Estratégias nutricionais para manter os peixes saudáveis

 

Autor: Rodrigo Mabilia

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Desde que o homem começou a criar peixes em reservatórios, ele tem se esforçado para prover estes com as melhores condições de sobrevida e desenvolvimento. Ir ao encontro das necessidades nutricionais de todas as espécies de peixes mantidas em criatórios, considerando o fato de que estas podem ser herbívoras, onívoras ou carnívoras, tem sido uma das maiores façanhas da piscicultura nas últimas décadas.

Os peixes são um grupo de animais muito diversos, e conseguir satisfazer os requerimentos nutricionais de cada espécie com valor comercial, é realmente um grande desafio. Os aquaristas ao redor do mundo têm sido informados pelos tão renomados “especialistas” em nutrição animal aquática, de que não existe um único alimento capaz de satisfazer todos os requerimentos nutricionais dos peixes ornamentais, e como tal promovem a recomendação da dieta variada como a melhor maneira de assegurar que tais necessidades sejam totalmente atendidas. O que acontece na realidade é que, substituindo um produto alimentar deficiente por outro igualmente incompleto sob o ponto de vista nutricional, não se resolve a questão alimentar dos peixes em manutenção ou criação. É sem dúvida muito melhor contar com um único produto, que contenha toda a variedade de nutrientes necessários para cobrir todas as necessidades nutricionais dos peixes.

Para manter peixes saudáveis é preciso começar a compreender três aspectos básicos relacionados à alimentação: qualidade, quantidade e freqüência. Esta tríade compõe o que denominamos de estratégia nutricional.

Uma alimentação saudável previne o surgimento de inúmeras enfermidades dos peixes. Sob o aspecto de comportamento há um incremento de vitalidade, acentuação da coloração e melhoria da atividade reprodutiva dos peixes.

Não esqueça que uma boa ração deve conter os seguintes pré-requisitos:

  • alimento completo para a espécie e fase de vida da mesma.
  • conter somente ingredientes de boa qualidade.
  • rico complexo vitamínico com complexo B, vitamina E, além de quantidades elevadas de vitamina C próximas a 500mg.
  • rico complexo mineral. Por exemplo, sempre conter maior quantidade em relação a quantidade de fósforo, sendo este último em pequenas quantidades.
  • não deve alterar a coloração da água.
  • não conter excesso de gordura (Extrato etéreo), principalmente em formulações para peixes adultos. Rações que oferecem níveis acima de 8% de extrato etéreo podem ter a intenção de mascarar a falta de palatabilidade e sofrer com maiores riscos de peroxidação desta matéria prima. Mais grave ainda é o fato de que o excesso de gordura restringe o consumo alimentar e pode dificultar a assimilação de alguns nutrientes da ração.
  • conter níveis de proteína bruta entre 30 a 35% (kinguios e carpas koi, por exemplo) e níveis superiores para peixes carnívoros e onívoros com tendência a carnívoros. Para acarás discos, por exemplo, estes níveis de proteína bruta podem ultrapassar 46%.

A Nutrição de peixes Ornamentais.

Os peixes possuem crescimento contínuo, tendo rotas metabólicas e catabólicas gerais semelhantes a dos outros seres vivos, variando em alguns passos metabólicos devido a presença de enzimas específicas.

Os peixes apresentam hábitos alimentares definidos, mas não estritos.

Proteínas e aminoácidos

As proteínas são compostos orgânicos formados por diversos aminoácidos. Existem diferentes tipos de proteínas caracterizadas pela proporção e posição dos aminoácidos que as compõem. Sendo assim os aminoácidos são os componentes estruturais básicos de qualquer proteína. Uma proteína sempre conterá na sua composição carbono, hidrogênio, oxigênio e nitrogênio, entretanto algumas vezes poderá conter enxofre, fósforo e ferro. Os peixes possuem proteínas dispostas em uma grande variedade de tecidos tais como: ossos, pele, órgãos, musculatura, etc… A proteína corporal está constantemente sendo resposta por dois processos: anabolismo (refere-se a síntese de proteína no organismo) e catabolismo (refere-se a quebra da proteína no organismo).

Em relação aos aminoácidos existem um grupo de 10 aminoácidos que não podem ser sintetizados por vertebrados e inclusive os peixes, são denominados de aminoácidos essenciais. Desta maneira são de grande relevância sob o ponto de vista da nutrição animal, pois devem ser suplementados na dieta. Os aminoácidos essenciais são: a arginina, histidina, lisina, isoleucina, leucina, metionina, fenilalanina, triptofano, valina e treonina.

O incremento de aminoácidos essenciais na ração procedem de duas formas: sintetizados e adicionados um a um na ração, ou através de uma fonte protéica especifica (farinha de peixe, farelo de soja, etc…). Estes cuidados na formulação representam um incremento adicional no custo de uma ração para peixes. Seria uma negligencia formular uma ração com a falta de um destes aminoácidos essenciais. Assim se estabelece uma deficiência nutricional.

O correto balanceamento dos aminoácidos de uma ração é importantíssimo, porque quando há desbalanceamento não ocorre um aproveitamento total da proteína da dieta e maior será a excreção de proteína pelas fezes e amônia na urina e brânquias. Uma ração nem sempre é melhor do que a outra por conter uma quantidade maior de proteína.

Altas taxas de proteína (proteína de boa qualidade obviamente) são importantíssimas para peixes jovens e espécies de hábito alimentar carnívoro e onívoro com uma certa tendência a carnívoros. Oscars, Acarás Discos, Piranhas, alguns ciclídeos africanos justificam níveis de proteína bruta (PB) na ração que podem chegar a mais de 45% mesmo na fase adulta. Já ciprinídeos como kinguios e carpas koi adultos não devem ter níveis de proteína bruta (PB) superiores a 35%, sendo a faixa ideal próxima a 30%.

A temperatura da água possui um papel importante nos requerimentos protéicos dos peixes. Quando a temperatura da água encontra-se dentro da zona de conforto térmico dos peixes são maiores as necessidades de proteína na dieta para atingir os melhores índices de desenvolvimento do peixe. Estudos com peixes ornamentais demonstraram diferentes exigências protéicas de acordo com a fase de vida dos peixes. Em Kinguios, o alto requerimento protéico foi observado para larvas (ao redor de 53% de PB), enquanto que para juvenis estes requerimentos baixaram para 29-30% de PB (proteína bruta). Os níveis de proteína na dieta são importantes tanto para o crescimento como para a reprodução dos peixes ornamentais.

ENERGIA

A energia não é considerada um nutriente, mas é oriunda do metabolismo oxidativo de proteínas, lipídeos e carboidratos. Os peixes possuem baixos requerimentos energéticos quando comparados a outras espécies de animais.

Os peixes precisam de dietas contendo níveis adequados de energia. Os peixes alimentam-se até o momento de satisfazerem suas necessidades energéticas. Se uma ração possuir altos níveis de energia o peixe irá cessar mais rapidamente a ingestão de alimento e muito provavelmente não ingira o suficiente para atender as suas exigências protéicas e de outros nutrientes. A energia, portanto limita o consumo de alimento para os peixes e o crescimento.

LÍPIDIOS E ÁCIDOS GRAXOS

Os lipídeos são nutrientes essenciais para os peixes. São fontes de energia aos peixes mais prontamente disponíveis em quantidade do que proteínas e carboidratos. Os lipídeos desempenham muitas funções no organismo: lubrificação do trato digestivo, suporte de energia, fonte de ácidos graxos essenciais, serve de componente estrutural de tecidos, aumenta a palatabilidade e agem sobre a regulação de diversas funções do organismo.

O excesso de gordura na dieta alimentar pode causar uma queda no desempenho ao piorar a conversão alimentar. Este efeito já pode ser observado a partir de 6% de Extrato Etéreo, conforme a espécie e fase de vida.

Os ácidos graxos essenciais: linolênico (Ômega 3) e linoleico (Ômega 6) deve ser supridos na dieta, pois os peixes têm capacidade limitada de sintetiza-los. Estes ácidos graxos são muito importantes para que os peixes mantenham a flexibilidade de suas membranas celulares sob condições de baixas temperaturas de água. A deficiências destes ácidos graxos essenciais, ou de seus precurssores na ração podem causar: diminuição de crescimento, piora da conversão alimentar, aumento de mortalidade, aumento de líquido nos músculos, ulcerações nas nadadeiras, degeneração gordurosa no fígado, aumento da taxa respiratória, diminuição dos níveis de hemoglobina diminuição do número de hemácias.

Problemas que podem ocorrer com a gordura de rações.

Rações de baixa qualidade, prazo de validade vencido, ou más condições de armazenamento, podem ter problemas relacionados com a peroxidação. O peróxido formado é altamente tóxico e consome toda a vitamina A e E, que são antioxidantes naturais.

Conseqüências externas:

  • Emagrecimento; escurecimento da pele; perda de escamas; necrose das nadadeiras; palidez nas brânquias.

Conseqüências Internas:

  • Ascite; aumento de baço; fígado pálido amarelado; anemia profunda; estômago e intestinos vazios e com bile.

Para resolver o problema administra-se antioxidantes na ração como o BHA e o BHT em níveis em torno de 0,01%. Suprimento de vitamina E na ração são preconizados como preventivo da oxidação das gorduras corporais.

CARBOIDRATOS

Os carboidratos são um dos maiores nutrientes ao lado das proteínas e lipídeos. Estão em abundancia nas plantas, pois são a forma de armazenamento de energia. Peixes de águas tropicais tendem a utilizar muito melhor o carboidrato da dieta quando comparados a peixes de água fria e peixes marinhos. O hábito alimentar também interfere diretamente na capacidade de digestão e absorção deste nutriente. Peixes herbívoros, e onívoros, mas que possuem vegetais incluídos na sua dieta como kinguios e carpas digerem com maior facilidade carboidratos devido à microflora especializada no aparelho digestivo destas espécies.

FIBRAS

A pequena capacidade do tubo digestivo, aliada ao curto tempo de passagem, baixa temperatura do meio em que vivem e a pouca atividade microbiana levam os peixes a apresentarem baixa digestibilidade de alimentos fibrosos.

O uso de altos percentuais de fibra na dieta de peixes é questionado por diversas razões: não possuem valor energético significativo, existência de trato intestinal curto e pouca utilização da fibra, aumento da motilidade do trato gastrintestinal (TGI) conseqüentemente aumentando a velocidade de passagem dos alimentos que diminui a absorção de outros nutrientes. Além disso, o excesso de fibras limita a ingestão total.

As exceções são os peixes herbívoros que possuem o trato digestivo relativamente maior quando comparado a peixes de outros hábitos alimentares. A microbiota gástrica e intestinal permite que a fibra da dieta seja melhor aproveitada.

VITAMINAS

As vitaminas são substâncias orgânicas de extrema importância para o crescimento, saúde, reprodução, mas são requeridas em pequenas quantidades na dieta.

Vitaminas Hidrossolúveis:

  • Ácido ascórbico (Vitamina C): manutenção da integridade dos tecidos de sustentação; biossíntese de colágeno e cartilagem; integridade capilar; melhora da imunidade.
  • Cianocobalamina (B12): essencial na formação de elementos sangüíneos durante a eritropoiése;
  • Biotina: importante na função de diversas enzimas;
  • Ácido fólico: eritropoiése, essencial para a síntese dos ácido nucléicos. Pode melhorar a eclodibilidade dos ovos dos peixes;
  • Niacina: componente de coenzimas do metabolismo da glicose e no metabolismo dos lipídeos;
  • Ácido pantotênico (B3): integrante de coenzima A, importante no metabolismo dos carboidratos e das gorduras;
  • Piridoxina (B6): essencial no metabolismo de carboidratos, de aminoácidos e de lipídeos;
  • Riboflavina (B2): é coenzima essencial no metabolismo das gorduras e diversos aminoácidos. Importância no sentido da visão.
  • Tiamina (B1): participa do metabolismo de carboidratos, essencial para o normal funcionamento do sistema nervoso, essencial para o apetite, digestão, crescimento e fertilidade;
  • Colina: doadora de metila em reações metabólicas, precursora da AcetilCoA. Maior componente do neurotransmissor acetilcolina e essencial para o transporte de lipídeos.
  • Inositol: componente estrutural de certos tecidos, onde age prevenindo o acumulo de colesterol, como mioinositol, serve de reserva de carbohidratos CHO nos músculos;
  • Ácido lipóico: biocatalizador.

Vitaminas Lipossolúveis

  • Vitamina A: requerida para regeneração da sensibilidade à luz; transporte trans-membrana de cálcio; reprodução e desenvolvimento embrionário; integridade das membranas e epitélios.
  • Vitamina D: estocada em grandes quantidades no fígado dos peixes. São biologicamente ativas na absorção do cálcio e do fósforo; ativa a fosfatase alcalina que é envolvida no metabolismo do fósforo.
  • Vitamina E: a atividade biológica da vit.E é através de oito compostos, sendo o alfa-tocoferol o mais ativo; atua como um antioxidante biológico protegendo os peixes da oxidação. Atua também protegendo a Vitamina A, o caroteno e a Vitamina C da ração.
  • Vitamina K: essencial para síntese da protrombina. Em peixes a coagulação precisa ser extremamente eficiente devido a viverem em meio líquido.

MINERAIS

São classificados de acordo com a quantidade necessária pelo organismo. Os macrominerais são requeridos em larga escala pelo organismo e os microminerais são necessários apenas traços destes no organismo.

Macrominerais

  • Cálcio e Fósforo: o requerimento é bastante baixo e depende da relação entre o cálcio da dieta/cálcio do ambiente. Cerca de 90% das necessidades de cálcio vêm da água e somente 10% da dieta. O CaCO3 da água assume vital importância neste contexto. O fósforo é um dos minerais mais importantes da dieta dos peixes, pois é essencial para o crescimento, processo de mineralização óssea, metabolismo de lipideos e carboidratos.
  • Magnésio: 70% do magnésio do corpo é encontrado no tecido ósseo. Uma relação adequada de magnésio é essencial para o metabolismo do cálcio e fósforo.
  • Sódio e Potássio: o potássio é o terceiro elemento em abundância no corpo ficando atrás somente do cálcio e do fósforo. O sódio e potássio estão estritamente relacionados com a manutenção da pressão osmótica. São importantes também na manutenção do equilíbrio ácido básico interno dos peixes. O potássio participa no processo de relaxamento muscular e é utilizado em diversas reações enzimáticas, já o sódio participa no processo de contração muscular.

Microminerais

  • Cromo: o cromo é um elemento essencial que não atua sozinho no organismo. Junto com outras substâncias atua no controle do metabolismo geral, insulina, importantes enzimas, DNA e RNA.
  • Cobalto: é componente da cianocobalamina (vitamina B12)
  • Cobre: está relacionado com o metabolismo do ferro, uma vez que facilita a absorção do ferro no trato intestinal e seu armazenamento no fígado. O cobre é co-fator de importantes enzimas que atuam no metabolismo da energia. Os peixes são muito susceptíveis a intoxicação pelo cobre contido na água, principalmente se a alcalinidade da água (KH) estiver baixa.
  • Iodo: o iodo é componente essencial de hormônios da tireóide. Conseqüentemente tem está relacionado ao metabolismo geral dos animais como o crescimento, funções teciduais nervosas e musculares, ativação do metabolismo da circulação, etc…
  • Ferro: é um mineral essencial para a formação das células vermelhas sanguíneas. O ferro combina-se com proteínas para formar a hemoglobina das hemáceas. O ferro está envolvido no transporte de oxigênio pelas hemáceas. É componente de algumas enzimas requeridas no metabolismo energético também.
  • Manganês: atua na formação óssea, coagulação sanguínea e funções ad insulina e síntese de colesterol. É ativador de importantes enzimas envolvidas no metabolismo de proteínas, lipídeos, carboidratos e ácidos nucléicos.
  • Selênio: o selênio é importante para manutenção da saúde de peixes sobre condições estressantes. A vitamina E, os aminoácidos metionina e cisteína podem ser substitutos parciais do selênio para algumas funções. O selênio participa na ativação de uma importante enzima (a glutation preoxidase) que impede a toxicidade dos peróxidos provenientes da oxidação da gordura dos alimentos. Incrementos de vitamina E, e do selênio nas rações comerciais são muito benéficos aos peixes.
  • Zinco: o zinco é de vital importância no processo de calcificação óssea, além de participar no processo de transferência de dióxido de carbono CO2 para as hemáceas. É importante também para a síntese protéica e ácidos nucléicos.

Pigmentos Carotenóides

Os pigmentos carotenóides são um dos principais grupos de pigmentos naturais da pele e musculatura dos peixes.

Os mais encontrados são: luteina, taraxantina, astaxantina, tunaxantina, alfa doradexantina, beta doradexantina e zeraxantina.

Como os peixes não podem sintetizar estes pigmentos estes são necessários estar incluídos na dieta. Isto tornou-se um importante aspecto a ser explorado pela industria de rações para peixes ornamentais.

Estudos revelaram que a coloração avermelhada de kinguios e carpas koi é atribuída a astaxantina. Este carotenóide pode ser metabolizado a partir da zeraxantina e em menor quantidades pelo beta caroteno, justificando o incremento destes pigmentos na ração.

A Spirulina, muito encontrada na formulação de rações para peixes ornamentais, também exerce um papel importante na coloração. A razão de se uso deve-se a sua capacidade de fixar/acumular carotenóides promovendo indiretamente a intensificação da coloração da pele e musculatura.

Material de referência:

Pablo Tepoot

New Life Spectrum Fish Food

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