Síndrome da água velha

Autor: James M. Kostich / Tradução e adaptação: Marcos Mataratzis

Acontece nas melhores famílias. Foi ótimo quando começou mas após a excitação inicial isso se torna comum. Nada mais de correr para casa apenas para ficar perto do aquário e seu desejo de resolver cada pequeno probleminha diminui. A lua de mel acabou. Você deseja que seja só uma fase mas lá no fundo você teme que não seja.

Um aquário mau cuidado pode parecer superficialmente que está bem mas desastres podem acontecer em breve.

Talvez um dos conceitos mais importantes para se ter na mente é que o aquário é um sistema fechado. Com raras exceções, tudo que colocamos no aquário fica lá, de uma forma ou de outra, até que seja retirado. Aquele pote de 300g de ração flocada, aquelas 2 garrafas de condicionador de água ou mesmo todos aqueles produtos químicos que você colocou nos últimos 6 meses estão lá, em algum lugar, a menos que tenhamos tomados certos cuidados para removê-los. Muitas destas substâncias químicas estão agora numa forma benéfica como por exemplo as proteínas que os peixes comeram (que agora estão em seus tecidos) mas outras podem estar em formas menores e acumuladas no aquário, sendo prejudiciais aos nossos peixes.

O primeiro e talvez melhor indicador de problemas em potencial em um aquário seja a subida dos níveis de nitrato. Sendo ele o produto final da degradação dos dejetos dos peixes e dos restos dos alimentos, eles são acumulados de forma contínua em aquários com manutenção deficiente, as vezes chegando a várias centenas de partes por milhão (PPM). Muitos invertebrados e alguns peixes são diretamente afetados ou mesmo mortos por esses elevados níveis de nitratos. Mesmo aqueles que possuem peixes mais resistentes devem ficar de olho nos níveis de nitrato pois se eles estão continuamente subindo, podemos assumir que outras substâncias mais difíceis de se medir também estão.

O mesmo processo que reduz amônia em nitrito e depois nitrato também produz cátions H+ que deixados livres irão acidificar a água fazendo com que o pH venha a cair, de forma proporcional à subida dos nitratos. Entretanto, em um aquário tamponado (elevado kH) um fenômeno curioso, porém mais perigoso, ocorre. À medida em que os cátions de hidrogênio são formados o pH não muda pois será consumido pelo tamponador até que este acabe. Neste ponto, o pH cai rapidamente e tal queda súbita pode ser fatal para os peixes.

Se nada for feito pouquíssimos peixes irão sobreviver. Outro fenômeno bioquímico interessante também ocorre. Em pH menor ou igual a 5,5 as bactérias que convertem amônia em nitritos ficam inibidas e tais níveis começam a subir. Estranhamente, este pH baixo acaba protegendo os peixes ao manter a amônia (NH3) na forma ionizada (NH4+) que é bem menos tóxica. Não é raro vermos aquários mau cuidados, com pH muito baixo, amônia e nitratos muito altos e alguns peixes sobreviventes ainda nadando calmamente por ele.

Muitos aquaristas costumam manter seus aquários destampados e periodicamente são obrigados a repor a água evaporada. Veja que somente a água evapora. Os sais nela contidos permanecem no aquário. A água reposta, por sua vez, traz consigo outros tantos sais, o que acaba elevando a dureza dessa água.

Em casos mais raros, onde plantas são os principais meios de filtragem da água ao invés de bactérias, os habitantes podem estar sofrendo mesmo que os nitratos e a amônia estejam baixas e o pH estável devido ao acúmulo de sais na água, que eleva sua dureza total.

Seja qual for o cenário, peixes que conseguem sobreviver se tornam sombras do que eles poderiam de fato ser. Condições precárias limitam o crescimento e coloração e podem contribuir para a proliferação de doenças como Buraco-na-Cabeça ou erosão em sua linha lateral. De fato, o mito de que “um peixe só vai crescer até o tamanho de seu aquário” pode muito bem ser atribuído à paralisia de seu crescimento provocada por condições inapropriadas da água.

Um aquarista desavisado pode ser surpreendido pela síndrome da água velha quando tentar colocar mais peixes em seu aquário. Muitos peixes podem sofrer um choque durante a introdução nesta água velha e simplesmente morrer em poucas horas. Outros podem sobreviver a este choque inicial mas o stress agudo dessa mudança radical os enfraquece, tornando-os mais susceptíveis à infestações. Ironicamente, o parasito causador da infestação pode lograr êxito tão grande que se multiplicará em proporções epidêmicas e afetar mesmo os residentes habituais.

O aquarista fica inclinado a culpar o vendedor da loja por vender “peixes doentes”, afinal ele não teve baixas em seu aquário por vários meses, até fazer esta compra. “Obviamente”, ele argumenta, “não há nada errado com meu aquário ou todos os meus peixes teriam morrido faz tempo”. Mas isso não é necessariamente a verdade. As espécies mais resistentes tiveram a oportunidade de ir se acostumando lentamente com esta situação. Os mais fracos foram morrendo um a um, talvez num período de meses, e suas mortes foram atribuídas a causas naturais.

Bem, vamos deixar este aquarista e vendedor para trás e perceber que estas tragédias não precisam acontecer. Uma boa e regular manutenção do aquário é a prevenção e a cura para a síndrome da água velha.

Filtração – pelo menos mecânica e química – podem remover certos compostos da água, partindo-se do princípio que essas mídias filtrantes são limpas ou descartadas periodicamente. Sujeira contida no refil do filtro ou adsorvida em uma mídia química ainda faz parte do ambiente do aquário até que esse refil ou mídia seja limpa ou descartada.

Nenhum sistema de filtragem remove tudo. Dessa forma, sempre existirá acúmulo de poluentes em qualquer aquário até que – você adivinhou – uma Troca Parcial de Água (TPA) seja efetuada. Uma TPA de 25% remove 25% de amônia, nitritos, nitratos ou seja lá quais outros poluentes existam na água e repõe 25% de elementos traços e sais que contribuem para o tamponamento e manutenção do kH. TPAs devem ser feitas sempre que necessárias para manter o pH e os níveis de nitratos estáveis. Um aquário típico requer uma troca de 25% a cada 15 ou 30 dias, enquanto um aquário mais densamente populado ou superalimentado pode necessitar estas trocas semanalmente.

Se um aquário está experimentando a síndrome da água velha, TPAs devem ser usadas como tratamento mas tenha cuidado para não executar grandes trocas de uma vez. Mudanças drásticas no ambiente são sempre causa de stress para os peixes, mesmo sendo essas trocas para seu bem. Ainda mais se o aquário já se encontra na fase do pH baixíssimo/amônia muito alta.

A elevação do pH deslocará o equilíbrio entre a amônia não tóxica gradativamente em amônia tóxica o que pode levar o aquário a uma catástrofe. Trocas diárias de 15 a 20% são seguras e mais eficientes do que uma única TPA de 50 a 90% de uma vez. Constante monitoração do pH, amônia, nitritos e nitratos são altamente recomendáveis durante este processo. Se a amônia continuar alta à medida que o pH sobe, é aconselhável segurar nas trocas por alguns dias para permitir que as bactérias nitrificantes tenham chance de consumir tal amônia.

Uma vez que as condições apropriadas sejam restabelecidas, um programa de manutenção regular, incluindo TPA, limpeza dos filtros e testes químicos deve ser seguido. Um aquário bem mantido é lindo de se ver e mexe com a nossa imaginação e reacende uma chama antiga.

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