Iniciando no aquarismo de água doce

 

Autor: Leonardo Denardi

Introdução

O aquarismo é um hobby fascinante que não para de crescer, uma mistura de ciência e arte, mas que também é um exercício de dedicação e paciência para quem optou por manter um aquário dentro de casa. Ao contrário do que muitos pensam, é um hobby acessível a todos. E o aquarista também não precisa de um Doutorado em Biologia ou Química para ser bem-sucedido com seu aquário. O propósito desse artigo é auxiliar o futuro aquarista a dar os primeiros passos no maravilhoso mundo da criação de peixes ornamentais.

Você deve estar pensando que o 1º passo a ser dado é comprar o aquário, certo? Não, não é bem assim…o 1º passo é estudar! Ler o que puder sobre as espécies que você pretende criar, saber quais são seus hábitos alimentares, seu comportamento, suas exigências com parâmetros da água. Pesquise na Internet, participe de fóruns. Enfim, a ideia é conhecer tudo o que puder sobre os peixes que pretende criar. Se você fizer isso, terá condições de saber exatamente qual o tamanho do aquário que vai comprar, qual a filtragem que precisará, saberá escolher o melhor tipo de substrato, iluminação, decoração, etc.

É muito comum ouvirmos relatos de pessoas que, por desconhecerem as necessidades dos peixes ou mesmo por má orientação, passam por situações em que os peixes vão adoecendo e morrendo, o que as faz desistir do hobby achando que é muito complicado. Conheça bem seus futuros peixes, e você terá muito sucesso com seu aquário.

O Aquário

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Foto: Diana Walstad

Agora sim você tem condições para escolher a melhor casa para seus peixes ornamentais. Via de regra, quanto maior o aquário, melhor. Mas isso não é uma regra absoluta, muitas vezes temos limitações no espaço que dispomos para instalar um aquário. Procure saber qual o volume de água mínimo que seus peixes vão necessitar, e se puder adquirir um aquário ligeiramente maior, melhor. Além disso, aquários maiores, quando estabilizados, são mais difíceis de ter seus parâmetros alterados do que os menores. Isso não quer dizer que aquários pequenos dão mais trabalho, apenas significa que eles vão exigir um pouco mais de atenção por parte do dono.

Seu aquário deve ser instalado em um local arejado, sem incidência direta de luz do sol ou você terá problemas com algas. Instale-o em um local onde terá fácil acesso para realizar as manutenções. Evite fumar, usar tintas, ou inseticidas no cômodo em que estiver o aquário, já que essas substâncias podem ser absorvidas pela água.

Uma boa dica é comprar também um segundo aquário, de pequenas proporções, que será seu “aquário-hospital”. Mesmo que sejam bem alimentados e cuidados, os peixes, assim como qualquer ser vivo, podem em algum momento da vida contrair alguma doença. Algumas vezes o tratamento pode ser feito no aquário principal, mas dependendo das espécies que você terá, algumas podem tolerar determinado medicamento enquanto que outras, não.

Além disso, o aquário-hospital lhe permite utilizar o medicamento em menores doses, já que a maioria deles leva em conta o volume de água para calcular a dosagem. Medicamentos para peixes de água doce costumam ser salgados (no preço).

O Famoso pH

A esta altura, você já deve saber qual espécie ou espécies pretende criar, já tem o aquário e está pronto para comprar o substrato e itens de decoração. E é com estes elementos que você vai começar a ajustar o pH da água que estará contida em seu aquário.
Por definição, pH é a quantidade de íons de hidrogênio presentes na água. Quanto mais íons, mais ácida. Quanto menos, mais alcalina a água será. Mas não é necessário compreender a química por trás deste conceito, o que você precisa saber é como ajustar o pH para a faixa que seus peixes irão necessitar.

A água que chega em nossas casas tem pH neutro ou o mais próximo dele possível. Isso é uma norma que as companhias de abastecimento têm de seguir, porém nem todas as espécies de peixes ornamentais se encaixam nessa faixa de pH. Peixes da região amazônica exigem água mais ácida, por exemplo. É aí que o substrato e a decoração do aquário desempenham papel de grande importância.

Substratos

iniciando-substratoOs substratos, com relação ao pH, se enquadram em duas categorias: alcalinos e neutros. O primeiro tipo é usado para os ciclídeos africanos que necessitam ph bem alcalino, bons exemplos são a aragonita, halimeda, e a calcita. O segundo tipo de substrato é usado para quase todas as outras espécies de peixes ornamentais. Nessa segunda categoria temos os substratos férteis que serão usados em aquários plantados, ou os não-férteis, como cascalho de rio, areia lavada e basalto, por exemplo.

Substratos férteis para os plantados podem ser industrializados, como o Seachem Flourite, Sera FloraDepot ou Eco-Complete, por exemplo. Sua desvantagem é o preço, porém existem opções mais baratas, como a combinação húmus+laterita, e segundo os usuários, tem desempenho tão bom ou até melhor do que os acima citados. Devido ao baixo custo e excelente performance, seu uso está se difundindo cada vez entre os adeptos dos aquários plantados.

Não existem substratos acidificantes, então se seus peixes serão de água ácida, você vai precisar de alguns “artifícios”. É aí que a decoração passa a ter um papel mais importante além da estética. O elemento mais comum para baixar o pH é o uso de troncos para acidificar lentamente a água. Pedaços de turfa colocados no filtro e folhas secas espalhadas pelo aquário também vão ajudar nesse sentido. Cascas de côco também podem ser usadas, e são tocas perfeitas para os peixes. Se a faixa de pH desejada for muito baixa ou muito alta, provavelmente será necessário o uso de condicionadores e tamponadores, mas isso não interessa agora, vamos falar deles mais para frente.

Decoração

Rochas são decorações muito apreciadas por aquaristas, e algumas também possuem propriedades alcalinizantes, como as calcarias (mármore, granito, dolomita). Seixos e basalto rolados, assim como pedras sedimentárias, por outro lado, não alteram o pH e são largamente utilizados.

Outros itens decorativos que podem ser usados são os enfeites em resina, próprios para aquarismo. Existem alguns de extrema beleza, que reproduzem com perfeição pedras e troncos. Outros, como enfeites a base de barro cozido são também uma boa opção.

Além da parte estética e do auxílio no ajuste do pH, a decoração também ajuda a recriar o ambiente em que os peixes são encontrados na Natureza. Em conjunto com as plantas, a decoração irá fornecer refúgio, tocas, áreas para exploração e para reprodução, tudo para que os peixes se sintam mais confortáveis e seguros, consequentemente ajudando-os a permanecerem saudáveis.

Com o aquário, substrato e elementos decorativos escolhidos, chegou a hora de decidir qual filtro você vai usar. Um dos equipamentos de maior importância no aquarismo, filtros são imprescindíveis na obtenção de um aquário estabilizado e saudável para os peixes.

Apenas atente em montar um aquário com objetos mais natural possível, evitando enfeites e objetos de gosto duvidoso que deixarão seu aquário com aparência de um parque de diversões do que propriamente um aquário.

Filtros

Filtros são, de modo geral, recipientes colocados dentro ou fora do aquário, que contém os elementos filtrantes. Por bombeamento ou por gravidade, a água passa do aquário para esses recipientes, tem as impurezas removidas e é então devolvida ao aquário. Os elementos filtrantes, conhecidos como mídias, realizam três tipos de filtragem:

1 – Filtragem física ou mecânica: composta por lã acrílica, perlon ou qualquer tecido de trama fina, captura as impurezas sólidas, como restos de plantas e comida.

2 – Filtragem química: composta por carvão ativado ou outros produtos, remove susbtâncias tóxicas que se encontram diluídas na água.

3 – Filtragem biológica: a mais importante de todas, composta por cerâmicas ou qualquer outro material poroso, é onde as bactérias nitrificantes se estabelecem. Falaremos mais sobre elas na ciclagem. O que deve ficar claro para o futuro aquarista é que qualquer aquário consegue ficar sem os dois primeiros tipos de filtragem, mas sem a biológica é impossível obter um sistema totalmente estabilizado.

Dito isto, vamos ver os tipos de filtros disponíveis atualmente no mercado:


iniciando-fbfFiltro Biológico de Fundo ou FBF
: o primeiro filtro desenvolvido para o aquarismo. É composto por um conjunto de placas perfuradas, com uma ou mais torres nas extremidades. O substrato é colocado por cima das placas, ficando visíveis apenas as torres e as bombas. A água é sugada pelo substrato, passa pelas placas e retorna ao aquário. Tal fluxo propicia oxigenação necessária para a proliferação das bactérias por todo o substrato. A grosso modo, o FBF transforma todo o aquário em um filtro. O fluxo de água ideal deve ser de 4 a 5 vezes o volume do aquário, por hora.

Vantagens: extremamente barato, é imbatível em termos de filtragem biológica. Fornece também movimentação de água na superfície, muito apreciada por várias espécies.
Desvantagens: Não possui os outros tipos de filtragem. Além disso, exige uma manutenção mais cuidadosa para que se evite acúmulo de sujeira por baixo do substrato. Não é utilizado em plantados que possuem substrato fértil, já que este deve ficar isolado da coluna d’água por uma camada de areia ou substrato fino.

Filtro Interno: composto por uma bomba e um pequeno recipiente, como o nome já diz, fica instalado dentro do aquário.

Vantagens: barato e de fácil manutenção.
Desvantagens: pouco espaço para as mídias, ocupa espaço desnecessário dentro do aquário.

iniciando-hangonFiltro Hang-on ou Externo Traseiro: muito difundido no aquarismo atual, consiste de um recipiente que fica pendurado na parede externa do água. A água é sugada pela bomba, passa pelo compartimento onde estão as mídias, e retorna em forma de cascata. A vazão ideal é de 6 a 8 vezes o volume de água do aquário.

Vantagens: de baixo custo, são muito utilizados. Há uma enorme variedade de marcas e modelos, para todos os tipos de aquários. Possuem refis que devem ser trocados quando saturados, sua manutenção é fácil. Proporcionam uma ótima oxigenação da água através da movimentação, já que o O2 é facilmente absorvido.
Desvantagens: praticamente nenhuma, exceto pelo pouco espaço para alojar os materiais filtrantes, desde que se faça a manutenção periódica.

iniciando-fbmFiltro de Bactérias Modular ou FBM: filtro interno de boas dimensões, muito semelhante aos filtros internos porém sua instalação é diretamente sobre o substrato em um dos cantos do aquário ao invés de grudados ao vidro.

Vantagens: grande espaço para as mídias, baixo custo e de fácil manutenção, cria um efeito de correnteza apreciado por muitas espécies.
Desvantagens: Ocupa um grande espaço interno.

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iniciando-canisterFiltro Canister: composto por um reservatório geralmente fora do aquário, possui mangueiras que captam e devolvem a água. Trabalham geralmente sob pequena pressão, onde uma bomba interna suga a água, a faz passar pelas mídias e a devolve para o aquário. Possui diversos compartimentos internos para colocação das mídias.

Vantagens: grande espaço interno, permite ao aquarista instalar as mídias conforme sua necessidade. Muito apreciado pelos adeptos de aquários plantados, já que libera muito espaço, ficando apenas as mangueiras de saída e retorno d’água dentro do aquário. Por ser fechado, não permite que o CO2 injetado seja desperdiçado.
Desvantagens: preço muito elevado. Ocupa consideravél espaço externamente, o que não é problema se o aquário possuir móvel, já que é comumente instalado abaixo do aquário, dentro dos móveis. Requer atenção do aquarista quando da manutenção, para se evitar derramamento de água.

Sump: na verdade o sump não é um filtro comercial, mas que está se difundindo cada vez mais entre os aquaristas devido a sua praticidade. São na verdade aquários menores que o principal, ou qualquer outro tipo de recipiente como caixas plásticas ou de acrílico, construídos pelos aquaristas conforme a necessidade. São instalados geralmente abaixo do aquário, e funcionam por bombeamento e gravidade. A água desce para o sump por gravidade, passa pelos diversos compartimentos contendo as mídias, e é bombeada para o aquário. Alguns aquários vêm com sump traseiro, mas os mais eficientes são os do tipo Faça-você-mesmo, contendo 20 a 30% do volume de água do aquário.

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Tipico sump

Vantagens: pode ser construído de acordo com as necessidades do aquarista. De baixo custo, pode acomodar uma enorme quantidade de mídias filtrantes. Manutenção fácil e rápida, além de permitir uma ótima oxigenação da água. Termostatos podem ser instalados neles, assim como condicionadores e medicamentos podem ser inseridos no sump. Aclimatação de peixes novos também pode ser feita nele.
Desvantagens: ocupa um grande espaço físico. Não é indicado para plantados, pois as trocas gasosas que permitem uma ótima oxigenação também dispersam quase todo o CO2 injetado. Se não forem bem projetados, podem causar o escoamento de toda a água do aquário durante uma interrupção no fornecimento de energia elétrica. Outra desvantagem muito comum é ter que adaptar o sump a um aquário que não possui furos com flanges para as conexões hidráulicas.

Os filtros mostrados acima podem ser usados de forma combinada. Por exemplo, um FBF pode ter sua saída acoplada a um filtro hang-on de forma a fornecer ao aquário os três tipos de filtragem. Ou então, utilizar um canister unicamente como filtragem biológica e mecânica enquanto que um hang-on ficaria incubido da química.

Uma regra para se escolher qualquer sistema de filtragem: quanto mais filtragem houver, melhor! Nunca é demais exagerar um pouco nesse quesito, porém apenas tome cuidado para não causar um fluxo excessivo de retorno de água. Muitos peixes gostam de correnteza, mas nenhum deles vai gostar de um tsunami!

Temperatura

Depois do filtro, outros equipamentos que o aquarista precisará são o termostato e o termômetro. Termostato nada mais é que um aquecedor com desligamento automático assim que se atinge a temperatura desejada. A regulagem é feita através de um botão giratório no aparelho, há alguns modelos cujo botão seletor é ligado ao aparelho por meio de um fio, ficando o controle totalmente externo.

Deve-se adquirir um termostato cuja potência seja igual ao volume do aquário. Ou seja, para 100L deve-se adquirir um modelo de 100W, para 200L um de 200W e assim sucessivamente. Caso seu aquário seja pequeno, existem termostatos de 25W, 50W por exemplo. Para aquários muito grandes, serão necessários um ou mais aquecedores espalhados pelo comprimento do vidro. Instale o termostato próximo ao retorno de água do seu sistema de filtragem, dessa forma o calor será distribuído mais rapidamente.
Procure adquirir um termostato que permita imersão total na água, dessa forma você evitará inconvenientes que possam prejudicar o aparelho.

Lembre-se que peixes são animais de sangue frio, e que o metabolismo deles depende da temperatura. Se for muito baixa, ficarão letárgicos e não conseguirão digerir os nutrientes dos alimentos, o que causará problemas digestivos e morte. Há também a possibilidade de contrair íctio, uma doença comum porém de fácil tratamento, ocorrendo a morte apenas se houver demora em iniciar o tratamento. Se a temperatura for elevada, também acarretará na morte do peixe. Uma faixa ideal para a maioria dos peixes é entre 26° a 28° C, porém espécies como kinguios, carpas e taníctis exigem temperaturas menos elevadas.

Infelizmente, os termostatos não são precisos, por isso é necessário fazer uso de um termômetro. Os modelos digitais e de fita podem apresentar falhas na precisão, procure adquirir um termômetro de mercúrio, iguais aos que encontramos nas farmácias. Esses são sem dúvida os mais precisos e será através deles que você conseguirá regular o termostato.


Iluminação

O último item que falta para concluir a montagem do seu aquário é a iluminação. De grande importância para a fauna e principalmente para a flora, uma boa iluminação dá uma aparência magnífica a qualquer aquário.

iniciando-iluminacaoAtualmente utilizam-se lâmpadas fluorescentes, dos tipos compacta, PL e tubular. As incandescentes não são recomendadas, devido ao calor que produzem. Há ainda opções de se usar leds para a iluminação, esta tecnologia ainda é bastante recente no aquarismo.
Essas lâmpadas são instaladas em calhas, colocadas sobre o aquário. As calhas podem ser as comerciais específicas para aquarismo, a própria tampa superior do móvel onde está o aquário (caso você possua um) ou as feitas pelos próprios aquaristas, utilizando canos de PVC, compensados, MDF, etc.

Qual a diferença entre as lâmpadas mencionadas acima? Basicamente, eficiência luminosa, tamanho e preço. O único ponto em comum é que os três tipos necessitam de reator, sendo que nas compactas ele já está embutido no corpo da lâmpada, enquanto que nos outros tipos ele deve ser instalado próximo as lâmpadas.

Eficiência luminosa é a relação entre os Watts consumidos e lúmens produzidos, sendo maior nas tubulares T5 e nas PLs. Uma regra comumente utilizada pelos aquaristas de plantados é o dimensionamento da iluminação baseado na relação Watts por litro (W/L). Ou seja, num aquário plantado de 100L normalmente usa-se 100W de iluminação, um pouco mais até, dependendo da exigência da flora. Para aquários não-plantados, algo em torno de 0,3 até 0.5 W/L já é suficiente para quase todas as espécies.

O que o aquarista iniciante deve fazer é verificar qual a necessidade de seus peixes e da sua flora. Em seguida, verificar qual o tipo de lâmpada e calha seu aquário pode comportar. Deve levar em conta também a altura da coluna d’água, pois quanto mais alto, mais potente deve ser a iluminação de forma a atingir as plantas baixas e carpetes.
Sobre iluminação de aquários plantados, existem muitas outras variáveis que devem ser levadas em conta, como temperatura de cor, distribuição uniforme da iluminação, cor das lâmpadas, por exemplo.

A Ciclagem

Agora que o último passo já foi concluído, é hora de colocar a água em seu aquário. Vá enchendo com cuidado, sem pressa, de forma que o substrato e a decoração não sejam desarrumados nesse processo. Encha o aquário até cerca de 2 a 3 cm da borda de vidro. Se for colocar plantas, encha até a metade, coloque-as conforme o layout planejado, e complete com água até a altura indicada acima. Feito isto, adicione o removedor de cloro, ligue o termostato e o filtro e deixe a água recirculando. Daqui para a frente, toda vez em que for necessário colocar ou trocar a água (a famosa TPA – Troca Parcial de Água), você deve fazê-lo em um recipiente separado, adicionar os devidos condicionadores, e só depois disso colocá-la no aquário.

A esta altura você deve estar pensando “já posso colocar os peixes???”. Bem, na verdade ainda não…lembra-se do que foi dito logo início, sobre aquarismo ser um exercício de dedicação e paciência? Agora é a hora em que todo aquarista tem sua paciência testada ao máximo, pois é agora que se inicia o processo conhecido como Ciclo do Nitrogênio, ou como é mais comumente chamado, a “ciclagem”. Um aquário estabilizado e saudável depende em boa parte dessa etapa, que pode levar de vários dias até semanas para ser concluída.

Mas o que é a ciclagem? É na verdade um processo onde dois grupos de bactérias benéficas, as nitrosomonas e as nitrobacter, irão se estabelecer e densenvolver dentro do seu aquário. Para entender qual a função destas bactérias, vamos primeiro entender como funciona o Ciclo do Nitrogênio.

Todo composto orgânico, sejam restos de ração, peixes e plantas que morrem, ou urina e fezes dos habitantes do seu aquário irão se decompor e produzir amônia, substância tóxica que deve ser eliminada do aquário. As nitrosomonas fazem seu papel agora, ao transformar a amônia em nitrito para se alimentarem da energia liberada na reação. O nitrito também é tóxico, porém em intensidade menor que a amônia, mas também precisa ser eliminado. Agora é a vez das nitrobacter transformarem os nitritos em nitratos, sendo estes últimos menos tóxicos que os nitritos mas que também necessitam ser removidos do aquário. E os nitratos são nutrientes que as plantas necessitam, sendo absorvidos por elas e fechando o ciclo.

Esse processo ocorre exatamente da mesma maneira na Natureza, mas como seu aquário é um sistema fechado com capacidade limitada se comparado ao ecossistema, torna-se necessário fazer as TPAs a intervalos regulares. O gráfico abaixo dá uma idéia aproximada do período e da evolução da ciclagem. (Mas lembre-se que cada aquário é um caso à parte, essas etapas podem ser mais demoradas ou mais rápidas.)

E de onde vêm essas bactérias? Na verdade elas se encontram presentes na água que chega em nossas torneiras, em estado latente devido ao cloro que é adicionado como parte do tratamento da água realizado pelas empresas de saneamento. Quando as bactérias encontram um ambiente sem cloro, com boa oxigenação da água (que é o caso do seu aquário), elas irão se fixar na decoração, no substrato e principalmente nas mídias presentes em seu filtro, e irão se multiplicar estabelecendo colônias. Por isso, é necessário respeitar o período da ciclagem para garantir uma água “amadurecida” para receber seus peixes e eliminar a carga biológica que eles produzirão. Aconselha-se elevar a temperatura para cerca de 34-35 0C durante essa fase, para melhor adaptação das bactérias.

E como saber quando a ciclagem está concluída e os peixes podem ser inseridos? Para tanto, você precisa ter em mãos o Teste de Nitritos, facilmente encontrado nas boas lojas de aquarismo. Mais ou menos passados 20 dias da montagem do aquário, faça o teste. Se apresentar níveis zerados de nitritos, isso significa que a ciclagem foi concluída e deve-se fazer uma TPA de 30% para eliminar a carga excessiva de nitratos presentes na água. Mesmo com a presença de plantas, ainda existirão nitratos no seu aquário. A TPA vai se encarregar de eliminar tais substâncias e deixar seu aquário pronto para receber seus primeiros habitantes.

Após a TPA, se for necessário, use condicionadores e tamponadores para regular o pH até a faixa desejada. Existem diversas marcas no mercado, mas também há a opção de fazer seus próprios condicionadores e tamponadores.

Sobre a ciclagem, é importante o futuro aquarista compreender que este é um processo onde não se deve colocar peixes no aquário, já que as substâncias acima mencionadas são muito tóxicas e poderão causar a morte deles. Mesmo que o peixe seja resistente, isso não quer dizer que ele não sofrerá durante esse processo. Há aquaristas que defendem a colocação de peixes, ou um pouco de ração ou qualquer material orgânico para acelerar a ciclagem, porém isso não é recomendado. Portanto, deixe a ciclagem seguir seu ritmo natural.

Povoando o aqua

iniciando-goldfishDepois de concluída a etapa da ciclagem, os peixes já podem ser inseridos, pouco a pouco, para que as bactérias recém estabelecidas no aquário possam ter tempo de se adaptar à carga biológica dos habitantes. Procure não superpopular seu aquário, alimente-os 3 a 4 vezes durante o dia sem exageros, e o mais importante, faça manutenções regularmente conforme a necessidade para manter seu aquário sempre bonito e saudável.

Antes de inserir os peixes, certifique-se ainda que são compatíveis, evitando inserir peixes que exigem tipos de água diferentes, além de comportamento e hábitos compatíveis.

E pronto! Agora você é um aquarista, e seguindo os passos descritos acima e nunca deixando de ler e aprender sobre aquarismo, você terá muitas horas agradáveis cuidando dos seus novos amigos.

Sobre Edson Rechi 769 Artigos
Aquarista em duas fases distintas, a primeira quando criança e tentava manter peixes ornamentais sem muito sucesso. Após um longo período sem aquários, voltou no aquarismo em 2004, desde então já manteve diversos tipos de aquários como plantado, peixes jumbo, ciclídeos africanos, água salobra, amazônico comunitário e marinho. Atualmente curte e mantém peixes primitivos e ciclídeos neotropicais, suas grandes paixões.

19 Comentário

  1. Olá EdsonRechi, muito obrigada por todas essas informaçõesaté coloquei nos favoritos para facilitar quando me surgir duvidas. Muito inteligente você é( o cara).

     
  2. Olá, parabéns pelo seu site! Estou iniciando no aquarismo e preciso de ajuda URGENTE! Eu tinha um aquário, de um primo que faleceu e comecei a criar alguns peixinhos, mas minha irmã rachou o fundo do aquário na limpeza, então estou mantendo os peixinhos em um recipiente plástico para não morrerem, eu e meu pai decidimos encomendar um novo e maior aquário que chegará na segunda-feira dia 01/02/2016 e pelo que li na matéria a ciclagem leva cerca de 20 dias, estou com medo de meus peixinhos morrerem no meio deste processo, o que devo fazer até o final da ciclagem? Mantenho eles no recipiente? Eles já estão no recipiente há dois dias e perdi o meu favorito, um ”paulistinha”, por favor me ajude! O que devo fazer para não perde-los? (são eles: um Kinguio filhote, um Platy Mickey, um ”Cascudo limpa vidro” filhote e uma fêmea de espada sangue). Desde já agradeço!

     
  3. Boa tarde. Estou montando meu primeiro aquario. Ele tem capacidade para 180 litros. Ja coloquei os cascalhos e algumas pedras. Quero montar um comunitario e preciso de ajuda para saber que tipos de plantas e peixes posso usar.
    Gostaria de colocar peixes pequenos. Me da uma dica de plantas e peixes que posso colocar.

     
  4. Olá!
    Gostaria de parabenizar pelos artigos. iniciei com Aquário aos 9 anos de idade, tempo aquele que limpar Aquário era praticamente esvaziar o mesmo e depois colocar um pouco de sal grosso… Rsrs hj aos 38 mantenho a paixão pelo Aquário.

     
  5. Olá. Primeiro parabéns pelá página e artigos. Segundo, tenho algumas dúvidas, existe substrato “neutro” claro para aquario doce?
    Quanto ao filtro fbf a bomba serve para “sugar” ou para criar oxigenação na água?

     
    • Fernando, você pode usar areia de filtro de piscina que possui tonalidade mais clara. Quanto ao FBF, na verdade a filtragem ocorre no substrato, a bomba ao puxar á água, que passará pelo substrato, acaba criando uma zona aeróbica nesta região, onde as bactérias benéficas ficarão alojadas. Comparado com os filtros atuais, é um sistema de filtragem ultrapassado.

       
  6. Olá, comprei um aquário de uma loja que usava-o para a venda de peixinhos. Veio com muita sujeira. Moro no interior e tenho um poço cavado,que uso para regar as plantas,a horta e dar água para os animais. Coloquei essa água no meu aquário depois de higienizá-lo. A água é um pouco turva.A duvida é se preciso usar algo para que a água fique cristalina. Medi a acidez e deu aceitável.

     
  7. Olá,

    Montei um aquário de 27L, com bastante plantas naturais, misturei cascalho areia de rio com basalto preto no substrato, coloquei algumas conchas, rochas e 2 esconderijos. De peixe, coloquei Plati Aurora e Molinesia (Balão,Dalmata, Negra e Tangerina). Como as plantas vieram de um outro aquario menor, fiz apenas 3 dias de ciclagem e já coloquei os peixes. Ao todo, estou com 14 peixes. Posso colocar mais? Qual peixe Posso colocar?Gostaria de colocar algum cascuda ou Dojo, fui em algumas lojas e as informações que me passam muitas vezes divergem….Tenho um betta macho nesse outro aquario menor, testei colocar junto logo nos primeiros dias mas não deu muito certo! O filtro que eu uso é um 25FE e o ph está Neutro entre 7.0 e 7.2.

    Tenho dúvidas de quanto em quanto tempo fazer a TPA e troca da esponja/carvao do filtro…Seria bom colocar iluminação? Geralmente fica em um local bem iluminado….

    Obrigado!!

     
    • Não coloque mais nenhum peixe, seu aquário está lotado! Providencie um aquário maior para manter estes peixes. Com relação a TPA, vai variar bastante mas normalmente é semana ou quinzenal. Em seu caso, como o aquário está cheio o ideal seria no mínimo semanal. Carvão pode trocar mensalmente. Se quer que suas plantas de desenvolvam é de suma importância ter iluminação.

       
  8. Em relação á quarentena…meu aquário quarentena, ainda sem peixes, está com ph 6.8, amonia 0,5 , nitrito zero e nitrato zero. Devo fazer uma TPA antes de introduzir os peixes ?

     

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