Bagre Sapo, Gulper catfish (Asterophysus batrachus) | Ficha técnica

Foto de Ben Lee em amiidae.com (c)

Nome Científico: Asterophysus batrachus (Kner, 1858)

Ordem: Siluriformes — Família: Auchenipteridae

Nome popular: Mamyacú, Mamyeacú, Bagre Sapo — Inglês: Gulper catfish, Ogre catfish

Distribuição: América do Sul; bacias dos rios Orinoco e Negro

Etimologia: Aster (do grego) significa “estrela” + Physus (do grego) que significa “fole”, “soprador” ou “vesícula/tubo”, indicando a capacidade de expandir a região da boca e da faringe.

Batrachus (do grego batrachos): significa “rã” ou “sapo”, atribuído devido ao formato largo e achatado da cabeça, que lembra o anfíbio.

Status de Conservação (IUCN Red List): Pouco Preocupante (2026)

Sinônimos: –


Descrição

O Bagre Sapo, ou Ogre catfish, possui cabeça desproporcional muito larga, achatada e grande em relação ao corpo. Sua coloração do corpo é cinza-escuro, quase preto, com o ventre mais claro.

Boca terminal, com grande capacidade de abertura e expansão e olhos pequenos situados no topo da cabeça. Possui dentes minúsculos apenas para segurar a presa, engolindo-a completamente viva.

É um predador voraz com capacidade de engolir presas inteiras, muitas vezes do mesmo tamanho ou maiores que ele. As paredes de seu estômago e pele são tão elásticas que ele consegue engolir peixes com o dobro do seu próprio peso.

Após uma refeição, seu corpo fica tão deformado e redondo que ele perde temporariamente a capacidade de nadar com agilidade. O processo de digestão envolve uma série de adaptações mecânicas e químicas extremas para dar conta de presas que são engolidas inteiras

Dobramento da Presa

Para que um peixe do mesmo tamanho caiba em seu estômago, o bagre-sapo utiliza os próprios movimentos de fuga da presa. Conforme a vítima tenta escapar dentro de sua boca cavernosa, ela acaba sendo empurrada para trás e dobrada ao meio (formando um “U”) dentro do estômago. Dentes minúsculos apontados para trás na faringe impedem qualquer chance de refluxo ou fuga.

Ácidos Gástricos Ultra-Potentes

Como o alimento não é mastigado, o estômago do animal secreta uma quantidade massiva de sucos gástricos altamente concentrados e potentes. Esses ácidos conseguem dissolver rapidamente tecidos moles, músculos, escamas e até mesmo os ossos mais duros da presa em poucos dias.

Técnicas de “Belly Ballooning” (Inundação Estomacal)

Pesquisas publicadas na ResearchGate observaram um comportamento único chamado belly ballooning. O peixe frequentemente engole grandes quantidades de água para inflar o estômago. Ele move essa água internamente para ajudar a misturar e espalhar os sucos digestivos por toda a presa, acelerando o processo.

Regurgitação de Restos

Nem tudo pode ser digerido pelos ácidos. Após concluir a digestão da carne, o bagre-sapo regurgita os restos insolúveis, como fragmentos de carapaças mais duras ou espinhos muito grossos. Ele também faz isso engolindo e expelindo água para “lavar” e limpar o estômago antes da próxima caçada.
Durante todo esse processo, o metabolismo do peixe desacelera e ele permanece imóvel no fundo do rio ou aquário, focando toda a sua energia apenas na decomposição do alimento

  • Tamanho Adulto: 25 a 30 cm
  • Expectativa de Vida: 8 a 12 anos
Foto de Erlend D Bertelsen (c)

Distribuição e Habitat

Concentra-se exclusivamente em duas grandes bacias hidrográficas da América do Sul:

Bacia do Rio Negro: seu principal reduto em território brasileiro. Ocorre com frequência na região de Marabitanas.

Bacia do Rio Orinoco: principal bacia de ocorrência na Venezuela e Colômbia.

Pesquisadores coletaram espécimes na Ilha do Marajó, no Pará. Isso indica que a espécie (ou uma variação ainda não descrita) pode habitar áreas há mais de 1.200 km de sua região tradicional.

Países: Brasil, Venezuela e Colômbia (questionável)

Ambiente: Água doce

Habitat: prefere águas calmas, igarapés e zonas com muitas raízes e troncos submersos..

  • pH: 4.5 a 7.0
  • Dureza:  0 a 2 dKH
  • Temperatura: 23°C a 28°C

Criação em Aquário

Aquário de pelo menos 200 litros com comprimento mínimo de 100 cm e 50 cm de largura desejável.

O comprimento e a largura do tanque são mais importantes que a altura. Deverá possuir filtragem superdimensionada uma vez produz muita amônia após digerir presas grandes.

Use muitos troncos e raízes naturais para criar tocas. Substrato de areia fina e macia. Evite cascalho pontiagudo, pois ele passa muito tempo no fundo e pode ferir o abdômen elástico.

A iluminação deve ser fraca (adicione plantas flutuantes como salvínias para sombrear o tanque).  São animais de hábitos noturnos e ficam estressados sob luzes muito fortes.

Comportamento e Compatibilidade: Qualquer peixe que caiba em sua boca será comido, mesmo que tenha quase o mesmo tamanho dele. Deve ser mantido sozinho (aquário temático) ou com peixes muito maiores e pacíficos que habitem o topo/meio da água, como Aruanãs adultas, grandes Pacus ou peixes-faca grandes. Evite cascudos, pois seus espinhos podem perfurar o estômago do bagre-sapo.

  • Área de Natação: Fundo
  • Quantidade mínima: Sozinho
  • Nível de dificuldade: Médio
Foto de Ivan Sazima (c)

Alimentação

Estritamente carnívoro. Como descrito ao longo do artigo, comerá tudo o que couber em sua boca mesmo presas de porte maior.

Pode ser treinado para aceitar filés de peixe fresco, camarões congelados e dáfnias usando uma pinça comprida para simular movimento. Jovens devem comer a cada 2 ou 3 dias. Adultos que comeram uma presa grande precisam de 7 a 10 dias de jejum para digerir completamente. Regra de ouro: nunca alimente o peixe diariamente.

Devido ao hábito de engolir presas inteiras e massivas, o sistema digestivo trabalha no limite.


Reprodução

Ovíparo. A reprodução segue os padrões da família Auchenipteridae, mas não existem relatos ou registros documentados de reprodução bem-sucedida em cativeiro.

Abaixo estão os detalhes científicos conhecidos sobre como eles se reproduzem em seu habitat natural.

Diferente da maioria dos peixes ósseos que liberam óvulos e espermatozoides na água para uma fecundação externa, o bagre-sapo realiza fecundação interna.

O macho persegue e se acasala com a fêmea, utilizando sua nadadeira anal modificada para introduzir o esperma diretamente no corpo dela. O esperma pode ficar armazenado no trato reprodutivo da fêmea por algum tempo.
A fertilização dos óvulos ocorre internamente pouco antes da desova.

A fêmea procura um substrato escondido (fendas de troncos submersos, raízes ou cavidades escuras nas margens dos rios) para depositar os ovos já fertilizados. Os ovos eclodem no ambiente externo após alguns dias, liberando as larvas e alevinos prontos para se camuflarem na vegetação densa.

  • Maturidade Sexual: Entre 18 e 24 meses
  • Cuidado Parental: Não ocorre

Dimorfismo Sexual: Macho possui uma modificação estrutural nos primeiros raios da nadadeira anal, que funciona como um órgão copulador (semelhante ao gonopódio dos poecilídeos) para realizar a fertilização. Durante a época reprodutiva, suas farpas (bigodes) também podem ficar mais rígidas ou curvadas para segurar a fêmea.

Fêmea possui a nadadeira anal completamente normal e inalterada. Quando está no período sazonal de carregar ovos (grávida/ovada), ela apresenta o abdômen visivelmente mais roliço e volumoso.

Foto de John Friel (CCBY-NC)

Referências

  • Ferraris, C.J. Jr., 2003. Auchenipteridae (Driftwood catfishes). p. 470-482. In R.E. Reis, S.O. Kullander and C.J. Ferraris, Jr. (eds.) Checklist of the Freshwater Fishes of South and Central America. Porto Alegre: EDIPUCRS, Brasil.
  • Frederico, R.G. 2023. Asterophysus batrachus. The IUCN Red List of Threatened Species 2023: e.T162703846A162703933. https://dx.doi.org/10.2305/IUCN.UK.2023-1.RLTS.T162703846A162703933.en. Accessed on 31 July 2026.

Publicado em Agosto/2026

EdsonRechi

Aquarista desde criança quando tentava manter peixes sem sucesso. Após um longo período sem aquários, voltei para o aquarismo em 2004 por influência de minha esposa. Desde então, já mantive diversos tipos de aquários e peixes. Articulista, além de organizar e palestrar em eventos ligados ao hobby nos últimos anos. Atualmente se dedica ao site que acabou se tornando outro hobby: escrever sobre peixes ornamentais.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *