Goby Lira (Evorthodus lyricus) | Ficha técnica

Espécimes adultos (macho maior) em um pequeno estuário de água escura em Manguinhos, Serra, ES (Brasil) — Foto de Jean-Christophe Joyeux (CCBY-NC)

Nome Científico: Evorthodus lyricus (Girard, 1858)

Ordem: Gobiiformes — Família: Gobiidae

Nome popular: Goby Lira, Amoré, Maria do Toca — Inglês: Lyre goby

Distribuição: Ampla distribuição no Atlântico Ocidental

Etimologia: Evorthodus do grego eu (que significa “bom”), ortho (“reto” ou “correto”) e odous (“dentes”). Refere-se à fileira de dentes alinhados e bem estruturados característicos do gênero.

Lyricus, deriva do latim lyra ou do grego lyrikos, significando “lírico” ou “relativo à lira”. Foi atribuído devido ao padrão de manchas na nadadeira caudal e na base do corpo que lembram o formato ou as linhas de uma lira, um antigo instrumento musical.

Status de Conservação (IUCN Red List): Pouco preocupante (2026)

Sinônimos: Ctenogobius curtisi, Gobius parvus, Smaragdus costalesi, Evorthodus breviceps, Gobius lyricus


Descrição

O Gobby violeta possui corpo robusto, fusiforme e alongado. Apresenta focinho curto, arredondado e uma boca pequena localizada na parte inferior (subterminal).  Nadadeiras pélvicas são fundidas, formando uma espécie de disco sugador redondo que não se prende totalmente à barriga.

Sua coloração varia do bronze claro ou cinza nas fêmeas até tons de bronze esverdeado nos machos maduros. As laterais exibem manchas escuras e barras verticais finas e iridescentes.

A base da nadadeira caudal possui duas manchas pretas quadradas ou diamantes distintas, dispostas verticalmente e separadas por uma área central clara, desenho que dá origem ao seu nome. Exibe três listras escuras que vão dos olhos até a mandíbula superior.

Possui adaptações fisiológicas para sobreviver em ambientes considerados inaptos para outros peixes como águas turvas e poluídas. Vive em locais com grande suspensão de sedimentos (lama e lodo) e águas ricas em matéria orgânica em decomposição.

Tolera ambientes com baixos níveis de oxigênio dissolvido, uma característica comum nas poças de maré isoladas durante a maré baixa ou no fundo lodoso onde passa a maior parte do tempo.

  • Tamanho Adulto: 15 cm
  • Expectativa de Vida: 3 a 4 anos

Distribuição e Habitat

Possui ampla distribuição no Atlântico Ocidental. Seu habitat abrange áreas costeiras, desde a Baía de Chesapeake, nos Estados Unidos, passando pelo Golfo do México, Mar do Caribe, até chegar ao litoral sul do Brasil (incluindo o estado de São Paulo e o Rio Grande do Sul).

Países: Belize, Cayman, Costa Rica, Estados Unidos, Cuba, Republica Dominicana, Haiti, Jamaica, México, Porto Rico, Trinidade e Tobago, Brasil, Suriname e Venezuela.

No Brasil ocorre em praticamente todos os estados da costa Atlântica.

Habitat: Águas costeiras rasas de 0 a 10 metros de profundidade, incluindo fundos lamacentos de baías, estuários e manguezais.  É uma espécie eurialina, o que significa que tolera grandes variações de salinidade, penetrando facilmente em rios e ambientes de água doce.

  • pH: 7.2 a 8.4
  • Dureza: 12 a 20 dH
  • Temperatura: 20°C a 30°C
Foto de Squidpastry (CCBY-NC) em https://www.inaturalist.org/

Criação em Aquário

Aquário de pelo menos 100 litros com comprimento mínimo de 80 cm e 30 cm de largura desejável.

Embora seja um peixe extremamente resistente a variações químicas, ele possui um comportamento alimentar e social muito específico que exige uma montagem planejada, idealmente um aquário de água salobra.

Deve-se utilizar obrigatoriamente areia fina e macia. Substratos grossos ou cascalhos pontiagudos cortam a boca do peixe e impedem seu comportamento natural de filtragem.

É necessário fornecer muitas toca, fendas de rochas, vasos de cerâmica deitados ou cascas de coco. Eles precisam de abrigos escuros para se fixarem com sua ventosa pélvica e se sentirem seguros.

Embora tolerem água doce temporariamente na natureza, eles prosperam a longo prazo e exibem suas melhores cores em água salobra. Ideal manter a gravidade específica entre 1.005 e 1.012 (utilizando sal marinho sintético para aquários, nunca sal de cozinha).

O aquário deve ser totalmente fechado. Como habitam poças de maré na natureza, eles são exímios saltadores e podem pular para fora ao menor sinal de estresse.

Comportamento e Compatibilidade: Os machos são altamente territoriais entre si. Dois machos no mesmo aquário pequeno travarão disputas constantes pelas tocas. Recomenda-se manter apenas um macho por tanque, acompanhado de uma ou duas fêmeas.

São peixes pacíficos com espécies de peixes. Podem dividir o aquário de água salobra com Mollinesias (Poecilia), peixes-abelhinha (Brachygobius) ou pequenos camarões fantasmas. Evite peixes muito grandes ou agressivos que possam intimidá-los ou devorá-los.

Se possível, o ideal é criá-los em aquário mono espécie.

  • Área de Natação: Fundo
  • Quantidade mínima: Casal ou Sozinho
  • Nível de dificuldade: Médio

Alimentação

Detritívoro. É predominantemente um consumidor de detritos. Ele passa o tempo percorrendo o fundo lodoso, abocanhando o sedimento rico em matéria orgânica, retendo os nutrientes (como microalgas, bactérias e micro-organismos) e expelindo a areia ou a lama restante.

A alimentação é o ponto mais crítico na manutenção da espécie em aquário. Ele se alimenta abocanhando porções de areia, filtrando os micro-organismos e expelindo os grãos pelas brânquias. Rações comuns em flocos geralmente são ignoradas ou difíceis de serem capturadas no fundo. Deve-se focar em rações de fundo para peixes carnívoros/onívoros (bottom pellets) que afundem rapidamente.

Alimento vivo e congelado é essencial para o sucesso de sua criação. Forneça regularmente náuplios de artêmia, artêmias adultas, microvermes e mysis depositados diretamente no substrato.

Espécime adulto em um pequeno estuário de água escura em Manguinhos, Serra, ES (Brasil) — Foto de Jean-Christophe Joyeux (CCBY-NC)

Reprodução

Ovíparo. A época reprodutiva intensifica o forte dimorfismo sexual da espécie. O macho assume uma coloração nupcial mais vistosa. Ele usa seus longos espinhos alongados da nadadeira dorsal para se exibir para a fêmea e delimitar um território ao redor do ninho.

O ritual envolve exibições visuais com as nadadeiras esticadas para atrair a fêmea até o abrigo escolhido para a deposição dos ovos.

Eles utilizam pequenas poças de maré temporárias formadas na superfície de marismas e pântanos salgados para desovar. As fêmeas depositam os ovos aderidos a superfícies duras ou abrigadas no fundo (como o interior de conchas vazias, fendas de rochas ou sob detritos), garantindo que não sejam levados pela força da maré.

As fêmeas maduras são capazes de realizar múltiplas desovas fracionadas ao longo de uma mesma temporada reprodutiva, aproveitando os picos de maré para depositar novos lotes de ovos nos ninhos protegidos pelo macho.

Após a fertilização externa dos ovos, a fêmea deixa o local e o macho assume a responsabilidade exclusiva de proteger o ninho. Ele guarda os ovos contra predadores e agita continuamente suas nadadeiras peitorais para oxigenar a massa de ovos e evitar o acúmulo de fungos ou sedimentos do fundo lodoso.

Ao eclodirem, as larvas minúsculas são carreadas pela maré vazante para águas costeiras ou estuarinas mais abertas. Elas passam um período integrando o plâncton (coluna d’água), alimentando-se de micro-organismos. Após sofrerem metamorfose e adquirirem a morfologia juvenil, os peixes retornam para o fundo lodoso (hábito bentônico) em zonas rasas ou adentram rios de água doce para completar seu crescimento.

A incubação leva de 2 a 4 dias. Nascem carregando uma pequena reserva de nutrientes (o vitelo) grudada ao corpo. Eles se alimentam exclusivamente disso nas primeiras 48 horas de vida, até que sua boca e trato digestivo se desenvolvam por completo.

São quase invisíveis a olho. Possuem pouquíssimas células de pigmento (melanóforos), uma camuflagem essencial para não serem devorados em mar aberto.

  • Maturidade Sexual: Próximo de 3 a 5 cm
  • Cuidado Parental: Ocorre

Dimorfismo Sexual: Machos possuem os espinhos da primeira nadadeira dorsal mais alongados, que podem alcançar a base da cauda. A nadadeira caudal tem formato ovalado com listras horizontais avermelhadas ou rosadas.

Fêmeas possuem nadadeiras dorsais arredondadas e espinhos mais curtos. A nadadeira caudal é mais larga e arredondada, e a cobertura das guelras (opérculo) tende a ser preta.


Referências

  • Robins, C.R. and G.C. Ray, 1986. A field guide to Atlantic coast fishes of North America. Houghton Mifflin Company, Boston, U.S.A.
  • Cervigón, F., 1994. Los peces marinos de Venezuela. Volume 3. Fundación Científica Los Roques, Caracas,Venezuela.
  • Smith, C.L., 1997. National Audubon Society field guide to tropical marine fishes of the Caribbean, the Gulf of Mexico, Florida, the Bahamas, and Bermuda. Alfred A. Knopf, Inc., New York.
  • Claro, R., 1994. Características generales de la ictiofauna. p. 55-70. In R. Claro (ed.) Ecología de los peces marinos de Cuba. Instituto de Oceanología Academia de Ciencias de Cuba and Centro de Investigaciones de Quintana Roo.
  • McDowall, R.M., 1997. The evolution of diadromy in fishes (revisited) and its place in phylogenetic analysis. Rev. Fish Biol. Fish.
  • Evorthodus lyricus (Girard 1858) Family Gobiidae em Florida Museum
  • Evorthodus lyricus em The Fishes of North Caroline 
  • Evorthodus lyricus, Lyre Goby em Shorefishes of the Greater Caribbean

Publicado em Junho/2026

EdsonRechi

Aquarista desde criança quando tentava manter peixes sem sucesso. Após um longo período sem aquários, voltei para o aquarismo em 2004 por influência de minha esposa. Desde então, já mantive diversos tipos de aquários e peixes. Articulista, além de organizar e palestrar em eventos ligados ao hobby nos últimos anos. Atualmente se dedica ao site o qual pretende tornar a maior referência de peixes ornamentais em língua portuguesa.

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