Reis dos Aquários Jumbos – Tucunaré

 

Autor: Renato Moterani

A palavra tucunaré vem do tupi e significa parecido com tucum, uma palmeira muito espinhosa da região amazônica, os índios dizem que a dor sentida quando se espeta a mão na dorsal do peixe é igual a que se sente quando se espeta na palmeira.

Esse peixe é um dos maiores troféus na pesca esportiva e um dos mais queridos jumbos aqui no Brasil e no mundo, vamos conhecer um pouco mais sobre esse peixe maravilhoso e entender por que ele é tão especial.

Os tucunarés pertencem à família ciclidae, composta por peixes modernos e que estão espalhados por todo o mundo, com o maior número de espécies na África e América.

Dentro dessa família, os tucunarés se separaram há muito tempo, logo depois da divisão da pangeia, que separou a África da América, dessa divisão original, foram formados dois ramos, um deu origem a um gênero que ainda existe, o Retroculus (apesar da aparência, eles não são
parentes próximos dos Geophagus) que existe até hoje é são tidos como os ciclídeos mais antigos ainda vivos, do outro ramo houve uma nova divisão, de uma surgiram todos os ciclídeos americanos.

O outro se manteve sem divisões até recentemente (geologicamente falando), era um peixe predador e foi evoluindo junto com a fauna de onde vivia, se especializando cada vez mais para predar com maior eficácia os peixes que foram surgindo e prosperando num ambiente de muitos rios e lagos.

Finalmente esse ramo se dividiu novamente e dele saíram 2 novos ramos (alguns autores dizem 3), de um evoluíram os tucunarés, do outro seus primos e parentes mais próximos, os jacundás.

Essa separação tornou esses peixes únicos e seu sucesso foi tão grande que eles dominaram seu ambiente, evoluindo, se especializando cada vez mais e ainda não pararam.

Hoje eles vivem em praticamente todos os rios e lagos da bacia amazônica, sendo levado pelo homem a vários outros lugares onde na imensa maioria dos casos, eles se estabeleceram e dominaram o ambiente, causando desiquilíbrio ambiental em muitos deles.

Mas por que os tucunarés tiveram tanto sucesso?

Eles reuniram algumas características de vários estilos de caça, se tornando perfeitas máquinas de matar, lembram que eu falei sobre se adaptar para caçar as espécies que prosperaram? Pois então, eles evoluíram para predar um grupo de peixes que se tornou extremamente abundante nas águas de todo o continente sul-americano, os caracídeos, tucunarés foram feitos para comer lambaris e piabas, não que não possam predar outros tipos de peixes, mas sua anatomia e seu estilo de caça foram aperfeiçoados para esse tipo de presa.

E como ele caça?

Vamos falar um pouco primeiro sobre os estilos de caça dos diversos tipos de peixes predadores.

Estilo de caça:

  • Predadores de emboscada: Ficam mais parados, camuflados em algum ponto esperando a passagem da presa, quando a percebem dão um bote rápido para captura-la. É uma forma muito usada porque gasta pouca energia com a procura, alguns peixes permanecem parados até que a presa esteja ao alcance de suas bocas.
  • Caça ativa: São peixes que vivem na coluna d’água, constantemente em movimento e sempre atentos ao ambiente, quando percebem a presa, disparam em sua perseguição. É uma maneira de caça que gasta muita energia, mais usada por peixes que vivem em regiões onde não há muitos peixes, sendo assim necessário se deslocar constantemente para encontra-los.

Métodos de captura:

  • Apreensão mecânica: Nada mais é do que a captura através da mordida, os peixes que usam esse método possuem dentes grandes e afiados, próprios para reter e também ferir sua presa, traíras, cachorras e snakeheads são exemplos de peixes que usam esse método, pra quem não viu uma cachorra comendo, às vezes elas deixam o peixe escapar na hora de engolir, mas seus dentes causam ferimentos tão profundos na presa, que ela não consegue mais nadar bem e é facilmente recapturada.
  • Sucção: A forma que a maioria dos peixes mais modernos usa para caçar, não que os outros não usem também, a água é um meio muito denso e isso facilita esse tipo de captura, na verdade, alguns peixes foram aperfeiçoando esse tipo e se modificando para torna-lo mais eficiente.

Uma das primeiras modificações foi a redução do tamanho e/ou número de dentes, dentes grandes atrapalham nessa hora, criam arrasto e dificultam a entrada da presa na boca, os peixes que caçam assim possuem dentes pequenos, geralmente dispostos sob a forma de placas.

Os bagres, pirarucus, datnioides entre muitos outros usam esse método.

Mas qual o melhor?

Ambos têm suas vantagens e desvantagens.

Quem caça por mordidas tem a vantagem de poder realizar vários ataques em pouco espaço de tempo, porque não precisam de muito esforço para abrir e fechar a boca, caçadores por sucção precisam de mais tempo para dar um novo bote. Por outro lado, a sucção tem uma amplitude de ação maior, eles podem capturar um, peixe a uma distância maior porque a presa é sugada para dentro da boca.

Normalmente caçadores de velocidade não são especializados em sucção, nessa modalidade, é mais eficiente à apreensão mecânica, caçadores de emboscada usam majoritariamente a sucção.

Mas e os tucunarés?

Nos tucunarés vemos a junção de várias técnicas, eles reuniram o melhor de cada uma delas, suas bocas são enormes e com músculos poderosos, logo tem grande poder de sucção e seus dentes são minúsculos. Isso pode dar a impressão que caçam por sucção pura e simplesmente.

Mas eles têm mais que isso, sua cavidade bucal é especial, é ampla, mas não foi modificada para ser protrátil, a forma como funciona lembra mais a ação mecânica dos peixes que tem dentes grandes. É claro que isso teve um preço, suas brânquias acabaram reduzidas, isso torna os tucunarés sensíveis a águas com pouco oxigênio dissolvido, mesmo sendo um peixe característico de água parada, não é que ele precisa de alto nível de oxigênio, é que suas brânquias são pequenas demais para seu tamanho e não dão conta se os índices estiverem muito abaixo do normal, o que explica porque eles estão entre os primeiros peixes a morrer quando ocorre falta de energia.

Como suas presas favoritas são muito rápidas, os tucunarés se especializaram em perseguições em altas velocidades e, estão entre os poucos peixes no mundo que não desistem da presa, quando iniciam a perseguição só param quando a capturam ou quando são impedidos por algo no caminho.

Atordoam suas presas com a força do impacto, de forma
parecida com o que fazem os peixes com dentes, os pescadores sabem como é isso, aquele momento que o bicho estoura a flor d’água, num ataque fulminante a isca.

Esse conjunto de armas tornaram os tucunarés um dos predadores mais eficientes do mundo, se diversificando em várias espécies e hoje sendo o nosso tucunaré açú o (Cichla temensis) tido como o maior ciclídeo do mundo, com cerca de um metro (algumas pessoas consideram o Boulengerochromis microlepis como o maior).

Por ser esse superpredador, os tucunarés são inteligentes por natureza, isso aliado a sua bela coloração o tornou um dos jumbos mais queridos e cobiçados do mundo.
Tucunarés no Aquário.

Para começar a falar sobre isso já vou contar umas das vergonhosas curiosidades desse país que vivemos.

No Brasil, lar de 14 das 15 espécies válidas, o comércio de todas as espécies de tucunaré para fins de aquariofilia é PROIBIDO, isso mesmo, é proibida a venda de tucunarés para aquário, eles só podem ser vendidos COMO ALIMENTO.

Salvo aqueles que vem de pisciculturas, ou seja, você pode pescar e matar o peixe, coletar para aquário é ilegal.

Por isso, nos aquários dos gringos vemos muitos mais nossos peixes que aqui no Brasil, o argumento para isso? A coleta desses peixes para o comercio como pet pode colocar em risco a população de um peixe tido como recurso pesqueiro.

É ridículo, eu sei, mas são coisas do IBAMA, seu eu fosse falar o que penso sobre esse órgão, acho que seria preso kkkk.

Leis e cretinices a parte, para se manter um tucunaré com boa saúde até sua fase adulta, você vai precisar de um aquário com pelo menos 200 x 60 x 60, todas as espécies atingem mais de 40cm quando adultas, boa parte delas passam dos 50cm.

Prefira adquirir seu tucunaré ainda pequeno, é muito mais fácil a adaptação de animais ainda jovens.

Como já disse, precisam de água com boa oxigenação e demandam um ótimo sistema de filtragem, já que comem muito e, portanto produzem muitos dejetos, temperatura sempre acima de 25 graus, pH de 5 a 7,5.

Alimentação para eles não costuma ser problema, aceitam muito bem filé de peixe (com exceção de uma espécie), é interessante que tenham alimentação o mais variada possível que recebam suplemento vitamínico no alimento uma vez por semana.

Alguns aceitam também ração, mas isso é raro. Também é interessante receberem alimento vivo pelo menos a cada dois meses realçam suas cores e melhora sua saúde, só não se esqueçam de quarentenar os peixes de alimento antes de jogar no aquário.

E como adaptar esses peixes para comer alimento morto?

Isso é feito primeiramente adaptando bem o tucuna no novo aquário, usando peixes vivos mesmo, quando ele estiver comendo bem e vindo ao vidro pedir comida quando você se aproxima, você vai cortar pedaços pequenos de filé de peixe (preferencialmente sardinha), se conseguir, no formato aproximado de um peixe, você joga esse pedaço de filé com força na água e ele provavelmente vai pegar meio que “no susto”.

Outra forma de adaptar os tucunarés a comer filé é usar outros peixes para “ensinar” os tucunas, você coloca peixes que são vorazes e desinibidos, oscar é ótimo para isso, vai acostumando os peixes com sua presença até que eles vão associar você ao alimento. Quando isso acontecer e os tucunas estiverem pedindo comida junto com os oscars, você deixa sem alimento por 3 dias e depois oferece filé de peixe da mesma forma que no exemplo acima.

Existem outras várias, mas essas duas são as que eu uso aqui e
sempre tive sucesso. Ração pode ser feito o mesmo procedimento, mas o sucesso é mais difícil.

Reprodução:

É muito raro de se conseguir em aquário aqui no Brasil, no exterior existem vários relatos de sucesso, devido ao tamanho que atingem, precisam de aquários grandes para que ocorra, o casal faz a postura em troncos e cuida da prole da mesma forma que outros ciclídeos.

Enfim, vou falar um pouco sobre as espécies mais comuns, que às vezes vemos por ai.

A primeira espécie de tucunaré foi descrita em 1801 por Bloch & Schneider, foi o Cichla ocellaris, de lá pra cá algumas coisas mudaram, tivemos duas revisões do gênero, a primeira em 2003 onde foram consideradas válidas 5 espécies, depois em 2006 foi feita a última, onde consideraram 15 espécies válidas.

Tenho certeza que esse número é bem maior, muitos rios tem populações que evoluíram e já podem ser consideradas como espécies plenas, mas isso demanda tempo e dinheiro para ser descoberto.

Destas, temos duas que sempre estão presentes nos aquários devido a sua criação em cativeiro e a soltura em várias regiões do país, são elas:

Cichla piquiti: O tucunaré azul, possui esse nome pelo tom azulado que possui em suas nadadeiras, é inconfundível por apresentar 5 faixas verticais no corpo, os jovens dessa espécie são especialmente belos, apresentam o padrão paca que desaparece rapidamente, é talvez a espécie que se adapta com maior facilidade a comer alimento morto, passa dos 50cm em aquário.

Cichla kelberi: Conhecido como tucunaré amarelo, em minha opinião é a mais bela de todas as espécies, quando filhotes são feios, quase sem cor, depois de adultos ficam com um amarelo vivo, meio esverdeado com pintas douradas pelo corpo, essas pintas estão presentes também nas nadadeiras, essa característica é o que difere essa espécie das outras.

Infelizmente essa é a espécie mais complicada para comer alimento morto, alguns demoram muitos meses e uns poucos nunca aceitam qualquer coisa que não seja peixe vivo.

Existem algumas outras que, apesar de mais raras, às vezes podem ser encontradas entre os aquarista:

Cichla pinima: Esta espécie é a que apresenta a maior variação de padrão de cor, podem ter 3 barras verticais, duas, uma ou nenhuma, alguns tem 3 bolas pretas, outros apenas uma ou duas, apresentam o padrão paca até quase a fase adulta. Por ser uma espécie que vive em rios, tem o corpo mais comprido. Aceitam alimento morto com grande facilidade desde muito pequenos.

Cichla monoculus: Conhecido entre os pescadores como tucunaré popoca, é a menor das espécies, atingem em torno de 40cm, ficam muito bonitos quando adultos e alguns adquirem o padrão fogo, dos mais belos que existe.

Cichla orinocensis: Das espécies mais cobiçadas pelos aquarista, conhecido como borboleta, possui 3 bolas pretas, difere do pinima por ter as três bolas alinhadas, nos pinimas às bolas não são alinhadas.
Também ficam com cerca de 40cm e comem alimento morto sem problema, apesar do pequeno tamanho, é das espécies mais agressivas.

Cichla temensis: O mundialmente famoso tucunaré açú, a maior de todas as espécies e a mais agressiva, podem apresentar o padrão paca mesmo depois de adulto, são muito vorazes e crescem rapidamente.

Padrões de cor:

Não são espécies, apenas uma coloração que alguns animais podem apresentar.

Paca: Um padrão muito comum, várias espécies possuem esse padrão, a maioria delas apenas na juventude, tem esse nome por apresentarem manchas mais claras como uma paca.

Fogo: Apenas duas espécies apresentam esse padrão, monoculus e miriane, a característica desse padrão é a intensa cor vermelha presente em mais da metade do corpo do peixe, não é possível saber se o peixe vai ter esse padrão enquanto jovem, sua cor muda apenas depois dos 20 a 25cm.

Bahia Gold: Um padrão de kelberi, não há a presença de barras verticais e em seu lugar fica um marmorizado de dourado com preto, é das espécies mais valorizadas no exterior, alias, só vi fotos desse padrão em aquários no exterior.

 

Sobre Renato Moterani 16 Artigos
Natural de São Paulo-SP, é aquarista desde 1986, na época foi a uma avicultura (não existia o termo Pet Shop..rs) e comprou um peixe chamado Oscar, colocou esse peixe junto dos neons e espada de seu irmão mais velho, duas semanas depois ganhou esse aquário do irmão, após todos os peixes serem devorados. É técnico contábil, Servidor Público estadual, trabalhando atualmente no Instituto Butantan, com produção e pesquisa sobre venenos de serpentes. Sempre mantendo peixes jumbo, se especializou na área e desde 2014 mantém o grupo Peixe Grande Aquarismo e a página de mesmo nome. Atualmente possui 4 aquários montados, o maior com 2.200 litros e o menor com 100.

4 Comentário

  1. Eu pesquei alguns tucunaré na represa e coloquei eles em uma caixa de água de 500 litros com uma bombinha potente com um sistema de filtragem bacana , primeiro eles deu uma doença neles que deixarão as nadadeiras deles meio aveludada e depois meu amigo me falou que eu colocasse um pouco de sal grosso na água e depois esfriou muito e eles morreram, será que eles morreram por causa do sal ou do Ph da água que eu não medi ou do anti cloro que eu não coloquei ou a água que tá muito fria alguém pode me ajudar????

     

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