paulista – campus de Botucatu (LBP).

Artigo publicado com autorização de Osvaldo Takeshi Oyakawa. Confira a versão original em Biota Neotropical

Referências Bibliográficas

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Sobre Edson Rechi 594 Artigos
Aquarista em duas fases distintas, a primeira quando criança e tentava manter peixes ornamentais sem muito sucesso. Após um longo período sem aquários, voltou no aquarismo em 2004, desde então já manteve diversos tipos de aquários como plantado, peixes jumbo, ciclídeos africanos, água salobra, amazônico comunitário e marinho. Atualmente curte e mantém peixes primitivos e ciclídeos neotropicais, suas grandes paixões.

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