Discos, os reis do aquário

Autor: Edson Rechi – Janeiro/2010 – Atualizado Fevereiro/2014

Publicado originalmente na Revista Europeia Bioaquaria

Introdução

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Sonho de consumo de muitos aquaristas e pouco acessíveis até há alguns anos atrás devido sua escassez e preço elevado, atualmente nos deparamos como um dos peixes ornamentais mais populares em todo o mundo. Bastante apreciado devido seu formato discoide (daí o nome Disco), comportamento e cores vibrantes, é considerado por muitos aquaristas como o “rei” do aquário devido suas características peculiares.

Taxado de sensível por alguns e rústicos por outros, sua manutenção em aquário e estudos relacionados a estas espécies desafiam não só aquaristas, mas também pessoas ligadas à comunidade científica, uma vez que estudos ligados a taxonomia e sistemática ainda não estão totalmente definidos.

O fato é que se trata de espécies de comportamento e beleza únicas e inigualáveis, que só podem ser descritas verdadeiramente por quem mantém ou já manteve estas preciosidades em aquário. Com este artigo pretende-se de forma simples e objetiva abordar alguns aspectos importantes para sua manutenção em aquário.

Classificação e variedades

Pertencem a popular família Cichlidae (Ciclídeos) e atualmente divididos em apenas três espécies: Symphysodon aequifasciatus, Symphysodon discus e Symphysodon tarzoo. Embora representados por apenas estas espécies, existem algumas sub-espécies e dezenas de variedades criadas pelo homem em cativeiro para alimentar o comércio de aquariofilia.

Descrito por Johann Jacob Heckel em 1840 como Symphysodon discus. Heckel, embora fosse um excelente taxidermista, zoólogo e ictiologista, não era um explorador como muitos dos cientistas da época, ele estudava e catalogava amostras de campo enviadas para ele no Museu Naturhistorisches em Viena. Uma espécie, entre outras tantas, trazida do Brasil em 1836 por Johan Natterer através de uma expedição (quatro anos antes do primeiro Disco ser descrito) chegou até Heckel e foi descrita como Symphysodon discus em 1840 junto com outros, entre eles os gêneros Pterophyllum, Uaru, Acara, Heros, Geophagus, Chaetobranchus, Chrenichla e Batrachops, e nenhum desenho da amostra foi feito, assim como as possíveis condições precárias de conservação do espécime disponível, morto e dissecado por quase cinco anos antes de ser descrito oficialmente.

O primeiro desenho mais conhecido foi feito por Rudolf Kner anos mais tarde e foi realizada a primeira revisão do gênero. A descrição pobre feita inicialmente por Heckel com um único exemplar causou controvérsias se de fato existia uma ou mais espécies dentro do gênero.

Em 1903, Jacques Pellegrin descreve o segundo tipo de Disco: Symphysodon aequifasciatus. Originalmente esta espécie era considerada uma sub-espécie do Disco descrito inicialmente por Heckel.

Schultz, em 1960, define então que o gênero Symphysodon possuía duas espécies: Symphysodon aequifasciatus e Symphysodon discus, contestado por Kullander em 1986, que afirma não encontrar diferenças significativas entre as duas espécies descritas por Schultz, levantando a questão tratar-se de uma ou duas espécies.

Alheio a polêmica em sua classificação, os Discos estão classificados até o momento nas duas espécies definidas por Schultz e recentemente foi acrescentado outra espécie: Symphysodon tarzoo.

  • Sub-espécies S. aequifasciatus:
    • Symphysodon aequifasciatus axelrodi (Schultz, 1960) – Disco Marrom
    • Symphysodon aequifasciatus haraldi (Schultz, 1960) – Disco Azul
    • Symphysodon aequifasciatus aequifasciatus (Pellegrin, 1904) – Disco Verde
  • Sub-espécies S. discus:
    • Symphysodon discus tarzoo (Lyons, 1959) * esta variedade virou sinônimo de S. tarzoo.
    • Symphysodon discus willischwartzi (Burgess, 1981) – Disco Vermelho

Nota: a classificação acima pode ter sofrido alterações recentes

Em 2006 uma nova espécie de Disco foi nomeada: Symphysodon tarzoo (“New Discus named Symphysodon tarzoo”. Matt Clarke 2006-11-28) e o gênero novamente passou por alterações (“Discus genus revised”. Matt Clarke 2007-08-08). Segundo publicações, é bem provável que o gênero fique divido em mais três espécies S. aequifasciatus (Disco Verde), S. haraldi (Disco azul, marrom, comum) e S. discus (Disco Heckel), possuindo apenas divergências entre os binomias de cada um.

Apesar das inúmeras classificações, é provável (ou não) que o gênero sofra nova revisão. Entre os nomes genéricos mais usados pelos aquaristas vale destacar quatro variedades mais comuns: Discos Marrons, Verdes, Azuis, Vermelhos e Heckel.

Heckel: Sua distribuição é restrita as regiões mais baixas do Rio Negro, Abacaxis, Trombetas e Madeira. Possivelmente a “febre dos Discos” entre praticantes da aquariofilia se deve a esta espécie. Visualmente sua principal característica é a primeira, quinta e nona linhas mais destacadas. Existem variedades com tonalidade azul em sua face, assim como outras cores secundárias, conhecidas como Willischwartzi, mas sempre mantendo a primeira, quinta e nona linhas verticais destacadas, podendo chegar cerca de 20cm. Localmente também é conhecido como Acará Bararuá.

Marrom: Sua zona de distribuição são os Rios Tocatins, Parurú, Amazonas, Tapajós, Santarém, Uatumá, Branco, Cometá, Marajó, Alenquer, Iça. Chegam a 12cm de tamanho e localmente possuem outros nomes como Disco Castanho, Alenquer Vermelho e Vermelho iça. Basicamente possui o corpo marrom-amarelado e cabeça com estrias azuladas, sua nadadeira dorsal pode variar a coloração entre vermelho, laranja, preto e azul. São os mais comuns encontrados em lojas de aquariofilia e são usadas largamente em cruzamentos para se obter novas cores.

Azul: Distribuídos nos Rios Purus, Lago Anamá, Rio Solimões, Tapauá, Manacapuru, Lago grande de Manacapuru, Urubu, Trompetas, Uruari, Mamiá e lagos Mamiá, Manacaparu e Leticia. São semelhantes aos Discos marrons, porém mais coloridos e com maior intensidade azul na parte dorsal e cabeça. São amplamente utilizados para cruzamentos, dando origem ao famoso Disco Turquesa. Localmente são conhecidos como Disco Azul Purus, Royal Purus, Vermelho Purus e Azul.

Verde: Encontrados principalmente no Rio e Lago Tefé, Santarêm, Nanay e região peruana e colombiana. Suas principais características são a cor amarela acastanhada podendo variar para marrom claro, possuindo marcas “metálicas” próximo a sua cabeça e guelras. Localmente pode ser chamado de “Azul Royal”.

Vermelho: existem poucas informações sobre sua distribuição e variedades.

Discos híbridos: espécimes obtidos de cruzamentos seletivos através de Discos selvagens, derivando novas cores. Com o passar do tempo obteve-se inúmeras variedades de Discos com as cores até então inimagináveis através do cruzamento seletivos entre Discos selvagens com selvagens e mais tarde entre selvagens e híbridos. Muitos criadores especializam-se em determinadas cores, gerando cada vez mais peixes bonitos.

A história dos Discos híbridos passa por diversos momentos, mas dois em especias valem ser ressaltados: a criação da variedade turquesa por Jack Watley e do Pigeon Blood no começo dos anos 90.

Comparado com os Discos capturados (selvagens), discos de cativeiro (híbridos) são infinitamente mais fáceis para se manter em aquário, embora possam apresentar por raras vezes problemas na reprodução, sendo necessária a introdução de espécies selvagens na formação de casais a partir de sua segunda geração. Importante ressaltar que animais híbridos podem se reproduzir, embora há algumas exceções.

Existem diversas designações entre os discos híbridos atribuídos por seus criadores para designar sua cria, podendo gerar confusões nos nomes uma vez que uma mesma variedade pode apresentar dois ou mais nomes variando o local de sua origem. É quase impossível indicar todas as formas e variações de Discos híbridos, principalmente os asiáticos que tem-se destacado em todo mundo. De um modo resumido indicarei as variações mais comuns disponíveis no mercado:

  • Alenquer: seleção de S. aequifasciatus. Marrons com raias azul e com cor base um vermelho intenso.
  • Azul Real: Azul Real: Seleção de S. haraldi. Coloração azul intensa e estendida por todo seu corpo.
  • Cobaltos: Cor azul sólida.
  • Red Turquesa: Seleção de S. haraldi. Cor de fundo vermelho com visíveis listras turquesas por todo seu corpo.
  • Pigeon Blood: Sua procedência é um tanto confuso, sua coloração oscila entre o amarelo marron e vermelho marron, com raios horizontais irregulares de cor turquesa prateada brilhante e uma pigmentação negra distribuída por todo seu corpo. Não apresentam barras verticais negras. Existem muitas variedades como: dragon (Pigeon sem coloração negra), Red Dragon (Cor de fundo vermelho intenso), Panda (Raios vermelhos sobre um fundo amarelo/laranja, com alguma pigmentação negra).
  • Red Marlboro: Cor base um vermelho suave com manchas vermelhas nos ventre e flancos.
  • Ghost: Possui a cabeça amarela e sempre presente a primeira e nona listras.
  • Snake Skin: Turquesa sobre o fundo vermelho com listras verticais inexistentes.
  • Azul Turquesa: Cor azul predominantes, idem ao Red T.

Existem dezenas de variedades e cores obtidas, o fato é que as inúmeras variedades e suas cores são capazes de satisfazer qualquer aquarista e rivalizam facilmente com qualquer peixe marinho, este último conhecido como os peixes ornamentais que apresentam colorações mais vibrantes.

Etimologia

Symphysodon: sínfise (SYN), substantivo grego que significa conjunto; physis (PHY), que significa crescimento, forma do corpo, da aparência; odous (ODON) que indica dente. O nome refere-se aos dentes localizados entre as duas metades de sua mandíbula.

aequifasciatus: aequus, em latim que significa equivalente; a indica adjetivo latino para faixa, conta, atadura. O nome refere-se a mesma largura das listras escuras em ambos lados.

axelrodi: homenagem a Herbert Axelrod.

discus: substantivo grego que significa disco circular, referindo-se a forma do corpo do peixe.

harald: homenagem a Harald Schultz, etnógrafo alemão-brasileiro.

tarzoo: referência a uma empresa (Tarpon Zoo) de exportação de peixes ornamentais em Leticia (Brasil), o qual os espécimes originais foram exportados.

willischwartzi: homenagem a Willi Schwartz, alemão-brasileiro exportador de peixes ornamentais em Manaus (Brasil).

Habitat

Típico igarapé, um dos ambientes onde os Discos podem ser encontrados
Típico igarapé, um dos ambientes onde os Discos podem ser encontrados

Discos são encontrados principalmente no Brasil e leste da Colômbia e secundariamente no Peru, Guyana, Suriname e Venezuela. Vivem em ambiente lêntico, águas de pouca movimentação, e abrigados de luz intensa entre raízes submersas de árvores e vegetação, nos braços dos afluentes dos rios e em pequenos canais de drenagem. São encontrados em três zonas identificadas de acordo com suas referências, como podemos avaliar abaixo:

  • Água branca: Sua visibilidade é menor que 50cm; possui água de cor amarelada devido a presença de argilas e detritos em suspensão. Seu pH poderá variar entre 6.2 a 7.2 com dureza próximo a 1. Possui fluxo de água mediano.
  • Água clara: Tipicamente de afluentes, é transparente em sua maioria, incluindo períodos de coloração esverdeada pela presença de fitoplancton. Outra característica é possuir pouca correnteza e fundo de areia fina com visibilidade variando entre um a quatro metros. Seu pH poderá variar entre 4.5 a 7.8 com dureza sempre abaixo de quatro.
  • Água Negra: Possui cor marrom, similar ao refrigerante Coca-cola, devido a grande concentração de ácidos húmicos, por material vegetal em decomposição, presença de argila, terras, rochas e árvores arrastadas pelo rio. Embora possui coloração escura, é transparente possuindo visibilidade entre um e dois metros. Seu pH varia entre 3.5 a 5.0 com dureza praticamente nula. Possui um número pouco expressivo de plantas palustres devido a característica da água, água escura e pH muito ácido, o que dificulta o desenvolvimento de macrófitas.

Os dados acima mencionados são bastante variáveis, não possuindo exatidão nos valores, devido a inúmeras características no qual cada região apresenta de acordo com a época do ano.

Comportamento

É importante frisar que Discos são peixes gregários, ou seja, são encontrados sempre em pequenos grupos e possuem forte hierarquia. Se pretender criá-los em aquário, certifique-se de sempre mantê-los em pelo menos seis espécimes ou mais. Obter dois ou três discos é o mesmo que possuir apenas um, devido problemas hierárquicos que poderão surgir no futuro podendo acarretar stress desnecessário entre os peixes. Um número mínimo de seis ou mais é sempre recomendado.

Como a grande maioria dos ciclídeos, Discos possuem forte instinto territorial e hierárquico, que não deve ser confundido com agressividade. Portanto, trata-se de uma espécie pacífica mas de comportamento territorial e hierárquico bastante ressaltados, principalmente entre membros da mesma espécie ou ciclídeos de mesmo porte.

Por este motivo é necessário mantê-los em numeroso grupo e em aquários espaçosos para que a disputa hierárquica do grupo e sua agressividade territorial ocorra naturalmente, não sobressaindo apenas sobre um ou outro indivíduo e sim entre todos membros do grupo. Desta forma evita-se que ocorra problemas mais graves causados pelo desgaste gerado pelas disputas hierárquicas ou territoriais.

Inicialmente estas disputas tendem a ser constante até que se defina a escala hierárquica entre os espécimes do grupo, quando mais tarde deverá ser menos acentuada, com uma ou outra disputa esporádica por posições mais altas no escalão ou durante a formação de casais.

Compatibilidade

Há quem prefira manter Discos somente com Discos, não indicando sua criação com outras espécies em aquário comunitário. Levando em consideração que Discos são peixes de hábitos gregários, esta certamente seria uma opção extremamente válida. Mas se Discos em seu ambiente natural podem conviver com outras espécies de peixes, porque seria diferente quando mantido em aquário?

Eles podem conviver tranquilamente com outras espécies de peixes, desde que igualmente calmas e pacíficas. Espécies agitadas, muito maiores ou agressivas devem ser evitadas. Normalmente o comportamento de peixes com estas características pode acabar gerando desgaste desnecessário para os Discos.

Criá-los em aquário mono-espécie ou com outras espécies de peixes (aquário comunitário) vai depender da vontade de cada aquarista. Se optar pela segunda opção, certifique-se que as outras espécies são compatíveis nas características da água como pH ácido, dureza suave e branda, temperatura tropical, tamanho e resistência a possíveis tratamentos com medicamentos e que não sejam demasiadamente agressivos ou agitados, independente do tamanho da espécie.

Um dos motivos, entre outros, para a injusta fama de fragilidade que acompanha os Discos vem juntamente pelo fato de serem inseridos com outras espécies incompatíveis, que podem inibi-los na hora da alimentação ou estressá-los ao ponto de passarem a maior do tempo refugiados, comportamento anormal nesta espécie quando bem ambientado no aquário. Gosto e necessidade não se misturam, portanto, seja criterioso na hora de escolher as espécies que habitarão o mesmo ambiente dos Discos. Alguns pontos devem ser observados pelo aquarista como:

  • Qualquer peixe de tamanho semelhante ou maior que o Disco irá competir agressivamente por alimentos e por território, principalmente quando costumam frequentar a mesma região do aquário (meio e fundo). Com raras exceções, a maioria dos peixes que se enquadram aqui, poderá causar transtornos para os Discos. Ex. Oscar e outros.
  • Peixes demasiadamente agitados: Um exemplo perfeito para a definição para peixe agitado resume-se em um nome: Danios. Estas espécies, assim como alguns ciprinídeos de pequeno a médio porte como algumas espécies de Barbos e Labeos (Epalzeorhynchos sp.) são bastante ativos e podem eventualmente “beliscar” as nadadeiras ou muco dos Discos podendo tornar-se um problema.

Bons companheiros para acompanhá-los em aquário são inúmeros, podendo se destacar os mais comuns entre aquaristas como pequenos caracídeos (ex. tetras e borboletas), corydoras, pequenos e médios ciprinídeos (ex. Rasboras e Botias), ciclídeos de pequeno e médio porte (ex. Apistogrammas), Killis que tolerem temperaturas tropicais, etc.

As opções de compatibilidade com outras espécies de peixes são inúmeras, mas a tendência é que após certo tempo as demais espécies tendem a estar em segundo plano, uma vez que Discos naturalmente se sobressaem sobre as demais, levando o aquarista a acreditar que o melhor para o Disco é sempre outro Disco.

– Discos X Bandeiras

Existe uma corrente errônea que induz o aquarista a acreditar que Bandeiras (Scalares) e Discos não são compatíveis e que o primeiro pode afetar negativamente o segundo pelo fato de transmitir parasitas ou por serem demasiadamente agressivos.

Primeiramente, qualquer peixe é suscetível (uns mais e outros menos) a patogenicidade, independente da espécie. Até o presente não se sabe qual potencial parasita transmitido somente pelos Bandeiras afetando apenas Discos. Isto é mais um mito criado sem nenhum fundamento.

Relativo a agressividade, estas duas espécies tendem a possuir o mesmo comportamento: pacífico, mas territorial e hierárquico. Se pretender criar as duas espécies no mesmo aquário, certifique-se de possuir espaço suficiente para abrigá-las e que as disputas ocorrerão interespecífica. Discos e Bandeiras podem ser criados no mesmo espaço, desde que o aquário os comporte.

– Discos X Comedores de algas

Loricarídeos (cascudos e afins) e outros comedores de algas, especialmente os que possuem boca em forma de ventosa, nem sempre são compatíveis por alguns fatores comportamentais como:

  • Poderão se interessar pela comida dos Discos, deixando sua função (comer algas) ou “limpar” o aquário em segundo plano.
  • Algumas espécies poderão adquirir o péssimo hábito pelo muco dos Discos, podendo grudar no corpo deles com sua ventosa para alimentar-se de sua mucosa. Este comportamento é bastante variável de acordo com a oferta de alimentos que os peixes possuem.
  • A maior parte possui hábitos noturnos, estando mais ativos a noite pela busca de alimentos, não proporcionando calmaria necessária para demais peixes repousarem. Este problema pode ser contornado, desde que possua inúmeros objetos como raízes, rochas e plantas pelo aquário.

Se optar por adquirir peixes com boca em forma de ventosa atente para seu comportamento, principalmente os relacionados acima. Se não houver nenhum indício dos comportamentos citados poderão conviver no mesmo aquário sem problemas.

Apesar das recomendações acima, pode-se passar a falsa impressão para o aquarista que as possibilidades de outras espécies habitarem o mesmo aquário poderá ser bastante restrita. Discos podem dividir o mesmo espaço com inúmeras espécies, cabendo apenas observação por parte do aquarista se não estão deixando de se alimentar ou ficando inibidos com a presença de outros peixes. Particularmente já criei Discos com peixes maiores como primitivos (Aruanã e Polypterus) e outros ciclídeos de mesmo porte como Jack Dempsey Azul e até mesmo Bandeiras e nunca tive problemas mais graves. O detalhe é que eram criados em aquário com amplo espaço, munido de inúmeras raízes de grande porte e plantas altas para definirem seu território e quebrar a linha de visão dos agressores, no caso dos ciclídeos, e os peixes primitivos não ocupavam a mesma região no aquário, onde o Aruanã era encontrado sempre na parte superior e Polypterus na parte inferior próximo ao substrato.

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Alimentação

Possuem dieta onívora com forte tendência carnívora. Em seu ambiente natural alimentam-se principalmente de insetos, vermes, crustáceos bentônicos, pequenos peixes (quando possível) e secundariamente sementes e matéria vegetal.

Em aquário podem comer quase tudo, sendo indicado o fornecimento regular de rações para ciclídeos neotropicais aliado a alimentos vivos ou congelados. Esporadicamente deve-se fornecer alimentos vegetais como rações vegetais ou Spirulina. Um dos segredos para se manter Discos saudáveis é fornecer regularmente uma gama variada de alimentos.

Um dos obstáculos que o aquarista poderá se deparar é a introdução de um novo tipo de alimento. Discos mais velhos ou coletados (selvagens) podem recusar determinados alimentos industriais inicialmente, podendo até mesmo nunca se adaptar, exigindo que seja fornecido regularmente alimentos vivos como artêmias e outros. Isso normalmente ocorre devido o peixe não estar habituado a rações – em seu ambiente natural não existe alimentos como rações, patês e toda gama alimentar disponível para aquários – ou porque foi alimentado essencialmente com alimentos vivos durante boa parte de sua vida por criadores.

Se o aquarista se deparar com este problema, não existem segredos para que Discos comecem a aceitar novos alimentos, apenas paciência e treinamento por parte do aquarista. A introdução de novos alimentos deverá ser gradativa até que passem a aceitá-la totalmente. Uma dica é inicialmente fornecer alimentos vivos até que o peixe esteja bem adaptado no aquário e ir diminuindo gradativamente a quantidade e aumentando proporcionalmente a introdução de novos alimentos como rações. Com o tempo tendem a aceitar outros alimentos sem maiores dificuldades e uma vez habituados a rações, dificilmente recusarão qualquer outro alimento comercial.

A dica para quem pretende adquirir Discos coletados (selvagens) e não ter problemas do tipo é certificando-se ainda na loja se estão comendo rações, pedindo ao atendente que forneça rações ao qual estão habituados. Se avançarem sobre a ração, é sinal que já estão aptos a comerem alimentos comerciais sem maiores dificuldades. Discos jovens ou híbridos aceitam qualquer tipo de alimentos sem problemas, desde que foram treinados por seus respectivos criadores desde cedo.

O mesmo problema na recusa de alimentos comerciais poderá ocorrer quando recém introduzidos no aquário. Neste caso, se já se alimentavam de rações antes, será apenas questão de poucas horas ou dias para voltarem a aceitar os alimentos comerciais, tão logo que estiverem adaptados ao novo ambiente ao qual foram inseridos.

Aquário

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O aquário para Discos deverá ser o maior possível sempre, não tanto pelo tamanho final que os Discos atingem e sim pelo fato que se deve-se mantê-los em numeroso grupo, exigindo amplo espaço. O recomendado é que o aquário possua pelo menos 100cm de comprimento e 50cm de largura.

Igualmente importante ao tamanho do aquário é manter um ambiente mais próximo do natural. Abaixo é listado alguns pontos importantes na montagem de aquários de Discos.

– Substrato: Deverá ser macio como areia de rio ou cascalho fino.

– Iluminação: Em seu ambiente natural, são encontrados em locais de luminosidade bastante moderada, devendo ser mantidos sob a mesma condição em aquário, especialmente Discos coletados. Eles podem se adaptar em ambientes com luminosidade mais intensa (ex. aquários plantados), especialmente Discos híbridos, mas deve-se criar zonas de sombreamento para que possam se refugiar quando necessário.

– Filtros: Pode-se utilizar boa parte dos filtros existente no mercado, se precavendo apenas para que não criem ambiente lótico dentro do aquário, algo pouco apreciado pelos Discos. São peixes que exigem qualidade de água ímpar, portanto não queira economizar neste item e faça manutenções regulares em seu filtro, afinal filtro sem manutenção é igual a depósito de lixo.

– Temperatura: Discos em seu ambiente natural vivem em temperaturas que oscilam de acordo com a época do ano, variando entre 24º à 34ºC. Estes números poderão ser um tanto extremo para inúmeras espécies de peixes e plantas que não toleram valores tão altos. Em aquário, principalmente comunitário, temperatura entre 26º e 29ºC é um bom número tanto para Discos como outras espécies de peixes tropicais.

– Decoração: O uso de inúmeros troncos/raízes passa a ser obrigatório na montagem do aquário para Discos, especialmente os que possuem tamanho médio (30cm) ou superior. Além de deixar o aquário mais agradável para se observar, transmitirá segurança aos peixes, servindo de refúgio ou quebrando a linha de visão de potenciais agressores, além de deixar a água com características “blackwater”, bastante apreciado por Discos. Plantas também devem ser utilizadas, especialmente Amazonenses e plantas altas. Além de ajudar esteticamente, criando sombreamento e zonas de refúgios, permitem que o aquário seja dividido em territórios, além de excelentes filtros naturais.

– Água: Você certamente está ciente que a melhor água para seus peixes é aquela livre de cloro, cloramina, metais pesados, pesticidas e a ausência de amônia e nitritos em excesso. Para Discos capturados (selvagens) o pH poderá variar entre 5.0 e 6.0, enquanto Discos híbridos ou nascidos em cativeiro poderá variar de 6.0 à 7.2. Se pretende misturar espécies coletadas e híbridos, procure manter o pH sempre próximo de 6.0 .
A temperatura como mencionado deverá ser constante entre 26º e 29ºC, a dureza da água poderá variar de 0 a 60 ppm, condutividade abaixo de 100uS/cm, amônia e nitritos ausentes e nitratos sempre abaixo de 15ppm.

Discos de um modo geral costumam indicar a qualidade da água apenas pela sua coloração, se estiverem com cores fracas ou escurecidas, será sinal que a água não está a contento para eles. Mas tenha sempre em mãos testes para o controle dos parâmetros da água.

Reprodução

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A reprodução de Disco é extremamente fascinante pelo modo como ela ocorre e pelo cuidado parental. Duas características marcantes na reprodução desta espécie são a proteção que os pais possuem com os alevinos, característico de ciclídeos, e principalmente pela produção de secreção da mucosa através da pele dos pais, no qual as larvas se alimentam nos primeiros dias de vida.

Para iniciar a tentativa de reprodução deve-se obviamente possuir um casal formado ou em formação. Possuindo um macho e uma fêmea no mesmo aquário, necessariamente não é a garantia de possuir um casal reprodutor. Para a formação de casais poderá seguir as dicas abaixo:

– Adquira vários Discos e junta-se em todos num aquário, aguardando a formação natural de casais. No caso de adquirir Discos juvenis, deverá aguardar até que atinjam sua maturidade sexual que costuma variar de oito a doze meses.

– Adquirir um casal já formado com algum criador confiável, fugindo de potenciais criadores aventureiros que estão espalhados aos montes, principalmente pela internet.

– Se possui boa percepção no dimorfismo sexual, pode-se unir um trio com um macho e duas fêmeas e aguardar a formação do possível casal. Atente apenas que é bastante difícil distinguir o dimorfismo sexual dos Discos, mesmo possuindo alguma experiência, podendo enganar-se facilmente, principalmente quando são juvenis.

O comportamento dos Discos quando em grupo pode nos ensinar e indicar a formação do casal ou que poderá ocorrer a desova. Comportamentos específicos como os citados abaixo são bons indicativos:

– Agressividade unida de dois espécimes sobre os demais Discos do grupo.
– Escurecimento da face ou região próximo ao pedúnculo caudal. Atente que o escurecimento ocorre apenas nestas regiões, se o corpo do peixe apresenta-se totalmente escuro, pode ser indício de doenças ou má qualidade da água.
– Demarcação territorial, impedindo que qualquer outro peixe se aproxime de determinado local.
– Cortejamento do casal, ondulando as nadadeiras e baixando levemente a cabeça quando se cruzam nadando.
– Macho persegue a fêmea e as por vezes pode empurrá-la levemente pelo ventre.
– Limpeza de superfície plana como plantas de folhas largas, troncos, vidro, etc.

Formado o casal e passado a fase de cortejamento, eles escolherão o local para desova, normalmente uma superfície plana como folhas, rochas, raízes ou mesmo o vidro. A fêmea começará a postura dos ovos adesivos e quase simultaneamente o macho se alinhará fazendo o mesmo trajeto da fêmea, fecundando os ovos.

O número de ovos poderá variar de 50 a 150, podendo chegar a três centenas dependendo do casal. Os pais revezam no cuidado com os ovos, estando sempre oxigenando com suas nadadeiras para evitar possíveis infecções por fungos. Ovos acometidos por fungos ou inférteis possuem coloração esbranquiçada e serão minuciosamente retirados e descartados pelos pais.

Variando a temperatura da água, a eclosão dos ovos ocorre entre 48 e 76h, onde os alevinos permanecerão dentro do saco vitelínico por 3 ou 4 dias alimentando-se deste, quando logo mais estarão nadando livremente e sob supervisão dos pais. Pode-se criar os alevinos isolados dos pais, mas o recomendado é que deixe todos juntos uma vez que terão alimento abundante perto dos pais, onde se alimentarão da mucosa destes por alguns dias ou poucas semanas.

Um dos momentos mais fascinantes na criação dos Discos é justamente quando os alevinos estão nadando livremente. O casal não consegue mais segurar as larvas que ficam concentradas em grupos por toda a parte. Os pais os seguem atentos a possíveis predadores e oferecem constantemente a superfície de seu corpo, estando túrgidas de secreção epidérmica (muco). Nesta época os pais costumam apresentar coloração escura, devido a produção excessiva da mucosa.

Esta forma de ligação parental é bastante rara entre os peixes, sendo encontrados em menos de meia dúzia de espécies. Estudiosos indicam que esta evolução nasceu de um sistema de osmoregulação bastante eficiente onde as células nutritivas presente na pele dos adultos contém bactérias, algas e protozoários simbiônticos, servindo como o principal alimento e fortalecimento imunológico para as larvas nos primeiros dias.

Variando o ambiente que está inserido ou experiência do casal, é possível que os pais possam comer os ovos durante as primeiras posturas. Isso ocorre normalmente pela inexperiência dos pais ou pelo stress causado por outros peixes quando os pais estão submetidos em aquário comunitário ou por muita movimentação de pessoas ao redor do aquário.

Na primeira semana os alevinos se alimentarão exclusivamente do muco dos pais e a partir da segunda semana é recomendado ministrar outros alimentos destinados aos alevinos como artêmias recém eclodidas, micro vermes e outros, para que deixem de se alimentar exclusivamente do muco, uma vez que este comportamento é bastante desgastante para os pais.

Manutenção

A manutenção de Discos em aquário é relativamente fácil, mas requer um mínimo de experiência do aquarista em contornar possíveis contratempos, principalmente relacionados a qualidade da água. Água de má qualidade ou que sofra grandes oscilações em seus parâmetros em curto prazo são as principais portas de entrada para possíveis doenças.

O maior aliado e chave do sucesso para sua manutenção são manter sempre a qualidade da água. Trocas parciais semanais (20-30%), filtragem bem dimensionada e manuseada periodicamente, população controlada e alimentos de excelente qualidade e fornecidos sem exageros são os maiores aliados para se manter uma boa qualidade da água. Variar bastante sua alimentação e evitar companheiros que possam de alguma forma estressá-los também são importantes. Não se sabe porque, embora bastante pacíficos, são um tanto temperamental e podem apresentar comportamentos totalmente desconhecidos pelo aquarista, principalmente quando inseridos com espécies incompatíveis.

Para que não se prolongue demasiadamente no tema, algumas dicas resumidas abaixo são de extrema importância e lhe ajudará de alguma forma antes e depois de começar a criá-los em aquário:

– Ao adquirir seus primeiros Discos, observe atentamente se o peixe está sem nenhuma ferida pelo corpo, apresenta coloração vibrante para sua padronagem de cores e está se alimentando sem demora.
– Opte sempre por Discos mais jovens com cerca de 3-4 cm de disco e observe se o tamanho do olho é proporcional ao tamanho do corpo. Olho grande e corpo pequeno apresentados indicam que o peixe não se desenvolverá a contento.
– Evite espécies coletadas como seus primeiros Discos, opte pelos híbridos.
– Discos são peixes sedentários, mas exigem bastante espaço devido seu comportamento. Um exemplar para cada 50L, tendo o aquário mínimo de 300L é o ideal.
– São peixes gregários, portanto devem ser mantidos em maior números possíveis e nunca sozinhos.

– Alimentos vivos são extremamente importantes em sua dieta aliados primariamente a rações específicas.
– Trocas parciais de água semanalmente com aspiração de detritos e manutenção nos filtros é a garantia em manter a qualidade da água
– Obrigatoriamente devem-se usar raízes e plantas na decoração do tanque.

Conclusão

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Discos são literalmente peixes fascinantes, não a toa que são ostenta o título de “reis do aquário”. Sua história e criação envolvem muitos mistérios a serem desvendados tanto por pesquisadores científicos ou aquaristas, mas que, no entanto pode ser explicado apenas pela observação atenta de quem os mantem. O círculo de fãs crescem assustadoramente a cada dia e muitos aquaristas não poupam esforços ou despesas para que possuam um verdadeiro paraíso aquaristico.

Seu sucesso na criação de Discos ou qualquer outro peixe, vai sempre estar intimamente relacionado a sua alegria ou decepção em ter aderido a aquariofilia como passatempo. Se a decepção impera, reveja seus conceitos sobre este hobby e procure estudar e trocar experiências com outros aquaristas, caso contrário procure outro hobby que você se identifique, pois ao entrar neste fantástico mundo da aquariofilia estará lidando com vidas e não objetos de decoração.

A retribuição para aqueles que se dedicam verdadeiramente na arte da criação de Discos (e demais espécies de peixes) será a presença de peixes extremamente interativos que apresentam beleza e comportamentos inigualáveis. Para finalizar o artigo, deixo uma frase cujo autor não faço menção por desconhecer sua origem, mas que resume muito bem os aquaristas que pretendem criá-los futuramente:

“Existem mais discos por aí que tem problemas com aquaristas, do que aquaristas que tem problemas com discos”.

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Aquarista em duas fases distintas, a primeira quando criança e tentava manter peixes ornamentais sem muito sucesso. Após um longo período sem aquários, voltou no aquarismo em 2004, desde então já manteve diversos tipos de aquários como plantado, peixes jumbo, ciclídeos africanos, água salobra, amazônico comunitário e marinho. Atualmente curte e mantém peixes primitivos e ciclídeos neotropicais, suas grandes paixões.