Importância na manutenção de cardumes em aquário

Autor: Edson Rechi – Agosto/2009 

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Cardume, segundo o dicionário: s.m. Bando de peixes. Bando compacto ou multidão. Fig. Aglomeração, ajuntamento de coisas, montão.

Acima, a definição teórica do significado de cardume, apenas teórica, porque na prática muitos praticantes da aquariofilia muitas vezes sabem apenas teoricamente a necessidade de se manter determinadas espécies de peixes em numeroso grupo, desprezando a prática.

Peixes cardumeiros ou gregários quando submetidos a um pequeno número de indivíduos podem agir negativamente, podendo ficar agressivos, estressados, acuados, entre outros. Quando submetidos a um bom número costumam agir de modo natural, presenteado a todos com um belo efeito de cores e comportamento. Pelo menos 50% das espécies conhecidas de peixes se agrupam em cardumes.

Quanto a sua organização, existem basicamente dois tipos:

Gregários: São animais que vivem em bandos em um mesmo local, mas não necessariamente são encontrados em numeroso grupo de indivíduos ou em formação, mas que precisam de outros da mesma espécie próximo de acordo com a situação. Normalmente estabelecem forte hierarquia entre os membros associados ao grupo. Ex. Ciclídeos

Cardumeiros: São animais dependentes de viver em numeroso grupo, deslocando-se conjuntamente sendo vital para sua sobrevivência e reprodução. Dentro deste grupo, normalmente estão reunidos por razões sociais e pelo sincronismo. Ex. Sardinha

Podem alternar entre organização sincronizada para outras funções (espaçamento, orientação, etc), conforme a necessidade.

Dentro de alguns cardumes, como das Sardinhas, não há relação de liderança, funcionando na base “maria vai com as outras”, possuindo efeito em cadeia, normalmente começando pelas bordas, onde o peixe tem contato com o meio externo. É possível observar o revezamento nas bordas destes cardumes, sendo que o que estão nas bordas passam para o miolo em movimentos aleatórios, poupando energia dos indivíduos, considerando que os que estão no centro fazem menos esforço.

Embora um tema pouco estudado, principalmente entre os animais superiores, a segurança proporcionada pelos números nos explicam o porque da existência de coletivos, rebanhos, alcatéias, cardumes, etc. Em geral peixes em cardumes mostram decisões baseadas em percepção de quorum.

Quanto em grande número existem inúmeras táticas defensivas que podem fazer a diferença entre continuar vivo ou não. Um grupo grande pode passar a impressão a um predador que é apenas um tentador alvo maior; confundi-lo com múltiplas presas idênticas (chamado efeito confusão), sendo mais difícil o predador lançar um ataque nestas condições; predadores tem dificuldades em se aproximar de grandes grupos porque existem inúmeros agentes vigilantes (chamado de hipótese de muitos olhos).

Além do mais duas ou mais cabeças pensam melhor. A probabilidade de um individuo agir irracionalmente frente a determinadas situações é razoavelmente alta, enquanto esta mesma probabilidade, quando em grupo, é pequena. Quando em grande número, filtram comportamentos baseados em inúmeros indivíduos e nunca individualmente (quórum).

Pesquisas feitas por cientistas australianos indicam justamente o comportamento descrito acima (duas cabeças pensam melhor), indicando que um pequeno cardume entre quatro a oito indivíduos se saíam melhor nos testes comparado a cardumes menores ou indivíduos sozinhos. O número de indivíduos em um cardume pode variar bastante de acordo com a espécie, ambiente ou situações na qual estão submetidos, existem cardumes pequenos até milhões de indivíduos, como os Arenques, podendo atingir mais de 1 quilômetro de extensão.

Alguns contestam os números a se considerar quando em cardume, principalmente quando submetidos em aquário após pesquisas realizadas indicando que peixes não sabem contar a partir de quatro.

Em minha opinião, mesmo não sabendo contar, são suficientemente inteligentes em suas ações quando em numeroso grupo, possuindo uma grande vantagem não só sua importância defensiva como também na reprodução e na localização de alimentos, afinal ao se juntar ao grupo e responder as ações do demais de acordo com o quórum, o indivíduo adquire uma enorme vantagem no processamento de informações. E informações corretas significa vão virar alimento, se reproduzir e deixar descendentes.

Para permitir uma sincronia perfeita de movimentos e decisões eles usam a visão, audição e seu eficiente sistema de linha lateral, detectando variações mínimas na pressão da água. Sua linha lateral funciona como um “sexto sentido”, sendo um sistema de canais sob as escamas, estendendo-se desde a cabeça circundado de vários ossos até a cauda, nas duas laterais. Estes canais contém dezenas de orifícios, onde a água entra e percorre toda sua extensão. Em suas paredes internas há neuromastos (células nervosas), que captam a variação de pressão da água, onde impulsos elétricos são enviados pelos neuromastos através de fibras até o cérebro, que ao ler estes sinais, emite a ordem decisiva.

Infelizmente em aquário nos limitamos a introdução um pequeno número de espécies variando o tamanho do aquário, comparado quando submetidos em seu ambiente natural, mas ainda assim, quanto mais, respeitando a limitação do tamanho do aquário, melhor! A coloração e a segurança ao nadarem pelo aquário, quando em grande número, é impressionante e de beleza inigualável.

Portanto, na próxima vez que adquirir seu peixe, procure se informar se ele é cardumeiro. Se positivo, de preferência em montar um numeroso cardume de poucas espécies do que adquirir inúmeras espécies diferentes formando um numeroso grupo.

Sobre Edson Rechi 594 Artigos
Aquarista em duas fases distintas, a primeira quando criança e tentava manter peixes ornamentais sem muito sucesso. Após um longo período sem aquários, voltou no aquarismo em 2004, desde então já manteve diversos tipos de aquários como plantado, peixes jumbo, ciclídeos africanos, água salobra, amazônico comunitário e marinho. Atualmente curte e mantém peixes primitivos e ciclídeos neotropicais, suas grandes paixões.