Jejum (Hoplerythrinus unitaeniatus), o snakehead brasileiro

Autor: Renato Moterani

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O Brasil é um dos países com a maior ictiofauna de água doce do mundo e acredito que seja o com a maior quando falamos de jumbos.

Exatamente por conta dessa grande diversidade, muitos dos nossos peixes são desconhecidos entre os aquaristas brasileiros, mas bem conhecidos lá fora.

Pensando em popularizar peixes com grande potencial para o aquarismo, estou começando hoje uma série que vai falar um pouco mais sobre peixes nossos que são ilustres desconhecidos no Brasil.

E, para começar, vou contar uma daquelas histórias antigas do aquarismo, de um tempo onde não existia Orkut e nem se usava ainda os termos “aquarismo jumbo” ou “lotação”.

Há alguns anos, existia uma loja aqui em São Paulo, no bairro do Cangaíba, chamada Technomarin, essa loja, apensa de pequena, foi sem qualquer dúvida a melhor que já existiu em todo o Brasil, tanto em qualidade, quantidade, variedade e preços de jumbos, só para vocês terem uma idéia, já vi lá a venda:

Piraíba
Tucunaré Açú (verdadeiro)
Jaú verdadeiro
Tigrinum
Zebra Flash
Cachorra (primeira vez que vi esse peixe em aquário)
Poraquê
Robalo
Corvina de água doce
Barbado
Surubim Chicote
e.. fugindo um pouco dos peixes de água doce e dos peixes em sí, por duas vezes vi lá a venda o polvo de anéis azuis (Hapalochlaena maculosa)

Enfim, era uma loja fantástica que infelizmente não existe mais.

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Um dia, visitando essa loja, vi um peixe estranho, parecia uma traíra mais robusta, de cor clara com uma faixa preta no meio do corpo, quando perguntei que peixe era, o Fábio me disse que era um jejum, um primo das traíras que o irmão dele havia enviado na última carga de peixes vinda do Pará.

Notei que ele estava com as nadadeiras todas roídas e, ao perguntar o que tinha sido, ele me disse que aquele peixe havia matado um monte de peixes na estufa de seu irmão e, por isso, ele o tinha colocado num aquário piranhas, logo que ele entrou elas o morderam, mas depois pararam e ele viveu feliz em meio ao cardume de piranhas por mais um tempo até ser enviado.

Fiquei curioso com o peixe e resolvi compra-lo, ele devia ter uns 17 a 20cm e foi colocado num aquário com 6 snakeheads (Channa micropeltis), todos com 35cm. Esses peixes nunca haviam aceitado qualquer outro junto, tudo o que coloquei acabou morto por eles.

Mas para minha surpresa, o jejum chegou e já tascou uma mordida na cara de um deles e ficou de boa. Tão de boa que eu precisa jogar comida para ele antes de alimentar os snakeheads. E assim foram felizes por uns dois anos até que resolvi desmontar o aquário e vendi ele e 4 dos channas.

Bom, acho que já deu pra perceber que esse peixinho é casca grossa, depois pesquisei sobre ele e descobri que tem vários nomes pelo país a fora e que é usado como isca viva, em lugares onde há muita piranha e não se consegue pescar com outra isca.

Agora vamos falar um pouco do peixe em si…

Hoplerythrinus unitaeniatus

Jejum, Jeju, iuiu, Traíra branca, Trairinha e Golden Wolf Fish para os gringos.

Pertence a uma família muito antiga de peixes, a Erythrinidae, mesma das traíras, suas primas.

Possuem hábitos diferentes delas, são muito mais ativos, vivendo mais na superfície e meia água, não atingem grande tamanho, no máximo 40cm.

São predadores muito vorazes, se alimentam de qualquer tipo de animal, peixes, invertebrados no geral, anfíbios, pequenos répteis e roedores.

Comem inclusive carcaças de animais maiores mortos, possuem uma dentição diferente que lhes permite cortar pedaços de carne.

Costumam viver em águas rasas, onde é mais fácil encontrar alimento e fugir de predadores (um dos principais predadores desse peixe é o poraquê), muito comuns em alagados e brejos. Podem respirar o ar atmosférico através de sua bexiga natatória e conseguem caminhar a procura de água quando o lugar onde estão começa a secar eles procuram um outro melhor.

Devido a esse hábito, o aquário para eles precisa ser bem tampado pois costumam pular com frequência. Permanecem vivos durante muitas horas fora da água, já encontrei um dos meus “passeando” pelo quarto, já quase seco, foi jogado novamente no aquário e se alimentou no dia seguinte.

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Aquário:

Por não atingir grande tamanho, vivem bem em aquários de 250 litros para cima, são extremamente adaptáveis, vivendo em qualquer faixa de pH, toleram bem águas mais frias ou muito quentes, com oxigênio perto do zero.

Decoração também não é um fator importante mas ficam lindos em aquários plantados.

Apesar de serem encontrados em cardumes na natureza, em aquário costumam brigar até a morte em aquários menores, mesmo nos grandes há problema, eu consegui estabilizar um grupo de 6 em um aquário de 1300 litros , sendo um macho dominante e 5 fêmeas na época. O melhor mesmo é ter um por aquário.

Diferenciar o sexo desse peixe é bem fácil, os machos possuem uma mancha vermelha no opérculo.

Como companheiros de tanque, recomendo que sejam escolhidas espécies agressivas, se forem colocados com peixes mais mansos há chance de problemas.

A alimentação não é problema para esse peixe, comem ração, filé, insetos, peixes, enfim, quase tudo que se jogar de origem animal.

O jejum é um peixe valorizado fora do Brasil, aqui só é conhecido dos pescadores como isca e por isso não é vendido como peixe de aquário, uma espécie com hábitos muito interessantes e que deveria fazer parte com mais frequência da fauna dos nossos aquários.

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* Agradecimento a Renato Moterani por ceder o artigo, além da comunidade no Peixe Grande no Facebook.

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4 Comentário

  1. Bom dia, gostei desse post, mas amigo, onde conseguiu os SnakeHeads? eu estou que nem louco procurando e não acho, me ajuda pfv, eu pago uma grana a mais se você tiver.

  2. bom dia .você pode me dizer onde posso achar aqui em são paulo? eu tenho 49 anos, e durante minha infância eu sempre pesquei
    par comer e sempre criei em laguinhos no quintal de casa (lá no rio de janeiro)

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