Excesso de Gordura na Dieta. Por que não é indicado?

 

Por Rosana Ferreira – Agosto/2019

Quando o assunto é nutrição de peixes ornamentais há poucos dados disponíveis, uma vez que grande parte dos estudos é direcionada a peixes de corte. Em termos de nutrição, há diferenças a serem consideradas entre esses dois setores, uma vez que para o ornamental a finalidade é alcançar boa longevidade mirando na qualidade de vida, enquanto que para peixes de corte a prioridade consiste em promover crescimento rápido com menor custo, encurtando o tempo para o abate. Mas vamos falar dos ornamentais em fase adulta.

Há que se considerar que cada espécie possui uma demanda específica de proteína e gordura. Tal demanda o próprio peixe consegue obter em seu ambiente natural, o que não ocorre em situação de cativeiro e que, por isso, precisa ser suprida de alguma forma.

Se isso não for bem cuidado poderá ocorrer deficiência de algum nutriente importante. Sinais como anomalias esqueléticas, hemorragias nas nadadeiras, fêmeas que não se reproduzem, filhotes com crescimento reduzido, podem estar presentes, assim como outros sintomas que podem ser confundidos com doenças causadas por patógenos.

Peixes necessitam de uma dieta com menos energia do que aves e mamíferos, uma vez que seu gasto energético é menor. Com relação à gordura (lipídios), ela não é facilmente digerível pelos peixes, principalmente os herbívoros ou onívoros com tendência a herbivoria como as carpas e os kinguios. Peixes carnívoros digerem as gorduras com um pouco mais de facilidade, devido à presença de algumas enzimas digestivas.

Os lipídios são essenciais na dieta, uma vez que participam em muitas funções do organismo (síntese de hormônios, componentes estruturais de tecidos, fonte de ácidos graxos essenciais como o linolênico (Ômega 3) e linoleico (Ômega 6)) e que devem ser supridos, pois os peixes não os sintetizam amplamente. No entanto, o excesso de gordura na dieta é prejudicial em muitos aspectos.

Os peixes, por possuírem a temperatura corporal mais baixa que os mamíferos, precisam de uma dieta com ácidos graxos de cadeia mais longa e poli-insaturada (óleo de peixe, óleo de linhaça, canola e soja são fontes muito utilizadas nas rações).

Pelo motivo citado acima, o uso de gordura saturada não é recomendada na dieta de peixes (principalmente os de água fria como carpas e kinguios), uma vez que se armazenam de forma mais solidificada no trato intestinal, bloqueando-o e assim prejudicando seriamente o processo digestivo, bem como acarretando obesidade e problemas de disfunção de vesícula gasosa.

A deposição de gordura excessiva no fígado (esteatose hepática) está diretamente relacionada a uma dieta rica em gordura saturada, que compreende uma dieta a base de carnes (principalmente carne vermelha) e derivados como salsicha, hambúrguer, linguiça, etc. Tal condição conduz o peixe à morte de modo repentino. Pelo motivo citado, as rações destinadas a peixes herbívoros ou de água fria necessitam de menor porcentagem de gordura em sua formulação do que a de peixes carnívoros.

Fígado gorduroso dificilmente pode ser detectado, pois não apresenta sinais externos, mas compromete muito a saúde geral. Então evite oferecer alimentação rica em gordura saturada ou rações não balanceadas para peixes de água fria, muito menos rações para mamíferos, que atendem a outras necessidades nutricionais.

Alimentos contendo gorduras oxidadas (rançosas), encontrados principalmente em rações vencidas, de baixa qualidade ou mal armazenadas também podem desencadear problemas ao fígado e baço, como decorrência da degradação de seus componentes (principalmente vitaminas A e E), liberando toxinas fatais.

Rações de boa qualidade são formuladas observando todos esses detalhes e é por isso que não se deve alimentar peixes com uma ração inadequada às suas exigências, visto que os perfis lipídicos e proteicos são diferentes.

Referências

  • https://lescanjr.blogspot.com/2008/08/i-alimentao-e-nutrio-de-peixes.html?fbclid=IwAR3g71r610u5x3lOZ1RYy0dCNlNy4tg-wDfgJf1hEZJAX7J-h7hkL6nBzrQ
  • https://www.practicalfishkeeping.co.uk/features/articles/the-a-z-of-fish-health-part-2-f-l
  • Velasco- Santa Maria – Nutricional Requeriments of Freshwater Ornamental Fish – Rev.MVZ Córdoba 16 (2): 2458-2469, 2011.
  • Mayer J. Excellence in Exotic: Fish Nutrition and Related Problem. Compend.Contin.Educ.Vet. 2012, Jul:34 (7):E7.
Sobre Rosana Ferreira 9 Artigos
Natural de Rio Claro-SP, iniciou no aquarismo ainda criança, ajudando o irmão mais velho a cuidar de seu aquário. Aos 15 anos, montou seu primeiro aquário sozinha, sem muito sucesso. Teimosa, a partir de então, manteve aquários de várias espécies, especialmente poecílios e anabantídeos. Depois de pequena pausa do hobby, retornou em 2001 com aquário mono espécie de kinguio, espécie pela qual se apaixonou e mantém até o presente. Bióloga por formação, hoje se dedica a pintura de quadros a óleo em tela.

4 Comentário

  1. Ótimo texto, eu acredito que uma alimentação de qualidade e variada, tanto em excelência de proteína e vegetal seja o ideal.
    Ou seja, compre a melhor ração que seu dinheiro puder e varie sempre entre proteínas e vegetal, principalmente em aquários comunitários como o meu que possui peixes que tem os hábitos alimentares distintos como citei, acredito ser um ótimo equilíbrio, pois nunca tive problemas significativos decorrente de rações.

     
  2. Interessante artigo, mas focado nos peixes de água fria. Gostaria de saber mais sobre os hábitos alimentares dos peixes amazônicos. Obrigado

     
    • Obrigada, José Marcelo! Realmente o artigo é focado em peixes de água fria, mas a intensão é fazer um alerta aos aquaristas que oferecem ração de cachorro/gato para seus peixes, com o argumento de que os deixariam com cores mais vivas e com maior desenvolvimento, isso até ocorre mas o peixe paga um preço muito alto, visto que essas rações possuem um teor de proteína e gordura muito maior do que o organismo dos peixes consegue processar corretamente, acarretando no citado fígado gordo, o que termina em seu óbito precoce e sem causa aparente.

       

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