Micobactérias

Por Cindy Lopislazuli (Betta Conscience)

Doença do Neon; Graphite Disease; Tuberculose; Hidropsia

Primeiramente, preciso elucidar que o termo “tuberculose” em peixes, que é amplamente difundida no aquarismo, na verdade não deve ser usado. Tuberculose é uma importante doença humana e que atinge mamíferos em geral, e peixes não pegam tuberculose (Mycobacterium tuberculosis), portanto são incapazes de contaminar humanos com tuberculose.

PORÉM, MICOBACTÉRIAS AQUÁTICAS PODEM SIM CONTAMINAR HUMANOS, especialmente a M. marinum – conhecido popularmente como micose de piscina – causando ulcerações na pele (foto 6). O uso de luva é imprescindível, ENFATICAMENTE imprescindível se estiver com ferimentos ou queimaduras nas mãos.

Tanto peixes de água doce quanto água salgada podem contrair micobactérias, inclusive mamíferos aquáticos. Nota-se grande suscetibilidade em cavalos-marinho e danios. Geralmente manifestam/contraem a doença em más condições de água e indivíduos com baixa imunidade.

Então, o que é doença Micobacteriana?

Micobactéria é uma doença crônica, não leva o peixe a óbito rapidamente, possui lenta evolução, e é geralmente caracterizada por magreza extrema e deformação da coluna (foto 1), mas nem sempre isso fica claro de início, e uma strain específica (M. fortuitum) causa a condição de Hidropsia – inchaço severo e falência renal.

Micobactérias causam perda de escama e às vezes feridas mais profundas, podendo atingir a forma hemorrágica da doença. Em tetras, danios e demais peixes pequenos geralmente nota-se corpo esbranquiçado e exposição de carne (fotos 2 e 3). Em peixes como bettas, gouramis e acarás geralmente nota-se escurecimento de escamas e nadadeiras, sem efetivamente o desmanchamento da nadadeira (fotos 4 e 5), podendo também apresentar perda total de escamas, ferimento hemorrágico e exposição de carne. Essas diferenças na verdade se devem a strains distintos da Micobactéria e não abordaremos todas as diferenças, você pode ler na íntegra (em inglês) no artigo de rodapé.

MICOBACTÉRIA NÃO POSSUI TRATAMENTO EFETIVO – não tem cura. Isso significa que NENHUM ANTIBIÓTICO ATUALMENTE COMERCIALIZADO é capaz de combater micobactéria aquática. Portanto providências de prevenção, desinfecção e quarentena são extremamente importantes. Eutanásia dos peixes afetados é o recomendado.

Micobactéria pode se desenvolver nas mídias (cerâmicas) do filtro e também no biofilme – ou seja, tecnicamente em qualquer superfície que abrigue matéria orgânica, em especial no substrato e no material destinado a filtragem mecânica.

Condições que favorecem o desenvolvimento de Micobactérias aquáticas:

  • Temperaturas altas
  • Baixo oxigênio dissolvido
  • pH ácido
  • Altos níveis de zinco, ácido húmico e ácidos orgânicos em geral
  • Genética pobre (alta consanguinidade)
  • Estresse crônico
  • Qualquer outra situação que diminua a imunidade do peixe (inclusive uso de corticoides)

*A maioria dessas condições são extremamente comuns em sistemas intensivos de criação – piscicultura – e em superpopulação em aquários domésticos.

Todas as espécies de micobactéria são gram-positivas, imóveis e não soltam esporos.

Como acontece o contágio?

No geral, através de exposição a outros peixes doentes ou exposição a plantas e objetos contaminados. Peixes doentes transmitem a doença liberando tecido (escamas, pele, tecido branquial, dentre outros), que então é ingerido por peixe saudável, e a micobactéria se instala em seu trato digestivo. Também quando um peixe infectado morre: a bactéria é liberada dos tecidos dos órgãos internos e ingerido por peixes saudáveis. Um peixe saudável pode ser também infectado através de ingestão de comida contaminada, posteriormente contaminando a água do sistema e os demais peixes. Também há ocorrência de contaminação mãe-filhos, em ovíparos e ovovivíparos. Ainda não está claro como isso ocorre.

IMPORTANTE: Animais que morrem por conta de micobactérias devem ser IMEDIATAMENTE RETIRADOS do sistema.

Micobactéria e seu diagnóstico:

Como dito anteriormente, peixes afetados por micobactéria apresentarão magreza crônica e/ou entortamento de coluna, escamas faltando, carne exposta, feridas hemorrágicas, nadadeiras ou corpo em cor de grafite. Também apresentam baixa fecundidade (populações de fêmeas podem inchar por retenção de óvulo) e granulomas podem ser notados em trato digestivo (em necrópsia) e na extensão do corpo do animal. Entretanto, tratamento preventivo contra doenças que apresentam sintomas semelhantes devem ser ministrados. Por exemplo, um peixe com magreza extrema e crônica pode estar infectado por flagelados intestinais, e não com micobactérias. Feridas e carne expostas podem também ter outros agentes causadores – como a columnaris, abordada em outro artigo.

Tratamento:

Não há. Talvez haja algum dia, pesquisas estão sendo feitas, mas no momento não há nenhum método não-letal efetivo.

Tratamentos com antibióticos podem ser ministrados e surtirem efeito, porém ao final do tratamento a doença retorna e torna o peixe sintomático novamente.

É possível manter uma população micobactéria-positiva com rígidas precauções, porém indivíduos sintomáticos é fortemente recomendada a eutanásia, por se tratar de uma doença altamente debilitante e causadora de intenso sofrimento ao peixe. Em estágios iniciais é possível ser manejada com alguma dificuldade, mas submeter seu peixe a diversos antibióticos e tratamentos intensivos vai contra nossa visão de bem-estar. É uma escolha do dono e não interferimos no seu livre-arbítrio, assim como não fazemos nenhum julgamento moral. Lembre-se que peixes infectados vão transmitir a doença para seus descendentes, portanto a criação de peixes micobactéria-positiva NÃO DEVE SER REALIZADA.

A prevenção da doença dá-se na quarentena de pelo menos 30 dias dos novos indivíduos. Não há métodos não-letais para o peixe de desinfecção, portanto apenas a quarentena é segura. Para prevenir que nosso aquário doméstico seja propício ao desenvolvimento de micobactéria, limpezas de fundo e filtro devem ser rigorosas.

A desinfecção preventiva de plantas novas deve ser feita com permanganato de potássio, e também através de quarentena. Plantas que foram expostas a ambiente afetado com micobactérias devem ser descartadas.

Ao tratar de uma colônia ou petfish micobactéria-positivo, deve-se usar luvas ao lidar com o peixe, com as decorações, itens do filtro e substrato. Recomenda-se separar todos os itens a serem utilizados apenas para aquele tanque, e reduzir risco de infecção com banhos de cloro alto-concentrados e exposição a álcool mínimo 50% de concentração por pelo 10 minutos, assim como fervura de utensílios.

Caso escolha manter seu petfish até o final natural de sua vida, assepsia adequada de todo o sistema é recomendada com objetivo de baixar o número de contaminantes, assim como rigidez no quesito de que NENHUM SER VIVO ENTRA NEM SAI desse sistema. Nenhum peixe ou planta pode ser realocado para sistema saudável, ou contaminará o novo sistema. Nenhum peixe pode entrar nesse sistema, pois será exposto a doença e adoecerá também.

Em caso de aquário hospital ou quarentena infectados, é recomendado que descarte tudo que for possível – tanques plásticos devem ser descartados, substrato, mídias, etc. – ferver itens acima de 90ºC por pelo menos 30 minutos. Micobactérias tem média-resistência a cloro. Deve ser sim utilizado, mas a fervura é o único método realmente seguro. Álcool em 30% não é efetivo, concentrações de 50% ou 70% devem ser utilizadas – aplicar nos vidros, termômetros, termostato com spray e aguardar que evapore. Repita o processo pelo menos 3 vezes ou até atingir no mínimo 10 minutos de contato.

Filtro UV e/ou sistema de ozônio podem ser utilizados, porém não trata peixes afetados, sendo recomendada a eutanásia de sintomáticos e isolamento de indivíduos que foram expostos ao ambiente micobactéria-positivo, e realizar devida assepsia do ambiente.

Micobactérias são o patógeno mais resistentes a protocolos de desinfecção, portanto ao descobrir que está lidando com essa doença, seja rigoroso e responsável.

Fonte (em inglês): Mycobacterial Infections of Fish

Textos de apoio (em inglês):
Fish Tuberculosis (Fish TB)
Mycobacteriosis or fish tuberculosis

Vídeo (em inglês) mostrando de forma técnica estruturas e granulomas causados por micobactéria em um peixe oscar

Imagens retiradas de:
Betta Fish em Reddit
FishLore
The Aquarium Guide

*nota1: informações nesses sites estão erradas – columnaris e tuberculosis não são o mesmo patógeno, como elucidado neste artigo.

**nota2: há um outro patógeno Pleistophora hyphessobryconis também causador da popular “Doença do Neon”. Neste artigo abordamos a causa da “Doença do Neon” via micobactéria. Para entendimento do P. hyphessobryconis recomendamos leitura (em inglês)  – Em resumo, as vias de transmissão e sintomas são idênticas, e a incapacidade de cura também. No caso de P. hyphessobryconis, o contágio via esporos acontece e uso de UV e ozônio é recomendado e efetivo na prevenção. Não há transmissão peixe/humano, mas pela incapacidade de diagnóstico específico sem exame laboratorial, é recomendado que trate como Micobactéria e tome as mesmas medidas de prevenção e desinfecção. Eutanásia de peixes sintomáticos é recomendada.

Tradução e texto por: Cindy Lopislazuli (Betta Conscience)

Sobre Cindy Lopislazul 1 Artigo
Reside em Osasco, aquarista desde a infância. Fundadora do Betta Conscience, em 2018, grupo que visa a conscientização dos cuidados apropriados de peixes Bettas e outros. Atualmente possui 3 nanos plantados, cada um com um peixinho betta, um tanque de kinguios e diversos hospitais para resgate, reabilitação e posterior adoção responsável.

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