Os simpáticos baiacus (puffers) de água doce

Autor: Edson Rechi – Publicado originalmente na Revista Bioaquaria em 2010 (atualizado Junho/2015)

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Introdução

Conhecido popularmente como Baiacu, Puffer, Fugu (Japão), Baloonfish ou Peixe Globo, são espécies de peixes pertencentes à ordem Tetraodontiformes. A ordem Tetraodontiformes possui 10 famílias: Aracanidae, Balistidae , Diodontidae, Molidae, Monacanthidae, Ostraciidae, Tetraodontidae, Triacanthidae, Triacanthodidae e Triodontidae.

Neste artigo nos reservaremos aos Baiacus da família Tetraodontidae, assim como o foco baseado principalmente em espécies que frequentam águas continentais (água doce) e ambiente estuarino (água salobra).

Morfologicamente são bastante semelhantes entre si, podendo até mesmo ser confundido com os “Blowfish”, Porcupinefish ( Baiacus de espinhos), que pertencem à família Diodontidae, exclusivos de ambiente marinho. Embora estritamente relacionados, blowfishes possuem espinhos triangulares maiores sobre seu corpo e uma única placa de fusão em cada uma da região superior e inferior de seu maxilar, além de alcançarem o tamanho superior aos Tetraodontídeos. Triodontideos possuem uma placa inteiriça (dente) no maxilar superior e duas no inferior, enquanto Tetraodontideos possuem duas placas inteiriças.

Dentro da família Tetraodontidae são classificados cerca de 120 espécies em 19 gêneros, sendo encontrados principalmente na região asiática (30+ espécies) e em menor número na América do Sul (2 espécies), África (6 espécies) e Oceania (2 espécies). Os números refere-se a Baiacus que frequentam ambientes estuarinos ou dulcícolas, excluindo as espécies marinhas. Em geral, a maioria das espécies da família Tetraodontidae atinge pequena a média dimensão.

O nome Tetraodontidae é em alusão aos quatro dentes fundidos em placas superior e inferior, utilizados para triturar cascas de crustáceos, moluscos, vermes e demais presas naturais.

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Habitat e distribuição

Variando a espécie pode-se encontrá-los em mares tropicais e temperados em praticamente todo o mundo, exceto águas frias, além de regiões costeiras ou rios de água doce. Inúmeras espécies marinhas podem frequentar água salobra durante alguma fase de sua vida ou em época de reprodução, além de invadir estuários para se alimentar. Pelo menos duas dúzias de espécies de Baiacus vivem exclusivamente em água doce, além de algumas poucas espécies que também podem viver em águas profundas (Sphoeroides pachygaster) ou ainda espécies não classificadas que “preferem” viver em águas totalmente poluídas.

Defesas e algumas peculiaridades

Ao longo de sua evolução desenvolveram inúmeros mecanismos de defesa. Em especial podemos citar sua forma particular de locomoção, usando eficazmente uma combinação das nadadeiras peitoral, dorsal, anal, caudal e nadadeiras de propulsão, tornando sua natação bastante manobrável mas bastante lenta. Talvez pela lentidão apresentada em sua locomoção, evoluíram mecanismos de defesa bastante eficazes como veremos a seguir.

O mecanismo de defesa primário é sua capacidade de inchar/inflar rapidamente enchendo de água seu estômago, bastante elástico, ou com ar quando fora d´água, podendo dobrar ou triplicar seu tamanho. Este meio de defesa pode enganar um potencial predador, afinal, é muito mais difícil engolir um peixe grande do que um pequeno.

Alguns Baiacus, principalmente espécies marinhas, produzem uma poderosa neurotoxina em seus órgãos interno conhecido como tetrodotoxina, encontrado principalmente no ovário e fígado, podendo migrar pequenas quantidades em seu intestino e pele, assim como no tecido muscular e sanguíneo quando atacados. Esta neurotoxina pode ser letal para grande maioria dos predadores, incluindo o ser humano. Predadores desavisados ou inibidos podem se tornar vítima deste veneno.

Seus olhos podem se mover independentemente e em algumas espécies pode-se até mesmo alterar sua coloração ou intensidade de seus padrões de acordo com alterações ambientais e necessidades.

Outra particularidade são os espinhos encontrados na pele de algumas espécies, principalmente marinhas, bastante visíveis, transmitindo aspecto ameaçador e intimidador frente a potenciais predadores. Nem todas as espécies possuem espinhos visíveis, podendo se tornar visível apenas quando o peixe incha. Em Baiacus que frequentam ambiente dulcícola, os espinhos podem estar ausentes ou apenas serão visíveis quando o peixe inchar.

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Como e porque eles incham ou inflam?

Seu principal mecanismo de defesa ocorre através do inchaço do corpo quando se sente ameaçado, fazendo parecer muito maior do que é realmente.

O processo ocorre com o peixe engolindo uma grande quantidade de água que ficará armazenada no estômago, órgão bastante elástico, inflando como uma bexiga e deixando de forma bastante esférica até três vezes maior que seu tamanho original. Sua pele também é bastante elástica e sua espinha bastante flexível, podendo curvar e acompanhar o novo formato temporário do corpo. Uma válvula localizada na base de sua boca é empurrada na direção das placas ósseas, fechando a saída e a água permanece armazenada em seu estômago permitindo com que aumente de tamanho.

Quando se sente seguro, basta abrir a válvula para voltar ao seu formato habitual. Este processo ocorre dentro da água e quando o peixe se encontra fora da água ocorre a mesma coisa, mas com o oxigênio em substituição a água.

Baiacus morrem após incharem?

Não! É mais um dos mitos no aquarismo disseminados sem embasamento.

Como explanado acima, esta característica funciona como um sistema de defesa e como qualquer sistema defensivo ele só é eficaz quando o atacante não consegue avançar. Qual seria a vantagem deste mecanismo se o peixe morresse logo após inchar?

Salvo se houver algum dano corpóreo vital dependendo do predador que o atacou, eles automaticamente voltarão ao normal tão logo que se sintam seguros.

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Poderosa Tetrodotoxina

Também conhecido como Toxina do Baiacu, é encontrado em muitas espécies de Baiacus e outros animais como determinados polvos, salamandras aquáticas, estrela do mar, porco espinho, sapo Atelopus (Costa Rica) e caranguejo xantídeo. É uma poderosa neurotoxina mais mortífera do que o cianeto de potássio. Estima-se que dependendo da espécie, um único espécime de Baiacu possui veneno suficiente para matar diversos humanos adultos.

Até recentemente (2001), acreditava-se que a tetrodotoxina era um produto metabólico do hospedeiro, mas estudos recentes provaram a produção deste elemento por bactérias adquiridas em sua dieta, deixando o peixe imune ao veneno devido à mutação na proteína do canal iônico sobre as membranas celulares.

Estudos realizados por pesquisadores da cidade de Nagasaki (Japão), afirmam que os Baiacus adquirem o veneno ao consumirem alimentos tóxicos como estrela do mar e moluscos. A base da afirmação foi que durante o experimento, milhares de fugus foram colocados em cercados instalados a 10m de profundidade ou em tanques purificados. Durante dois anos a alimentação destes peixes foi baseada em cavalas e outros frutos do mar saudáveis, e ao fim deste período os peixes examinados apresentavam resultados negativos para a tetrodotoxina.

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Intoxicação em seres humanos

Nem todos os Baiacus são venenosos e muitos são rotineiramente consumidos pelos seres humanos, em especial os asiáticos, por apresentarem carne bastante.

No Japão, o Fugu é uma especialidade culinária entre apreciadores de sushi, sendo um prato típico entre os meses de Dezembro e Janeiro. São servidos em fatias cruas e é considerado pelo povo japonês como “flor da morte”. Este fato torna um problema de saúde pública deste país, uma vez que frequentemente ocorrem mortes causadas pelo consumo. São bastante consumidos também na Tailândia, principalmente pelo seu baixo valor no mercado local, sendo uma alternativa barata para o consumo de carne.

Todos os humanos são suscetíveis ao veneno, podendo esta toxicose ser evitada não consumindo baiacu ou demais espécies que produzem o veneno. Para não ocorrer à intoxicação do animal, cozinheiros devem limpar o animal com uma técnica bastante precisa removendo as partes venenosas, ainda assim, é possível ingerir pedaços com traços do veneno causando dormência na língua e apresentando um leve efeito narcótico.
O envenenamento é causado pela ingestão da toxina. O primeiro sintoma é a dormência/paralisação dos lábios e língua, que surge após 20 minutos a 3 horas. Os sintomas seguintes, segundo a Secretaria de Estado da Saúde de São Paulo são:

”O sintoma seguinte é o aumento de parestesia de face e extremidades, que pode ser acompanhada de sensação de leveza ou flutuação. Dor de cabeça, rubor facial, dor epigástrica, náusea, diarréia e ou vômito podem ocorrer. Dificuldade para andar pode ocorrer nessa fase que evolui para o aumento da paralisia, com dispnéia. A fala é afetada e a pessoa envenenada apresenta comumente cianose e hipotensão, com convulsões, contração muscular, pupilas dilatadas,  bradicardia e insuficiência respiratória. O paciente, embora totalmente paralisado, permanece consciente e lúcido até o período próximo da morte. O óbito ocorre dentro de 4 a 6 horas, podendo variar de cerca de 20 minutos a 8 horas.”

Até onde se sabe não há antídoto específico para a tetrodotoxina. O tratamento aplicado é baseado nos sintomas apresentados pela vítima, podendo variar de pessoa para pessoa.

Criação em aquário

O tamanho do aquário vai variar de acordo com o tamanho da espécie escolhida. Baiacus de água doce, principalmente espécies da família Tetraodontidae, não chegam a tamanhos consideráveis, com algumas poucas exceções que podem alcançar tamanho entre 30-40cm, as demais espécies variam seu tamanho entre 4cm e 15cm. As espécies mais comuns encontradas a venda em lojas de aquarismo no Brasil, raramente ultrapassam 15 cm, e são conhecidos como Baiacus anões.

Aquário mínimo variando entre 100L e 200L comportará espécies menores que 20 cm, desde que as dimensões mínimas do aquário apresentem em torno de 80 cm de frente (comprimento) e 40 cm de largura. Para espécies maiores que 20 cm, aquário de 200L ou mais é recomendado.

O sistema de filtragem deverá ser bem dimensionado, mas sem criar forte fluxo na água. Devido à natação irregular desta espécie, deve-se evitar criar um ambiente lótico no aquário. Poderia dificultar sua natação.

Baiacus comem bastante e consequentemente irão gerar uma grande quantidade de carga orgânica, sendo obrigatório um bom sistema de filtragem para sua manutenção, assim como trocas parciais regulares de água para assegurar a qualidade da mesma. Um termostato confiável e regulado para no mínimo 24ºC assegurará uma temperatura estável e ideal. Costumam tolerar temperatura de até 30°C tranquilamente, havendo somente aumento em seu metabolismo quanto mais alta for a temperatura.

A decoração do aquário não será crítica, em geral pode-se usar plantas vivas, ou mesmo de plástico, o importante é que use bastante delas, levando em consideração que Baiacus precisam estabelecer territórios e plantas altas ajudam bastante neste quesito, quebrando sua linha de visão e consequentemente reduzindo sua agressividade e territorialismo frente a outros Baiacus e peixes. Uma alternativa é construir bastantes refúgios do tipo cavernas e similares (use troncos e rochas), para eles se refugiarem caso sintam-se ameaçados ou para repousarem.

Variando a espécie, alguns Baiacus podem viver por toda sua vida em água doce, enquanto outras espécies podem preferi água salobra. Neste último caso, indicado a adição de uma colher de sopa de sal marinho para cada 5L de água do aquário. Procure sempre usar sal marinho, evitando outros tipos de sais como o sal de cozinha!

Antes de adquirir seu peixe, informe-se qual o ambiente frequentado pela espécie e crie um ambiente similar. Baiacus vivem por muitos anos se você dispuser um mínimo de condições para que isso aconteça.

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Comportamento em aquário e espécies compatíveis

Seu comportamento em aquário é bastante interessante. Costumam ser pacífico com outras espécies de peixes, mas podem mordiscar ou até matar peixes de natação lenta ou que apresentem longas nadadeiras. Com indivíduos da mesma espécie podem se tornar territorialistas e agressivo, sendo indicado cria-lo sozinho ou se o tamanho do aquário permitir em três ou mais indivíduos para evitar agressões somente sobre um único individuo.

A escolha de espécies compatíveis deverá ser bastante criteriosa, uma vez que podem mordiscar peixes mais lentos ou de nadadeiras longas, conforme frisado acima, comer ou matar peixes menores, ou ainda serem importunados por espécies mais agressivas ou maiores. Preferencialmente deve-se criá-los em aquário mono espécie com setup voltado exclusivamente para sua criação.

Espécies compatíveis são Ciprinídeos rápidos como Barbos, Danios, Balasharks e Labeos, assim como alguns poucos Loricarídeos maiores e peixes Arco-íris. Para Baiacus provenientes de água salobra, a fauna deverá ser restrita a espécies que vivem neste tipo de água como Scats (Scatophagus sp.), Monos (Monodactylus sp.), Arqueiros (Toxotes sp.), Gobys e Moréias, entre outros..

Alimentação

Em seu ambiente natural, a alimentação primária de Baiacus é baseada principalmente em moluscos, crustáceos, algas bentônicas (algumas espécies) e peixes.

Embora um tanto difícil, em cativeiro é possível adaptá-los a alimentos secos exigindo bastante paciência por parte do aquarista. Em geral são peixes que parecem estar sempre famintos.

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É interessante fornecer regularmente bivalves em geral, cuja concha carbonatada é bastante dura e ideal para gastar as placas ósseas dos Baiacus, ou mesmo outros alimentos alternativos como caramujos, mariscos frescos, patas de caranguejo ou qualquer outro que possua concha dura.

O fornecimento destes seres é essencial para sua sobrevivência. Uma dieta inapropriada com a ausência de conchas ou elementos “duros” poderá ocasionar o crescimento demasiado de suas placas/dentes. Estas placas crescem constantemente e deverão ser gastas através destes alimentos. Uma vez que seus dentes/placas estiverem grandes, o peixe poderá não ser capaz de abrir a boca vinda a falecer por inanição. Se chegar a este estágio, deverá haver intervenção por parte do aquarista através do corte das placas manualmente.

Outros alimentos alternativos, além dos indicados são Bloodworms, Camarões em geral (Samoura e Mysis), Daphnia, Tubifex, Minhocas, Larvas em geral e Krill. Ração poderá ser aceita com alguma dificuldade, normalmente eles costumam ignorar este tipo de alimento.

Baiacus de água doce

Como indicado no inicio deste artigo, iremos destacar somente espécies da família Tetraodontidae que frequentam ambiente dulcícola em algum momento de sua vida. Nem todos vivem exclusivamente em água doce, invadindo águas continentais somente em determinada época do ano, seja para se alimentar ou reproduzir. Cabe o aquarista analisar se a espécie escolhida se desenvolve melhor em água doce ou salobra, podendo variar o tipo de água propositalmente periodicamente.

Abaixo algumas indicações de Baiacus conhecidos popularmente como Baiacus Anões. Informações mais detalhadas podem ser obtidas em bons sites de aquarismo.

Africanos

 

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Sul Americanos

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Oceania

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Asiáticos

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Conclusão

Observando um Baiacu pela primeira vez notam-se hábitos únicos e bastante peculiares.

Seu rosto expressivo, por vezes parecendo que estão sorrindo, assim como seu formato diferente e natação irregular são atrativos bastante interessantes. São peixes com hábitos bastante peculiares e que exigem certa experiência por parte do aquarista, principalmente no quesito alimentação e qualidade da água.

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Pescadores esportivos o consideram praga por ser um especialista em roubar iscas de anzóis, além da toxina que pode levar um ser humano a falência. Ainda assim, não se deve rotulá-los como ameaça. Trata-se de uma espécie que ao longo de sua evolução criou mecanismos para sua sobrevivência, assim como qualquer outro ser vivo.

Na medicina medicamentos derivados da Tetrodotoxina estão em franco desenvolvimento para trazer alívio para aqueles que sofrem de dores crônicas intensas, em experimentos em pacientes com câncer e até mesmo em pessoas toxicodependentes estão sendo estudadas.

São espécies com bastante valor comercial, embora ainda pouco explorados, atraindo tanto adeptos do aquarismo, como da indústria farmacêutica.

 

Sobre Edson Rechi 568 Artigos
Aquarista em duas fases distintas, a primeira quando criança e tentava manter peixes ornamentais sem muito sucesso. Após um longo período sem aquários, voltou no aquarismo em 2004, desde então já manteve diversos tipos de aquários como plantado, peixes jumbo, ciclídeos africanos, água salobra, amazônico comunitário e marinho. Atualmente curte e mantém peixes primitivos e ciclídeos neotropicais, suas grandes paixões.

7 Comentário

  1. Edson, bom dia!
    Sou novíssimo no ramo de aquários. Acabo de ganhar de dia dos pais um aquário da minha esposa com 1 baiacu.
    Queria saber como encontrar bibalves ou moluscos em geral para alimenta-lo.
    Você acha que dar pedaços de camarão de água doce com casca ajuda a desgastar os dentões do bicho?

    Obrigado

      • Edson, obrigado pela resposta.
        Fico com a impressão que o meu baiacu seria muito pequeno pra comer mariscos como os que vendem no mercado convencional.
        Vou procurar esses caramujos que vc comentou.
        Abraços.

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