Piraputanga: o peixe que “segue” macacos atrás de alimento

A espécie nativa da bacia do Rio Paraguai é considerada uma “jardineira” das matas ciliares e pode dispersar sementes por até 200 quilômetros

 

No topo das árvores ao lado de um rio, um bando de macaco-prego se esbalda com frutos silvestres e talvez nem perceba que tem “convidados” para o almoço: as piraputangas.

Existe uma relação curiosa entre essas duas espécies. Enquanto os macacos se alimentam nas matas ciliares e derrubam na água parte dos frutos que estão manipulando, as piraputangas aproveitam as sobras que caem. Pela água, os peixes podem usar a estratégia de “seguir” os macacos que vão saltando entre os galhos atrás de comida e deixando restos pelo caminho.

Foto: José Sabino/ Projeto Peixes de Bonito (c)

“Esse comportamento do primata é conhecido pelo nome de ‘forrageamento destrutivo’ e a relação entre a piraputanga e o macaco-prego se chama seguidor-nuclear. Neste tipo de associação alimentar, a espécie ‘nuclear’, que no caso é o macaco, ao mesmo tempo que se alimenta, acaba atraindo os ‘seguidores’ que sãos peixes que se aproveitam da situação”, explica o professor e pesquisador da Uniderp, Universidade Anhanguera de Campo Grande, no Matogrosso do Sul. O pesquisador lembra ainda que este comportamento é comum também entre outros animais.

Só que essa relação entre macaco e peixe revela um pouco desse “elo fascinante” da natureza que mantem as florestas em pé. Aquele fruto que caiu das mãos do macaco e foi parar na água, não escapou do apetite voraz da piraputanga, que durante a piracema pode migrar até 200 quilômetros rio acima, ou seja, essa semente vai parar longe, onde uma nova árvore vai nascer nas margens. Por isso, a espécie ficou conhecida por ser a “jardineira” das águas do Pantanal.

“Os frutos com sementes grandes são destruídos pelos dentes fortes das piraputangas, mas se os frutos têm sementes pequenas, elas conseguem passar inteiras pelo trato digestório. Não há uma dependência profunda da dispersão de algumas espécies de plantas com a piraputanga, mas há várias árvores que o peixe ajuda a espalhar. Por exemplo, a mamoninha, o aguaí e as figueiras silvestres”, completa Sabino.

O SALTO “OLÍMPICO” DO PEIXE QUE “COSPE”

A piraputanga é onívora, ou seja, come de tudo, de caramujos a materiais vegetais. Só que uma pesquisa aponta que 31% da dieta é composta por sementes e frutos. Detalhe: nem sempre o peixe fica esperando a comida cair na água. A piraputanga pode fazer inveja a atletas olímpicos do salto em altura. O peixe consegue “pular” quase um metro fora d’água para abocanhar frutas. No cardápio, por exemplo, tem uma planta popularmente conhecida no Mato Grosso do Sul por cafeeiro-da-mata, que tem substâncias bioativas, incluindo a Psychotria viridis da Amazônia, que é usada no preparo do chá para o ritual do Santo Daime.

Espécie ficou conhecida como jardineira pelo comportamento de dispersão de sementes — Foto: José Sabino/ Projeto Peixes de Bonito

As piraputangas são generalistas, engolem o que cai na água. Isso não quer dizer que gostam de tudo aquilo que devoram. “Se for um fruto verde que caiu acidentalmente, ou, algo não palatável, elas ‘cospem’ de volta e as piraputangas que estão ao lado param de investir sobre aquele alimento”, explica José Sabino.

“PERA”, O APELIDO DO PEIXE QUE É SINAL DE ÁGUA LIMPA

No Mato Grosso a piraputanga ficou conhecida carinhosamente por outro nome. “Pera é o diminutivo de ‘peraputanga’ e tem influência do forte sotaque cuiabano que tem vogais abertas, provavelmente também, de influência boliviana”, comenta o pesquisador José Sabino.

Da família do dourado, a espécie faz uma migração reprodutiva, a piracema, no período das chuvas no centro-oeste.
A piraputanga também é bio-indicadora da qualidade da água. “É uma espécie de natação ativa, têm exigência de água com altos índices de O2 dissolvido. Vivem em rios caudalosos, do sistema do rio Paraguai”, completa Sabino.
Por isso, mesmo não sendo uma espécie ameaçada, a piraputanga depende muito de águas limpas para continuar em equilíbrio, “plantando” matas ciliares.

Fonte: Terra da Gente – Globo.com 

Publicado em Agosto/2021

Sobre Edson Rechi 915 Artigos
Aquarista em duas fases distintas, a primeira quando criança e tentava manter peixes ornamentais sem muito sucesso. Após um longo período sem aquários, voltou no aquarismo em 2004, desde então já manteve diversos tipos de aquários como plantado, peixes jumbo, ciclídeos africanos, água salobra, amazônico comunitário e marinho. Atualmente curte e mantém peixes primitivos e ciclídeos neotropicais, suas grandes paixões.

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