Bagre Bandeira (Bagre marinus) | Ficha técnica

Foto de Zach Hawn (CCBY-NC)

Nome Científico: Bagre marinus (Mitchhill , 1815)

Ordem: Siluriformes — Família: Ariidae

Nome popular: Bagre Bandeira, Sarassará — Inglês: Gafftopsail sea catfish

Distribuição: Atlântico Ocidental, desde América do Norte até América do Sul

Etimologia: A palavra bagre deriva do latim tardio pagrus, que por sua vez vem do grego phagrus. Esse termo original referia-se a um peixe marinho (conhecido como Pargo) e evoluiu até chegar à forma catalã bagra, que deu origem ao nome popular que conhecemos hoje em português e espanhol. O termo, que hoje designa os peixes da ordem dos Siluriformes (conhecidos pelos seus “bigodes” sensoriais).

Marinus, vem diretamente do latim marinus. Significa “do mar” ou “marinho”.

Status de Conservação (IUCN Red List): Pouco preocupante (2026)


Descrição

O Bagre Bandeira ou Bagre Marinho, como também é conhecido, apresenta extensões longas e achatadas como fitas nas nadadeiras dorsal e peitorais. Sua coloração dorso azul-escuro com reflexos prateados ou esverdeados, clareando para um ventre totalmente branco. Como todo peixe de couro, seu corpo é totalmente desprovido de escamas, coberto por um muco protetor espesso.

Possui apenas dois pares de “bigodes” (um par maxilar muito longo e um par mentoniano curto no queixo). Utiliza seus barbilhões maxilares (que funcionam como órgãos táteis e químicos altamente sensíveis) para rastrear o substrato lodoso ou arenoso. Ele detecta presas enterradas sem precisar da visão

Os primeiros raios das nadadeiras dorsal e peitorais são espinhos rígidos, serrilhados e pontiagudos. Esses espinhos carregam uma glândula de veneno que causa dores intensas e inflamação em caso de acidentes com humanos.

Apreciado pela pesca artesanal, comercial e esportiva ao longo de toda a costa do Atlântico Ocidental. Quando capturado ou encurralado, o Bagre consegue produzir um som de “ronco” ou estalido audível, utilizando a vibração de sua bexiga natatória para tentar intimidar a ameaça.

Sua osmoregulação é o mecanismo fisiológico que permite a este peixe sobreviver tanto na água do mar altamente salgada quanto nas águas quase doces dos estuários (comportamento eurialino). Para manter o equilíbrio de água e sais no sangue, ele altera o funcionamento dos seus órgãos de duas formas opostas:

No mar, a água ao redor é mais salgada do que os fluidos corporais do peixe. O corpo dele perde água constantemente por osmose através da pele e das brânquias.  Para não desidratar, ele bebe muita água do mar.

  • Eliminação de Sais: As células especializadas de suas brânquias (ionócitos) trabalham ativamente bombeando o excesso de sódio e cloreto para fora do corpo.
  • Urina: Os rins produzem uma urina altamente concentrada e em pouca quantidade para economizar o máximo de água possível.

Quando entra em rios ou áreas salobras (Hiposmótico), a situação se inverte. A água externa é menos salgada do que o seu sangue, fazendo com que a água entre continuamente no corpo dele por osmose. O peixe para de beber água.

  • Retenção de Sais: As brânquias invertem o papel e passam a absorver ativamente os poucos sais disponíveis na água ao redor para o sangue.
  • Urina: Os rins passam a filtrar a água de forma massiva, produzindo uma urina muito diluída (quase água pura) e em grande quantidade para eliminar o excesso de líquido.

Essa transição exige que o Bagre gaste uma quantidade significativa de energia (ATP) para reconfigurar suas bombas de íons celulares. Por essa razão, essas migrações entre o mar e os estuários costumam ocorrer de forma gradual, permitindo que as células das brânquias e dos rins se adaptem às novas condições de salinidade.

Os indivíduos jovens e sub-adultos formam grandes cardumes para proteção contra predadores nas zonas costeiras e estuários. Adultos tendem a ser mais solitários ou a andar em pequenos grupos nômades, unindo-se em grandes concentrações apenas durante as rotas de migração reprodutiva.

  • Tamanho Adulto: 69 cm (comum 50 cm)
  • Expectativa de Vida: 10 a 20 anos
Foto de Shorefishes of the Greater Caribbean online information system (Domínio Publico)

Distribuição e Habitat

Tem uma ampla distribuição no Oceano Atlântico Ocidental. Habita áreas costeiras que incluem o Golfo do México, Cuba, Caribe, e a costa da América do Sul, indo da região das Guianas até o litoral sul do Brasil.

Países: Cosmopolita em toda costa Atlântico Ocidental.

Ambiente: Água salobra e marinho.

Habitat: Prefere áreas costeiras, manguezais, estuários e a foz de rios, ocorrendo em fundos moles compostos por lama, lodo, argila ou areia. Ele evita áreas puramente rochosas ou de corais abertos. Tolera e frequentemente prefere águas turvas e ricas em sedimentos, onde usa seus barbilhões sensoriais para caçar no escuro.

Embora sejam essencialmente marinhos (água salgada) e tolerem a água salobra, eventualmente adentram áreas de água doce, principalmente durante os períodos reprodutivos.

  • pH: 6,5 a 8,5 (em aquário ideal 7,8 a 8,3)
  • Dureza: –
  • Temperatura: 15°C a 30°C

Criação em Aquário

Manter em aquário é uma tarefa altamente complexa e desaconselhável para aquaristas iniciantes. Devido ao seu tamanho adulto, comportamento ativo e necessidades biológicas, a manutenção dessa espécie exige uma estrutura de nível público ou profissional.

Volume Mínimo de pelo menos 1.500 litros para um único exemplar adulto. O aquário precisa ser muito longo e largo (mínimo de 3 metros de comprimento). É um peixe de nado constante e que se estressa facilmente em espaços confinados.

O ideal a longo prazo é um aquário de água salobra ou marinho puro (Densidade: 1.015 a 1.022). Mantê-lo em água doce permanentemente debilita sua imunidade.

Substrato de ser exclusivamente de areia fina ou argila. Cascalho grosso ou pedras cortantes machucam gravemente seus barbilhões (“bigodes”) táteis. Áreas abertas para nado livre. Evite rochas pontiagudas ou decorações complexas onde os longos filamentos das nadadeiras possam enroscar ou rasgar.

O aquário deve ser totalmente tampado. Quando assustado, o bagre-bandeira pode saltar para fora do tanque com facilidade.

Comportamento e Compatibilidade: É um peixe de nado contínuo que ocupa a coluna d’água inferior e média. Ele raramente fica estático no fundo, deslocando-se constantemente em busca de alimento. De comportamento pacífico, porém, predará qualquer peixe menor que couber em sua boca.

  • Área de Natação: Fundo / Meio
  • Quantidade mínima: Sozinho ou Grupo
  • Nível de dificuldade: Difícil
Espécime capturado no Texas (EUA) — Foto de Vince Golder (CCBY-NC)

Alimentação

Estritamente carnívoro. Alimenta-se de forma oportunista em fundos de lama e areia. Os adultos alimentam-se principalmente de pequenos peixes e invertebrados.

Em aquário aceitará pedaços de peixes frescos, camarões, lulas e mexilhões. Raramente aceita rações comerciais secas. O alimento deve ser oferecido próximo ao fundo.


Reprodução

Ocorre predominantemente durante os meses mais quentes do ano, entre a primavera e o verão. Os adultos migram das águas marinhas abertas e profundas em direção a águas rasas, quentes e protegidas de estuários, baías e manguezais, que servem como berçários naturais.

Ao contrário da maioria dos peixes marinhos que liberam milhares de ovos microscópicos, as fêmeas do bagre-bandeira produzem ovos grandes, medindo entre 1,5 e 2,5 centímetros de diâmetro (parecidos com uvas). Devido ao tamanho massivo dos ovos, a fêmeas produzem pouquíssimas unidades, geralmente variando de apenas 20 a 65 ovos por desova.

O casal realiza um nado sincronizado próximo ao fundo lodoso. A fêmea libera os ovos e o macho os fertiliza externamente de maneira imediata na coluna d’água ou logo após tocarem o substrato.

Logo após a fertilização, o macho coleta todos os ovos com a boca, carregando a ninhada por um período de 8 a 12 semanas (até 3 meses). Durante todo esse tempo, seu trato digestivo encolhe e ele não ingere nenhum tipo de alimento.

Mesmo após os ovos eclodirem, os alevinos  permanecem sob a guarda bucal do pai. Eles começam a fazer pequenas saídas para explorar o ambiente, mas ao menor sinal de perigo, nadam de volta para o interior da boca. Os filhotes são definitivamente liberados quando atingem cerca de 5 a 8 centímetros de comprimento e já conseguem caçar sozinhos.

Ao final do processo, o macho encontra-se severamente magro e debilitado devido ao jejum prolongado, precisando retornar imediatamente para águas profundas e ricas em presas para restabelecer seu peso.

  • Maturidade Sexual: Cerca de 30 cm (Próximo de 24 meses)
  • Cuidado Parental: Ocorre

Dimorfismo Sexual: As fêmeas desenvolvem nadadeiras pélvicas significativamente maiores, mais largas e espessas. Durante a época de desova, essas nadadeiras tornam-se altamente vascularizadas (avermelhadas) e modificam sua estrutura para ajudar na manipulação, posicionamento e transferência dos grandes ovos no momento da fertilização.

Machos apresentam a cabeça ligeiramente mais larga e alongada na porção inferior. Fêmeas tendem a atingir comprimentos máximos e pesos ligeiramente maiores que os machos na maturidade, uma adaptação necessária para conseguir comportar os ovos volumosos antes da desova.


Referências

  • Robins, C.R. and G.C. Ray, 1986. A field guide to Atlantic coast fishes of North America. Houghton Mifflin Company, Boston, U.S.A.
  • Ocean Biogeographic Information System, 2006. OBIS-extracted Depth Data. Harvested by E.Agbayani July 2006 at www.iobis.org.
  • Cervigón, F., R. Cipriani, W. Fischer, L. Garibaldi, M. Hendrickx, A.J. Lemus, R. Márquez, J.M. Poutiers, G. Robaina and B. Rodriguez, 1992. Fichas FAO de identificación de especies para los fines de la pesca. Guía de campo de las especies comerciales marinas y de aquas salobres de la costa septentrional de Sur América. FAO, Rome. 513 p. Preparado con el financiamento de la Comisión de Comunidades Europeas y de NORAD.
  • Taylor, W.R. and N.A. Menezes, 1978. Ariidae. In W. Fischer (ed.) FAO species identification sheets for fishery purposes. West Atlantic (Fishing Area 31). volume 1. [pag. var.]. FAO, Rome.
  • Dean, E.M., A.R. Cooper, L. Wang, W. Daniel, S. David, C. Ernzen, K.B. Gido, E Hale, T.J. Haxton, W. Kelso, N. Leonard, C. Lido, J. Margraf, M. Porter, C. Pennock, D. Propst, J. Ross, M.D. Staudinger, G. Whelan and D.M. Infante, 2022. The North American Freshwater Migratory Fish Database (NAFMFD): Characterizing the migratory life histories of freshwater fishes of Canada, the United States of Mexico. J. Biogeography
  • Age and Growth of Hardhead Catfish and Gafftopsail Catfish in Coastal Louisiana, USA — Shane Flinn, Stephen Midway (Louisiana State Univ, Dept Oceanog & Coastal Sci)

Publicado em Junho/2026

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EdsonRechi

Aquarista desde criança quando tentava manter peixes sem sucesso. Após um longo período sem aquários, voltei para o aquarismo em 2004 por influência de minha esposa. Desde então, já mantive diversos tipos de aquários e peixes. Articulista, além de organizar e palestrar em eventos ligados ao hobby nos últimos anos. Atualmente se dedica ao site o qual pretende tornar a maior referência de peixes ornamentais em língua portuguesa.

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