Como alguns peixes neotropicais se comunicam com campos elétricos
Uma enguia pode gerar corrente suficiente para atordoar sua presa da mesma forma que um taser (måquina de eletrochoque, na expressão inglesa). E peixes da ordem Gymnotiformes, importantes componentes da fauna neotropical de ågua doce das Américas Central e do Sul, também podem gerar eletricidade, mas não a ponto de nos machucar.

âEsses peixes, entre eles o peixe faca, sĂŁo Ășnicos por produzir e detectar campos elĂ©tricosâ, explica o neuroetologista Eric Fortune, da Universidade Johns Hopkins, que se debruça sobre a aproximação evolutiva e comparativa do comportamento animal. âEles utilizam esses campos elĂ©tricos na comunicação social e na detecção de objetosâ, completa o pesquisador ianque, que viajou ao Equador para estudar os peixes faca em seu hĂĄbitat natural. Ele instalou alguns instrumentos acĂșsticos debaixo da ĂĄgua, para que pudesse ouvir e registrar os zumbidos elĂ©tricos dos peixes.
De volta à universidade, o pesquisador e engenheiro mecùnico Noah Cowan, e o resto do grupo de Fortune, usaram as informaçÔes coletadas para fazer experimentos e observaçÔes no laboratório. Eles estudaram o peixe faca a fim de aprender mais sobre como os cérebros dos animais trabalham para controlar seus comportamentos.
âNĂłs observamos como eles interagem na natureza e depois criamos experimentos controlados, que nos permitem provar algumas questĂ”es cientĂficas especĂficasâ, conta Cowan. âOs pesquisadores querem compreender melhor como esses peixes usam seus campos elĂ©tricos, como se fosse um sexto sentido, nĂŁo apenas para se comunicar, mas para nadar e para encontrar sua prĂłxima refeiçãoâ.
Isso se deve a um pequeno órgão localizado na cauda do peixe, que gera o campo elétrico que o circunvolve. Quando algo passa através do seu campo, o peixe tem receptores em sua pele que detectam o objeto.
Cada peixe faca pode gerar sua prĂłpria frequĂȘncia, que, em alguns casos, muda, quando outros peixes da mesma espĂ©cie se aproximam. Ainda nĂŁo se sabe exatamente porque, mas os cientistas acreditam que seja para evitar um congestionamento dos sinais ou para se comunicar.

Agora os pesquisadores querem saber o que acontece quando mais que dois peixes faca interagem. Seus campos aumentam ou reduzem a habilidade de detectar predadores e presas? Dependendo da resposta, talvez viver em grupo para essa espécie seja mais benéfico.
Os cientistas destacam a capacidade de nado desse peixe, que Ă© fantĂĄstica: eles podem nadar para frente, para trĂĄs e rodar rapidamente. Por esses motivos Ă© que o peixe faca estĂĄ sendo utilizado como modelo para o desenvolvimento de pequenos robĂŽs submersĂveis. O engenheiro mecĂąnico e biomĂ©dico Malcolm MacIver, da Universidade Northwestern, nos Estados Unidos, estĂĄ montando um robĂŽ ĂĄgil que pode nadar como a espĂ©cie de peixe em questĂŁo. E, algum dia, talvez, o robĂŽ tambĂ©m possa se utilizar de um âsexto sentidoâ para monitorar a saĂșde dos recifes de coral ou para nadar nas ĂĄguas escuras de um derramamento de petrĂłleo.
Fonte: Hypescience / National Science Foundation