Reis dos aquários jumbo – Oscar / Apaiari

Autor: Renato Moterani

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Mais uma das histórias do tempo da carochinha contada pelo Moterani…

Muitos anos atrás, minha mãe trabalhava onde hoje fica o Museu do Imigrante, no Brás. Eu era muito pequeno naquele tempo, tinha coisa de seis anos creio eu, às vezes ia com ela até lá, quando meu cunhado a levava ou buscava de carro.

Logo na entrada principal do prédio havia um chafariz, com muitos peixes e ninfeias. Sempre que ia lá eu passava horas me divertindo vendo aqueles peixes, mas havia dois em especial que eram meus preferidos, dois peixes de cor escura, pretos com algumas faixas mais claras.

E eu ficava revirando o imenso jardim daquele lugar a procura de caracóis, que esses dois peixes devoravam com grande voracidade, mastigando suas conchas que eram cuspidas em pedaços.

Dai houve uma reforma no prédio e os pintores lavaram seus materiais dentro desse chafariz, matando todos os peixes de lá.

Passaram-se alguns anos até que voltasse a ver um peixe dessa espécie, foi em um pequeno pet shop (que naquela época chamávamos de avicultura e que existe até hoje), eu acabara de ganhar meu primeiro aquário de meu irmão, ele tinha alguns espadas, platis e neons lá, deixou esses peixes comigo para que cuidasse deles por um tempo.

Bom, eu queria comprar algum peixe para meu novo aquário de 40 litros e, ao chegar lá achei esse peixe lindo, ao perguntar para o dono da loja sobre ele, só me foi dito seu nome.. “OSCAR”.

Nada mais ele sabia sobre esse peixe, me lembro de que gastei todo meu dinheiro do mês para compra-lo e fui todo feliz pra casa com o peixe novo… Quem não ficou feliz foram os peixinhos do meu irmão, que foram todos devorados em uma semana..rs..

Após cerca de um ano ele cresceu e já vivia em um aquário de 120 litros, ao ver a cor que tinha ficado percebi que era o mesmo peixe que eu alimentava no chafariz de onde minha mãe trabalhava.

Fiquei alguns anos com esse peixe, até que em um fatídico dia ele morreu por causa de um termostato defeituoso.
Mas nasceu ai meu fascínio pelos jumbos.

Acredito que muitos jumbistas se identificaram com minha história, afinal, o Oscar talvez seja o jumbo mais popular do Brasil e um dos mais conhecidos e queridos de todo o mundo, sendo a porta de entrada de inúmeros aquaristas para o mundo dos jumbos.

Agora chega de histórias e vamos falar um pouco sobre esse peixe..

O Oscar pertence à família Cichlidae, mais precisamente a subfamília Astronotinae, que possui apenas três gêneros, o Astronotus, que é o dos oscars, e mais dois de ciclídeos filtradores, ou seja, o oscar não é parente próximo dos acarás, apesar de ser chamado de Acará Açú em muitos lugares.

Atualmente são reconhecidas apenas duas espécies de oscar, o A. ocellatus e o A.crassipinnis, meu primeiro oscar era um crassipinnis e durante muitos anos essa era a espécie encontrada a venda, pois era nativa da bacia do Paraná.

Muitos anos depois começaram a aparecer outras variedades, já da espécie ocellatus, vinda da região amazônica.

O A.ocellatus fica bem maior que o primo, chega a 45cm contra os 25 dele. Foi introduzido inicialmente na região nordeste e depois em praticamente todo o Brasil. Originalmente sua criação se destinava a alimentação, pois possuem carne de excelente sabor, podendo ser preparado frito, cozido ou mesmo cru na forma de sashimi (é realmente muito bom, já comi de todas as formas…)

Mas foi na aquariofilia que o ocellatus fez maior sucesso, apesar de carne saborosa, ele tem crescimento lento demais para a piscicultura comercial.

Essa espécie foi levada para fora e criada em larga escala pelos gringos, onde foram desenvolvidas muitas mutações de cor e comprimento de nadadeiras.

Hoje vemos o inverso, são raros os crassipinnis a venda pois tem cor menos atrativa que seu primo.

A origem do nome “Oscar” se perdeu, nunca encontrei um registro confiável a respeito de sua origem, mas. É como esse peixe é conhecido fora do país, aqui no Brasil também é chamado de Apaiari.

E qual a razão do sucesso desse peixe entre os aquaristas do mundo todo?

Quem já teve um sabe responder essa pergunta facilmente, é um peixe de grande resistência, vive bem em qualquer pH, dH, suporta uma faixa relativamente ampla de temperatura, apesar de preferir algo em torno de 28 graus.

Na natureza são predadores de invertebrados principalmente (60 a 70% de sua dieta), mas se caracterizam por serem predadores oportunistas, devorando pequenos peixes, anfíbios e répteis sempre que tem chance.

Dada essa alimentação “cascuda”, desenvolveram poderosos dentes de faringe, capazes de esmagar conchas, cascas e ossos.

Mas não é sua capacidade predatória ou sua adaptabilidade que os tonaram populares. Foi sua inteligência.

O oscar é dos peixes mais inteligentes do mundo, consegue reconhecer a pessoa que o alimenta e fica alvoroçado quando a vê se aproximar do aquário.

Na natureza o oscar vive próximo a vegetação, onde sua coloração o camufla bem, tanto para fugir de predadores quanto para emboscar suas presas. É um peixe de movimentos lentos naturalmente. Em aquário isso muda, e vamos falar um pouco sobre esse peixe em aquário:

Aquário:

Apesar de ser um peixe de grande porte, possui movimentação lenta, isso permite que seja mantido em aquários acima de 150 litros, sendo o ideal 200 litros para um exemplar.

Uma boa filtragem é importante porque o oscar produz uma quantidade grande de sujeira, seja pelas fezes, sejam restos que sobram após eles mastigarem a comida.

O uso de termostato se faz necessário, apesar de tolerar bem temperaturas entre 24 e 33 graus, temperaturas mais baixas podem reduzir seu metabolismo e facilitar o surgimento de doenças.

A decoração é opcional, afinal, oscars são famosos por decorarem o aquário a sua vontade, esqueça plantas, apesar de não come-las, com certeza ele irá arrancar todas do lugar, assim como também irá mover o substrato de um lugar par o outro, criando montanhas ou buracos de acordo com seu humor.

Mantenha o aquário tampado, apesar de não ser comum, oscars também pulam e já vi vários que morreram por causa disso.

Oscars em aquários comunitários:

Vejo muitas pessoas reclamando da agressividade de alguns oscars, isso é algo que varia muito de peixe para peixe. Geralmente quando criado sozinho eles se tornam muito territoriais, assim como se mantidos em aquários com menos de 400 litros.

Para evitar problemas assim é preciso que se adquira o oscar ainda pequeno, ele deve ser criado junto a outros peixes, assim se acostuma com a companhia.

Outro problema é colocar dois oscars juntos, isso só vai dar certo se for um casal formado, caso contrário eles irão brigar, às vezes até a morte, o ideal é ter apenas um ou um grupo, assim se formará uma hierarquia no cardume e haverá uma paz relativa.

Mas isso pode criar a médio prazo outro problema, podem se formar casais que irão brigar por territórios, se o aquário não for grande o bastante, será preciso separar aqueles que estiverem apanhando muito para evitar mortes.

Oscars reproduzem em cativeiro com relativa facilidade, depois de formado o casal, eles ficarão juntos por toda a vida. O problema é quando isso acontece em aquários comunitários. Tanto pela agressividade aumentada quanto pelo risco enorme dos pais comerem a prole devido ao estresse causado pela simples presença dos demais peixes no aquário.

Nesses casos, o ideal é separar esse casal em um aquário apenas deles, caso se queira reproduzir mesmo.
Mas se essa não for a intenção, apenas deixe que a natureza siga seu rumo.

Alimentação:

Essa é a parte mais fácil, como já disse, oscars comem qualquer coisa de origem animal, em aquário pode ser alimentados apenas com ração, uma forma muito prática de manter seu peixe sempre saudável, já que hoje existem rações que fornecem todos os nutrientes necessários, em especial a vitamina C, muito importante para o peixe e difícil de ser obtido de outra forma.

Eles aceitam muito bem filé de peixes diversos, camarão, coração de boi, frango, patês, peixes vivos, insetos e minhocas. É importante que se varie bem a alimentação dos oscars, já que eles se acostumam a um tipo usado muito frequentemente e podem não aceitar mais outro tipo de alimento, podendo ser um problema grave no futuro.

Doenças:

Oscars são peixes muito resistentes, raramente adoecem. Se mantidos em boas condições, bem alimentados e com temperatura controlada, dificilmente irão adoecer. Apesar dessa resistência, eles são particularmente sensíveis a doença do buraco na cabeça.

Os problemas mais comuns são na verdade de origem externa, seja feridas ocasionadas por brigas, como pH muito baixo, apesar de tolerar uma faixa de pH que vai do 5 até 7,8, preferem algo em torno de 6,8.

Distúrbios de bexiga natatória e tumores também podem aparecer, mas são casos raros, se bem mantidos, alguns oscars podem passar de 20 anos de vida em aquário.

Considerações Finais

Hoje temos no mercado uma grande diversidade de oscars a venda, tanto produzidos aqui quanto importados, dentre as mutações que temos existem:

Cor: Selvagem, tiger, red tiger, bronze, red, black. Destes, todos tem mutações de albino e lutino, as vezes com alguma modificação de nome, por exemplo, o red albino é conhecido como rubi e o bronze albino é chamado de lemon. Possuem também mutações de nadadeiras longas, conhecidas como véu.

Por incrível que parece, existe uma grande diferença no temperamento das raças, os tigers e red tigers são os mais agressivos, o bronze o mais tranquilo.

Quando for comprar seu oscar, olhe bem todos os peixes no aquário, aqueles que estiverem sem marcas alguma de machucado provavelmente serão mais agressivos, escolha peixes com aspecto saudável, que nadem com as nadadeiras bem abertas e tenham a cor sólida. No mais, é só curtir esse que sem sombra de dúvida é dos mais carismáticos e queridos de todos os peixes do mundo…

Sobre Renato Moterani 16 Artigos

Natural de São Paulo-SP, é aquarista desde 1986, na época foi a uma avicultura (não existia o termo Pet Shop..rs) e comprou um peixe chamado Oscar, colocou esse peixe junto dos neons e espada de seu irmão mais velho, duas semanas depois ganhou esse aquário do irmão, após todos os peixes serem devorados. É técnico contábil, Servidor Público estadual, trabalhando atualmente no Instituto Butantan, com produção e pesquisa sobre venenos de serpentes. Sempre mantendo peixes jumbo, se especializou na área e desde 2014 mantém o grupo Peixe Grande Aquarismo e a página de mesmo nome. Atualmente possui 4 aquários montados, o maior com 2.200 litros e o menor com 100.

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