Dither fish – pacificadores no aquário

Autor: Edson Rechi – Fevereiro/2009 

Introdução

Dither fish é o termo usado para os peixes que são colocados no mesmo espaço para tranquilizar outros peixes, normalmente usado com um potencial genético para incentivar a desova, transmitindo-lhes segurança ou podem servir como “alvo”, para o deslocamento de um comportamento agressivo de outras espécies. Em tradução livre, dither significa “estremecer” ou “arrepiar”, indicando se tratar de um peixe que se encontra em estado de agitação indecisa.

Embora o nome possa soar como a indicação de um peixe agitado ou “nervoso”, trata-se de um termo totalmente diferente do que realmente lhe é atribuído. Talvez, o termo mais correto, seria “peixe apaziguador” ou “pacificatory fish”.

Estes peixes são utilizados para tranquilizar outras espécies, que ficam bastante tempo entocadas ou que são bastante tímidas, podendo até mesmo, ser utilizado em outras situações como estimulação a desova. Uma vez que o peixe tímido nota que outros peixes estão nadando abertamente, acabam compreendendo que ali não há predadores ao redor e gradualmente vão ficar tranquilizados se expondo cada vez mais em água aberta. Na natureza, muitas espécies dependem de outras que habitam o mesmo ambiente, para se sentirem seguros e a vontade. Ciclídeos, por exemplo, usam o comportamento de outras espécies de peixes como medida de segurança ambiental. Tudo o que acontece ao seu redor é baseado no comportamento de outras espécies de peixes, que habitam o mesmo ambiente.

Esta idéia funciona relativamente bem em aquário, principalmente com ciclídeos ou peixes tímidos de grande porte. Muitas vezes, inserimos novos peixes no aquário e eles passam a maior parte do tempo entocados e escondidos, frustrando o aquarista que deseja vê-lo exibindo todo seu porte e cores. Obviamente, que nos primeiros dias, é absolutamente normal o peixe inserido, ficar tímido até estar plenamente ambientado ao novo meio ao qual foi inserido. Mas há casos, em que o peixe, excessivamente passa a maior parte de seu tempo escondido, principalmente quando chegamos próximo ao aquário. Espécies como Botias, peixes gatos como Cascudos e Coridoras, entre outros, que não se aplicam a esta regra, pois notoriamente possui características sedentárias e preferem ficar entocados a maior parte do tempo.

Porque e como usar Dither Fishes?

Como indicado acima, esta estratégia funciona relativamente bem principalmente com ciclídeos, embora outros peixes de médio e grande porte possam aproveitá-la. Se possui um peixe cujas características são de ficar em áreas abertas, e que está há mais de uma semana em seu aquário, ainda permanece a maior parte do tempo escondido, então considere a ideia de usar dithers fishes.

Os fatores negativos de um peixe ficar a maior parte do tempo entocado, é que possivelmente se alimentará menos do que deveria, havendo maior probabilidade de ficar doente e menos susceptível de ser desfrutado por você, afinal, você que o colocou ali para apreciá-lo.

Mas não pense em sair selecionando qualquer espécie de peixe, poderá trazer mais problemas que benefícios. Primeiramente, deve-se analisar a situação e inserir peixes que não são agressivos ao ponto de intimidar ainda mais o peixe tímido. Outro fator revelante é o tamanho final da espécie escolhida, se for pequeno demais funcionará como petisco ao invés de apaziguador. E por fim, exigências nas características fisio-químicas da água, como pH, dureza e temperatura, deverá ser compatível entre todos habitantes do aquário.

Outros fatores importantes na hora de escolher seus “dithers fishes são”:

– Peixes demais podem intimidar ainda mais, não insira peixes excessivamente, principalmente dithers de médio porte;

– O tamanho da espécie escolhida é importante. Peixes demasiadamente menores podem virar alimento e peixes maiores podem se tornar o foco do aquário, podendo ser um ponto positivo ou negativo. Peixes maiores podem se impor e comer alevinos, caso ocorra reprodução em seu aquário.

– Adquira peixes que você gosta. De nada adianta adquirir peixes indicados neste artigo ou por outros aquaristas que obtiveram sucesso com determinadas espécies, se mais tarde você os achará “feios e sem graça”. Existe um grande número de peixes que você poderá usar. Apenas se de o trabalho de estudar a compatibilidade deles com outros peixes de seu aquário e suas exigências.

– Muitas vezes, “dithers” estimulam outras espécies a desovarem, pois acaba de certa forma, tranquilizando a espécie reprodutora. Mas é importante não adicionar peixes que são bastante ativos, podem assustar ou estressar os peixes reprodutores. Muitas vezes os próprios reprodutores acabam comendo ou perdem os ovos pelo stress provocado pela movimentação ou agitação excessiva de outros peixes.

– E por fim, opte preferencialmente por espécies que frequentem o mesmo ambiente natural, principalmente se o peixe tímido for um espécime selvagem, capturado na natureza. Desta forma, estará mais familiarizado com as outras espécies que habitam o mesmo espaço e se sentirá mais a vontade.

Quando usar dither fishes ?

Podem ser usados em diversas situações, principalmente com ciclídeos e outros peixes de médio a grande porte, conforme citado no começo do artigo.

Como exemplo, podemos citar uma situação clássica, que comumente acontece com criadores de Discos (Symphysodon sp.). Por vezes, inserimos vários espécimes de Discos no aquário e eles podem passar a maior parte do tempo escondidos atrás de troncos e plantas, fazendo raras aparições em água aberta. Inserindo peixes de seu ambiente natural, como um numeroso grupo de Cardinais (Paracheirodon sp.) Rodostomus (Hemigrammus rhodostomus), Corydoras (Corydoras sp.) ou mesmo outros ciclídeos como Acará Festivo (Mesonauta festivus), sentirão mais confiança e logo estarão se exibindo por todo o aquário, podendo até mesmo estimular a formação de casais.

Outra situação bastante comum acontece com ciclídeos africanos, principalmente com espécies chamadas “shell dwellers” (moradores de rochas). Notoriamente, estes peixes passam a maior parte de seu tempo próximo a ambientes rochosos e muitos gastam boa parte de sua vida entocados no meio das rochas. Com a inserção de dithers, normalmente ocorrem em águas abertas, neste tipo de aquário rochoso, encoraja estes moradores de rochas a saírem com mais freqüência, seja para defender seu território ou por estar seguro que lá fora não há predadores ou competidores.

Acima, elucidamos apenas duas situações comuns, existem outras que o uso desta estratégia pode ser conseguida com relativo sucesso. Analise a situação e observe se é uma boa ideia usar dithers.

“Dithers fishes” mais comuns

– Danio Zebra (Brachydanio rerio): Também conhecido no Brasil como Paulistinha, talvez seja o melhor dither a ser inserido com peixes de pequeno e médio porte. Com um pequeno grupo de meia dúzia destes peixes, você anima qualquer aquário. Sua maior vantagem é que ocupam a região superior do aquário, não representando ameaça para ciclídeos que preferem ficar a meia água ou no fundo. Sua maior desvantagem é que são rápidos e bastante ativos, podendo estressar peixes mais calmos. Obviamente não devem ser inseridos com peixes de grande porte.

– Danio Gigante (Devario malabaricus): O Danio Gigante possui os mesmo atributos do Paulistinha, com uma vantagem, ficam maiores. São talvez os mais populares “dithers” usados com ciclídeos. Muitos aquaristas desprezam estes peixes, por não possuírem coloração chamativa, mas quando em numeroso grupo sua agitação é bastante interessante, trazendo animação para o aquário.

– Barbo Tigre (Puntius tetrazona): Conhecido também como Barbo Sumatra, são peixes extremamente bonitos, principalmente na medida que envelhecem. Seu único problema é que possui o péssimo hábito de mordiscar nadadeiras de outros peixes e sçao bastante ativos. Este hábito poderá ser diminuído se manter ao menos uma dúzia deles em aquário superior a 200L. O fato é que são ótimos “dithers” e dão um colorido especial ao aquário.

– Pacu Prata (Metynnis hypsauchen): Outro excelente, bonito e pacífico “dither”, principalmente para ser usado com peixes de porte maior. O aquário deverá ser grande suficiente para abrigá-los e deve-se mantê-los em pelo menos 3 indivíduos.

– Neon Cardinal (Paracheirodon axelrodi): Um dos mais belos peixes de água doce e ideal para ser usado com ciclídeos pacíficos de pequeno e médio porte como Apistogrammas, Ramirezi e Discos. Devem ser mantidos obrigatoriamente em pelo menos uma dúzia ou mais de indivíduos para se ter um efeito visual bonito e se sentirem seguros, afinal, você não vai querer todos peixes escondidos.

– Barbo tinfoil (Barbonymus schwanenfeldii): Estes Barbos são extremamente pacíficos com hábitos comportamentais similar aos Pacus Pratas. Sua única desvantagem é que ficam grandes, exigindo um aquário igualmente de grande porte, e devem ser mantidos em grupo. São “dithers” ideais para peixes de grande porte (60cm+), desde que o aquário comporte ambos.

– Barbo Ouro (Puntius sachsii): Outra espécie de Barbo, bastante pacífica e que não atinge grandes proporções, podendo chegar próximo a 10cm. São bastante resistentes, rápidos nadadores e cardumeiro. São “dithers” ideais para peixes de médio porte.

Existem outras diversas espécies que podem ser usadas como “dither fish”, apenas atente sobre seus hábitos e biologia. Por vezes a estratégia de usar estes peixes pode se inverter e o peixe tímido acaba ficando ainda mais receoso em nadar em água aberta.

Conclusão

Aí está uma pequena introdução aos “dither fishes”. Existem inúmeras espécies de peixes que podem ser usadas, cada uma com seus hábitos e que devem ser usados em situações específicas, de acordo com os peixes presente no aquário. Lembre-se que, embora muitas vezes os “dithers” tragam mais vida e beleza ao aquário, são secundários e estão lá estrategicamente. Principalmente ciclídeos se beneficiam no uso de “dithers”, embora a grande maioria dos ciclídeos são conhecidos por serem agressivos, podem passar bastante tempo escondidos, e com o uso desta estratégia obtemos bons resultados fazendo com que fiquem mais confiantes e seguros para nadar em água aberta, além de muitas vezes estimular a desova de algumas espécies.

Sobre Edson Rechi 706 Artigos
Aquarista em duas fases distintas, a primeira quando criança e tentava manter peixes ornamentais sem muito sucesso. Após um longo período sem aquários, voltou no aquarismo em 2004, desde então já manteve diversos tipos de aquários como plantado, peixes jumbo, ciclídeos africanos, água salobra, amazônico comunitário e marinho. Atualmente curte e mantém peixes primitivos e ciclídeos neotropicais, suas grandes paixões.