Lampreia de Riacho (Lampetra planeri) | Ficha técnica

Nome Científico: Lampetra planeri ( Bloch , 1784 )
Ordem: Petromyzontiformes — Família: Petromyzontidae
Nome popular: Lampreia de Riacho — Inglês: European brook lamprey
Distribuição: Praticamente cosmopolita na Europa Ocidental
Etimologia: Lampetra, o termo vem da junção de duas palavras antigas que fazem alusão direta ao hábito do peixe de se fixar a superfícies: Lambo (Latim), Significa “lamber” + Petra (Grego), Significa “pedra” ou “rocha”.
Planeri, o termo é um epônimo, em homenagem a Johann Jacob Planer (1743–1789). Renomado médico, botânico e micologista alemão. O naturalista Marcus Elieser Bloch, que descreveu formalmente a espécie, utilizou o sobrenome de Planer (latinizado para planeri), porque foi o próprio botânico quem lhe forneceu o espécime original (holótipo) para o estudo científico.
Status de Conservação (IUCN Red List): Quase ameaçada (2026)
Sinônimos: –
Descrição
A Lampreia de riacho é um peixe primitivo que manteve traços evolutivos de milhões de anos atrás, adaptado perfeitamente para viver enterrado no lodo durante a juventude e em águas correntes na idade adulta.
Possui um formato cilíndrico e alongado que lembra uma cobra ou enguia, mas sem qualquer parentesco com répteis ou peixes ósseos modernos. Ao contrário da maioria dos peixes, ela não possui nadadeiras peitorais ou pélvicas. Tem apenas nadadeiras dorsais (que são unidas entre si nesta espécie) e uma nadadeira caudal que ajuda na propulsão.
Em vez de guelras protegidas por um opérculo, apresenta 7 pares de poros branquiais externos enfileirados logo atrás dos olhos. Sua boca é uma ventosa circular permanente que não abre ou fecha como a de outros animais.
O disco oral contém placas de dentes queratinizados amarelos. Diferente de suas parentes marinhas, esses dentes são curtos, arredondados e sem corte, pois a espécie não precisa perfurar tecidos para se alimentar. A borda da ventosa bucal é cercada por uma franja fimbriada (pequenos filamentos) que ajuda na vedação a vácuo quando o animal se fixa nas pedras do rio.
A construção de barragens, açudes e eclusas impede a dispersão da espécie e bloqueia o acesso a locais ideais de desova. Como suas larvas passam vários anos enterradas no lodo filtrando alimentos, elas são altamente vulneráveis ao acúmulo de poluentes químicos e agrícolas no leito dos rios.
Atividades como dragagem de leitos, canalização de riachos e a intensificação de secas sazonais eliminam os sedimentos finos onde as larvas se desenvolvem.
Em países como a Holanda, onde a espécie foi classificada localmente como “Em Perigo”, programas de translocação e restauração ecológica estão reintroduzindo com sucesso populações em rios limpos.
- Tamanho Adulto: 20 cm
- Expectativa de Vida: 7 anos

Distribuição e Habitat
É uma espécie exclusivamente europeia e residente de água doce. Ao contrário de outras lampreias, ela não migra para o mar, o que limita sua distribuição a bacias hidrográficas específicas do continente.
Na Europa setentrional e central é amplamente distribuída em toda a bacia do Mar Báltico e do Mar do Norte. Ocorre em abundância no Reino Unido, Irlanda, Suécia e sul da Finlândia. Suas populações estendem-se até o curso superior do Rio Volga, na Rússia, e no curso superior do Rio Danúbio.
A distribuição torna-se descontínua em direção ao sul da Europa. É encontrada no sul da França, na Itália (bacia do Rio Pó e drenagem de Pescara) e em pequenas populações isoladas nos Balcãs. O limite de sua distribuição é registrado na Península Ibérica, especificamente na bacia do Rio Tejo, em Portugal.
Países: Vide acima.
Ambiente: Água doce
Habitat: Os adultos são encontrados nas zonas de planície, sopé e montanha, em riachos límpidos e bem oxigenados. Vivem exclusivamente em água doce; nos trechos médios e superiores de pequenos riachos e rios, ocasionalmente em lagos. As larvas permanecem enterradas no substrato, enquanto os adultos vivem em águas abertas. Vivem em areias ricas em detritos ou sedimentos argilosos.
Como uma espécie altamente especializada e sensível que vive em cabeceiras de rios, possui exigências ecológicas muito rígidas de temperatura e pH. Ela atua, inclusive, como um excelente bioindicador da qualidade e pureza da água.
Por causa dessa preferência por pH neutro/alcalino, as maiores densidades populacionais da espécie ocorrem em riachos de regiões calcárias ou onde o leito do rio possui boa capacidade de tamponamento natural.
A lampreia-de-riacho é um animal estenotérmico frio, o que significa que ela só tolera variações estreitas de temperaturas baixas.
- pH: 7 a 8
- Dureza: –
- Temperatura: 04°C a 15°C
Criação em Aquário
Sua criação em aquário é desconhecido.
Comportamento e Compatibilidade: –
- Área de Natação: –
- Quantidade mínima: –
- Nível de dificuldade: –

Alimentação
A alimentação é um dos aspectos mais fascinantes da sua biologia, pois muda drasticamente de acordo com a fase da sua vida. A espécie passa de um animal que se alimenta continuamente por filtragem para um adulto que para de se alimentar.
Durante a fase larval, fase mais longa do ciclo de vida, durando de 3 a 5 anos. As larvas vivem enterradas no lodo dos rios e são microfágas filtradoras. Elas ficam presas em túneis no sedimento e usam correntes de água geradas por movimentos internos para puxar partículas orgânicas em suspensão.
Dentro da faringe da larva, uma glândula chamada endóstilo secreta um muco pegajoso. Esse muco captura as microalgas e partículas da água, direcionando-as para o trato digestivo.
Consiste essencialmente em diatomáceas (algas microscópicas), detritos orgânicos finos, bactérias e protozoários que flutuam rente ao fundo do rio.
Logo após sofrer a metamorfose para a fase adulta (que ocorre no outono), o comportamento alimentar da espécie cessa por completo. Ao contrário da lampreia-marinha, esta espécie não ataca peixes e nunca consome sangue.
Seu intestino e estômago encolhem, perdem a função e transformam-se em um cordão de tecido sólido sem utilidade. Em sua fase adulta vive exclusivamente da energia e gordura que acumulou durante os anos em que foi uma larva filtradora.
A energia restante é direcionada apenas para o amadurecimento dos óvulos e espermatozoides, construção do ninho e desova. Após cumprir esse papel biológico (que dura poucas semanas), o adulto morre de exaustão e fome.
Reprodução
Os adultos abandonam seus esconderijos de inverno e migram pequenas distâncias rio acima em busca de áreas de cabeceira com correnteza moderada e fundo de cascalho. Vários indivíduos (às vezes dezenas) reúnem-se no mesmo local para construir um ninho compartilhado em formato de depressão oval.
Utilizando a ventosa bucal, as lampreias fixam-se firmemente em pedras do leito do rio e movem-nas para as bordas do ninho contra a correnteza. É desse comportamento vigoroso que deriva o nome Lampetra (“lambedor de pedras”).
O ato reprodutivo é rápido, frenético e envolve múltiplos parceiros dentro do mesmo ninho. A fêmea usa sua boca de ventosa para agarrar-se a uma pedra grande localizada na borda frontal do ninho, mantendo-se firme contra o fluxo da água. O macho aproxima-se e usa sua própria ventosa para fixar-se na cabeça ou no dorso da fêmea. Em seguida, ele enrola seu corpo espiralado ao redor dela para alinhar as gónadas.
Sob forte vibração corporal de ambos, a fêmea libera os óvulos na coluna de água enquanto o macho libera o esperma para fertilizá-los imediatamente.
Os ovos fertilizados são ligeiramente adesivos e caem no fundo do ninho. O movimento dos peixes e a própria correnteza do rio cobrem os ovos com areia fina e pequenos cascalhos, protegendo-os de predadores.
Como não se alimentam desde a metamorfose no outono anterior, o esforço físico extremo do acasalamento e da construção do ninho esgota as últimas reservas de energia dos adultos. Eles sofrem falência biológica generalizada e morrem poucos dias após a desova.
Cerca de duas a três semanas depois, dependendo diretamente da temperatura da água, os ovos eclodem e liberam as minúsculas larvas amocetes. Elas são levadas pela correnteza até áreas de águas mais calmas, onde se enterram no lodo para iniciar o ciclo depois de 3 a 5 anos novamente.
- Maturidade Sexual: Próximo de 11 cm
- Cuidado Parental: Não ocorre
Dimorfismo Sexual: O dimorfismo sexual externo é praticamente imperceptível durante a maior parte da vida.

Referências
Hardisty, M.W., 1986. Lampetra planeri (Bloch 1784). p. 279-304. In J. Holcík (ed.) The Freshwater fishes of Europe. Vol. 1, Part 1. Petromyzontiformes.
Renaud, C.B., 2011. Lampreys of the world. An annotated and illustrated catalogue of lamprey species known to date. FAO Species Catalogue for Fishery Purposes. No. 5. Rome, FAO.
Kottelat, M. and J. Freyhof, 2007. Handbook of European freshwater fishes. Publications Kottelat, Cornol and Freyhof, Berlin.
Hanel, L. and J. Andreska, 2006. Bioindicative evaluation of the brook lamprey (Lampetra planeri) in water environment. pp. 234-238. In Kočárek P., Plásek V. and Malachová K. (eds.) Environmental changes and biological assessment III. Scripta Facultatis Rerum Naturalium Universitatis Ostraviensis
Publicado em Agosto/2026