Mudskipper, o Saltador do Lodo

Autor: Renato Moterani

Mudskipper

Vamos a mais uma das histórias do Moterani…

Imagina que você é um goby, vive no fundo do mar, tem muita comida lá, mas, também tem muita competição por essa comida e metade daquilo que nada ou rasteja ao seu redor te vê como comida também.

Logo ali do lado, tem um lugar diferente, com uma água misturada, nem doce nem salgada, com muita comida e menor competição.

Que lugar legal pra se viver hein?

Mas pra isso será preciso fazer algumas modificações fisiológicas, a primeira é necessária para suportar a diferença de salinidade daquele ambiente, durante a maré alta, o mar sobe e deixa a água mais salgada, baixa, o rio avança e ela fica mais doce.

Superada essa dificuldade, você descobre que esse ciclo de cheias e vazantes cria dois problemas, na vazante aparece muita comida fácil, mas só há um mar de lama, onde um peixe não conseguiria respirar.

Na cheia, essa comida fácil some e você também precisa sumir porque não é a maior coisa que nada nessas águas. Essa parte é fácil, gobys são ótimos escavadores e podem fazer tocas facilmente.

Legal, agora como vamos chegar ao banquete do lamaçal?
Outra adaptação fisiológica é necessária, precisamos respirar ar.

Existem muitas possibilidades para resolver esse problema, labirinto, bexiga natatória modificada, pulmões, vascularização da boca ou intestino.

Acredito que a maioria de vocês que estão lendo isso já iria optar por pulmões logo de cara.

Mas a natureza é sábia e sempre busca a melhor opção com o menor custo de produção. Pulmões são mais eficientes para retirar oxigênio do ar, sem dúvida, mas, tem algumas desvantagens, como por exemplo, obrigar o peixe a subir para respirar. Isso seria um desastre para um peixe pequeno, com cerca de 20cm, exatamente no momento onde existem mais predadores caçando naquele ambiente.

E qual seria a melhor nesse caso?

Bom, precisamos de algo que retire oxigênio do ar, mas que possibilite que continuemos a respirar água sem problemas, com isso já eliminamos pulmões e bexiga natatória, como temos que ficar por longos períodos fora d’água, precisamos de um sistema que funcione sem precisar de água para funcionar, eliminamos labirinto, vamos precisar de um fornecimento grande de oxigênio já que teremos que correr atrás de alimento em um ambiente que oferece grande resistência física, podemos eliminar assim a respiração pela mucosa intestinal também.

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Restou-nos a opção da respiração pela mucosa bucal, temos sempre um pouco de água disponível para mantê-la úmida.

Agora só mais uma adaptação, nadadeiras com raios mais rijos para caminhar na lama e musculatura mais forte para permitir saltos, assim é possível surpreender presas, fugir de algum predador e alcançar lugares de difícil acesso para um peixe.

Pronto, esse é o Mudskipper, ou Saltador do Lodo, um peixe com respiração anfíbia que vive nos manguezais da África e Ásia, com cerca de 40 espécies.

Quer um petfish diferente, que não exige um aquário grande ou um complexo sistema de filtragem? Que se acostume com o dono, chegando a subir em sua mão para comer? Então esse é o peixe ideal para você

Vamos falar um pouco sobre esse peixe em aquário

Alimentação:

Na natureza todos os Mudskippers são carnívoros, se alimentando de uma grande variedade de presas, essa variação é importante também em cativeiro para manter o bem estar do peixe. São muito vorazes, podemos oferecer ração (já vi vários aceitando SERA GRANUAR), blood worms, minhocas, pequenos peixes, camarão, filé de peixe e insetos, como tenébrios, grilos ou baratas (criadas em cativeiro).

Aquário:

Eles podem ser mantidos em aquários relativamente pequenos, um cubo com 50 x 50 x 30 pode manter alguns sem problema algum. Como esse aquário não ficará cheio de água, poderá ser feito com vidro mais fino e sem travas, o que o torna muito mais barato que um aquário comum.

Por serem peixes de mangue, precisam de água salobra para viver bem, com densidade entre 1003 e 1010, isso é algo importante para sua manutenção, usar apenas água doce vai reduzir muito a vida de seu peixe.

Mas se você não tem um densímetro, como fazer a água salobra? Primeiro preciso dizer que, apesar de parecer informação básica, não se pode usar sal comum ou sal grosso para fazer essa água, é preciso usar sal marinho ou água salgada já pronta.

Uma boa opção é comprar a água já pronta, existem lojas de aquário que vendem água salgada pronta, você pode comprar e pedir para o vendedor colocar um pouco mais de água doce até atingir a densidade desejada, acredito eu que a loja não irá cobrar mais caro pela água doce acrescentada.

Essa água pode ser armazenada, ou seja, você pode comprar 5 litros de água salgada, que irão render algo em torno de 10 litros de água salobra e deixar em casa, para usar nas próximas TPAs.

pH alcalino, entre 7,5 e 8,5.

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Filtragem:

Pode ser usado um filtro biológico pequeno, pode ser um mini canister, filtro interno ou mesmo filtro de esponja. Existem alguns hang ons que funcionam muito bem para esses sistemas.

A eficácia desses filtros aumenta se colocarmos um pouco de mídia de alto desempenho, como SIPORAX mini por exemplo.

É recomendado TPA semanal de 20%.

O estilo do aquário pode variar de acordo com o gosto do aquarista, existem 3 estilos possíveis:

Básico:

Aquário sem substrato, com uma coluna d’água de cerca de 5 a 7cm com troncos e rochas sem pontas para que eles subam. É o estilo mais simples, de fácil manutenção já que pode ser sifonado rapidamente.

Praia:

Usa rochas, troncos e areia, formando áreas onde os peixes sobem, o estilo mais popular, escolhido pela maioria das pessoas que decidem manter esse peixe, fica muito mais bonito que o básico e dá menos trabalho para manutenção que o último estilo.

Paludário:

Um estilo mais voltado ao aquapaisagismo, onde são usadas plantas que possuem maior resistência a salinidade para compor uma paisagem natural, sem sombra de dúvidas é o mais bonito e agradável de todos, para esse estilo são usadas rochas, troncos, areia e pode ser colocado substrato fértil inclusive.

Algumas das plantas que podem ser usadas:

– Elódea
– Anubias spp
– Bacopa spp (principalmente Bacopa monniera)
– Cabomba
– Cryptociryne spp (principalmente Cryptocoryne ciliata)
– Echinodorus tenellus (também podem ser usadas algumas outras)
– Hygrophila Polysperma
– Microsorium pteropus
– Nymphoides sp
– Sagitaria spp
– Vallisneria spp
– Vesicularia Dubyana

Seja qual for o estilo, o peixe irá se comportar de forma parecida, de início eles são ariscos e assustados, você precisa ter paciência nesse primeiro momento, vá acostumando ele com sua presença usando alimento, sempre que chegar perto, jogue algum petisco para ele comer, com o tempo, ele irá associar sua figura com o alimento recebido e virá para a frente do aquário esperando a comida, com o tempo você pode colocar a comida sobre a palma de sua mão que ele irá subir para comer.

Como possuem capacidade de saltar e pode escalar muito bem, é preciso tampar o aquário, pode ser usada uma tela plástica para esse fim.

Agora, quando olhar aquele cantinho da casa, pequeno para um aquário comum, uma mesa ou algo assim, pense bem, será que ali não cabe um pequeno aquário? Onde posso manter um dos peixes mais curiosos e exóticos do mundo? Gastando pouco inclusive? … Falando nisso, acho que tem um cantinho assim aqui em casa……

Sobre Renato Moterani 16 Artigos
Natural de São Paulo-SP, é aquarista desde 1986, na época foi a uma avicultura (não existia o termo Pet Shop..rs) e comprou um peixe chamado Oscar, colocou esse peixe junto dos neons e espada de seu irmão mais velho, duas semanas depois ganhou esse aquário do irmão, após todos os peixes serem devorados. É técnico contábil, Servidor Público estadual, trabalhando atualmente no Instituto Butantan, com produção e pesquisa sobre venenos de serpentes. Sempre mantendo peixes jumbo, se especializou na área e desde 2014 mantém o grupo Peixe Grande Aquarismo e a página de mesmo nome. Atualmente possui 4 aquários montados, o maior com 2.200 litros e o menor com 100.

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