Mini Arraia (Sewellia lineolata) | Ficha técnica

Espécimes adultos em aquário disputando território -- Foto de Charles Konig (c)


Nome Científico: Sewellia lineolata (Valenciennes, 1846)

Ordem: Cypriniformes — Família: Gastromyzontidae

Nome popular: Mini Arraia, Botia de rio reticulada — Inglês: Reticulated hillstream loach, Tiger hillstream loach

Distribuição: Sudeste asiático

Etimologia: Sewellia é uma homenagem a R. B. Seymour Sewell (1880–1960), um renomado naturalista, cirurgião e zoólogo britânico que realizou extensos estudos sobre a fauna marinha e de água doce na Índia e no Oceano Índico.

Lineolata provem do latim lineolatus, que significa “marcado com pequenas linhas” ou “listradinho”. É uma referência direta ao padrão de listras finas e reticuladas que cobrem o corpo do peixe.

Status de Conservação (IUCN Red List): Vulnerável (2026)

Sinônimos: Balitora lineolata


Descrição

O corpo da Botia de rio reticulada apresenta uma base amarela-clara ou dourada, densamente coberta por um padrão reticulado de linhas castanho-escuras ou pretas. Nas laterais do corpo, em direção à cauda, essas linhas escuras unem-se para formar três listras pretas horizontais contínuas e bem definidas.

As nadadeiras peitorais e pélvicas são extremamente largas, arredondadas e dispostas horizontalmente, dando ao peixe um formato circular que lembra uma mini raia. Daí seu nome comum no Brasil.

Sua boca fica localizada na parte de baixo da cabeça (ventral), equipada com pequenas estruturas que ajudam a raspar o alimento das pedras.

Seu corpo achatado é  adaptado especificamente para a sobrevivência em correntes extremamente fortes e cachoeiras de riachos montanhosos. Em vez de lutar contra a força da água nadando, esse peixe desenvolveu uma estratégia de aderência e hidrodinâmica.

O corpo do peixe funciona de forma parecida com o aerofólio de um carro de Fórmula 1. A parte superior é levemente curvada e a inferior é totalmente reta. Quando a água passa em alta velocidade por cima dele, cria uma pressão física que empurra o peixe contra a rocha, prendendo-o no chão em vez de empurrá-lo.

As nadadeiras peitorais e pélvicas são massivas, orientadas horizontalmente e fundidas geometricamente com o corpo. Juntas, elas formam uma ventosa contínua ao redor de toda a área ventral do peixe.

Peixes comuns respiram abrindo a boca e soltando a água pelas brânquias laterais. Se a esta espécie fizesse isso, quebraria o vácuo da ventosa. Para resolver esse problema, ela possui modificações anatômicas que permitem que a água saia por pequenas aberturas na parte superior/traseira da cabeça, mantendo o vácuo intacto.

A história da descoberta da espécie é fascinante porque envolve um longo hiato temporal: ela foi formalmente registrada pela primeira vez há mais de 170 anos, mas passou mais de um século “esquecida” pela ciência moderna.

Os primeiros exemplares do peixe foram coletados pelo naturalista francês Pierre-Médard Diard durante suas expedições pelo Sudeste Asiático. Com base nesses registros e coletas, o renomado zoólogo francês Achille Valenciennes descreveu oficialmente a espécie em 1846 (originalmente classificada sob o nome de Balitora lineolata).

Espécime adulto em aquário em detalhes — Foto de domínio publico

Após a sua descrição inicial no século XIX, a espécie praticamente desapareceu dos radares científicos ocidentais. Por conta de conflitos geopolíticos e do difícil acesso aos rios montanhosos e isolados do Vietnã central (sua principal região endêmica), cientistas e pesquisadores passaram mais de 150 anos sem coletar novos indivíduos.

A verdadeira redescoberta e reavaliação taxonômica da espécie só aconteceu no início dos anos 1990, quando biólogos conseguiram acessar novamente a bacia do rio Mekong e riachos costeiros do Vietnã e Laos, confirmando que a espécie continuava próspera em seu habitat natural.

Apenas em meados de 2005 e 2006 começou a ser exportada legalmente para o mercado de aquarismo global. Rapidamente, ela se tornou um enorme sucesso internacional devido ao seu padrão exótico (que lembra uma mini raia ou borboleta) e pela facilidade relativa de reprodução em cativeiro quando comparada a outros peixes de correnteza.

Devido ao seu endemismo, sua população reduziu drasticamente em razão da construção de usinas elétricas, degradação ambiental e exploração comercial para o aquarismo no início dos anos 2000.

Felizmente, devido ao seu status de conservação e às dificuldades de importação ilegal, a maior parte das Sewellia lineolata disponíveis no aquarismo hoje em dia provém de criações comerciais sustentáveis na Ásia ou de reproduções feitas por aquaristas amadores dedicados em cativeiro, reduzindo consideravelmente a pressão sobre as populações selvagens.

  • Tamanho Adulto: 5,7 cm
  • Expectativa de Vida: 3 a 5 anos +

Distribuição e Habitat

Nativo do Sudeste Asiático, com uma distribuição geográfica altamente endêmica e restrita. O núcleo de sua população selvagem está localizado na região central do Vietnã.

Existem também registros científicos pontuais da presença da espécie em áreas de fronteira na bacia do rio Mekong no Laos (como na região das Khone Falls, perto da divisa com o Camboja) e em partes vizinhas do Camboja e da China, embora o Vietnã seja considerado seu território definitivo.

Países: Camboja, China e Vietnã

Ambiente: Água doce

Habitat: Reófilo, caracterizado por ecossistemas lóticos de altitude extremos, conhecidos cientificamente como zonas de rithron. Elas habitam exclusivamente as cabeceiras e trechos superiores de riachos e rios que cortam as florestas tropicais.

Encontrado em pequenos riachos com grandes e profundas poças cobertas por plantas submersas. Ocorre também em riachos de alta declividade constituídos quase exclusivamente por cachoeiras; em rios maiores, na extremidade superior dos rápidos, bem como em habitats com altas velocidades de água superiores a 1 m/s. Frequentemente associado a *Annamia normani* , *Balitora* sp., *Schistura* spp., * Glyptothorax* spp., *Anguilla marmorata * e *Rhinogobius * spp. .

A água nesses riachos corre a velocidades impressionantes, frequentemente ultrapassando 1 metro por segundo. O fluxo é contínuo, turbulento e unidirecional, criando zonas de corredeiras, pequenas quedas d’água e cascatas. A água bate nas pedras e gera uma mistura mecânica constante com o ar, mantendo os níveis de oxigênio dissolvido sempre próximos da saturação máxima.

A força da correnteza arrasta toda a matéria leve, como folhas mortas, galhos soltos, lodo e areia fina. Por isso, o fundo do rio é composto estritamente por uma matriz de rochas maciças, pedras grandes, seixos rolados e cascalho pesado. Todas as superfícies são extremamente lisas e polidas pelo atrito constante da água e dos sedimentos.

  • pH: 6.5 a 7.5
  • Dureza: 4 a 12 dGH
  • Temperatura: 20°C a 26°C
Espécimes em seu ambiente natural — Foto de Manuel Rigger (CCBY-NC)

Criação em Aquário

Aquário de pelo menos 100 litros com comprimento mínimo de 80 cm e 30 cm de largura desejável.

Priorize aquários longos e largos em vez de altos. A área de superfície do fundo (vidro e rochas) é o “território” real delas. Use e abuse do uso de rochas lisas e raízes.

Conseguem escalar os vidros facilmente usando a ventosa do corpo e podem saltar para fora do aquário se encontrarem uma brecha.

Não são consideradas peixes para iniciantes devido à exigência por qualidade de água e alta oxigenação.

Comportamento e Compatibilidade: São peixes altamente sociais, mas territoriais entre si. Devem ser mantidas em grupos (mínimo de 3 ou 4). Se mantidas sozinhas, tornam-se tímidas e estressadas. Os machos disputam os melhores territórios de alimentação. Eles fazem uma dança incrível chamada topping, onde tentam nadar por cima do outro e empurrar o rival para fora da pedra. Não há ferimentos, é apenas uma disputa visual e territorial saudável.

Ao limpar o aquário, nunca raspe o vidro traseiro. Deixe as algas crescerem livremente nele para servirem de “pasto” permanente.

  • Área de Natação: Fundo / Meio
  • Quantidade mínima: Grupo
  • Nível de dificuldade: Médio

Alimentação

O conteúdo estomacal inclui invertebrados bentônicos e algas. Observa-se que é ativo durante o dia, buscando alimento no perifíton em superfícies horizontais e verticais de pedras.

Como as margens dos riachos montanhosos costumam ter clareiras ou vegetação mais aberta no topo, os raios de sol incidem diretamente sobre a água rasa. Essa combinação de luz solar intensa, nutrientes da água limpa e superfícies rochosas sólidas propicia o crescimento de uma camada biológica complexa chamada Aufwuchs (um biofilme composto por algas verdes, diatomáceas, cianobactérias e micro-organismos). Esse tapete biológico cobre quase todas as pedras e serve de alimento exclusivo para a espécie.

Em aquário aceitam muito bem rações em pastilhas para peixes de fundo (bottom fish) de alta qualidade, ricas em spirulina e matéria vegetal. Ofereça alimentos vivos ou congelados periodicamente, como Artêmia ou Bloodworms. Elas precisam dessa carga proteica para se manterem fortes.

Grupo de espécimes adultos em aquário — Foto cedida gentilmente por https://www.garnelio.de/

Reprodução

Sua reprodução em cativeiro é considerada uma das mais fáceis e viáveis entre os peixes de correnteza, desde que o aquário ofereça as condições corretas. Diferentemente de outros “limpa-vidros” que raramente procriam em aquários, as Sewellas reproduzem-se com frequência e os pais costumam ignorar os filhotes, permitindo que eles cresçam no mesmo ambiente.

Na natureza, elas se reproduzem na época das chuvas (monções). Quando a fêmea está cheia de ovos (com a barriga visivelmente roliça e amarelada), o macho dominante começa a cortejá-la. Ele nada ao redor dela, exibindo suas nadadeiras peitorais abertas.

O casal começa a nadar junto na coluna d’água, subindo e descendo contra a correnteza. No ponto mais alto do nado, eles se abraçam rapidamente e liberam os ovos e o esperma diretamente na correnteza da água. Os ovos não são colados em superfícies; eles são semi-flutuantes. A correnteza forte do aquário arrasta os ovos pelo tanque até que eles caiam no fundo.

Os ovos eclodem muito rápido, em cerca de 48 a 72 horas, dependendo da temperatura. Os alevinos nascem minúsculos e passam as primeiras semanas escondidos no meio do cascalho grosso, alimentando-se exclusivamente de micro-organismos (infusórios) presentes no biofilme.

Após algumas semanas, quando atingem cerca de 1 a 1,5 cm, eles começam a perder o formato alongado de “girino” e desenvolvem o formato achatado. É nesse momento que eles saem do cascalho e começam a subir nos vidros e rochas para raspar algas junto com os adultos.

  • Maturidade Sexual: Próximo de 9 a 12 meses
  • Cuidado Parental: Não ocorre

Dimorfismo Sexual: Machos observados de cima possuem “ombros” mais angulares e retos (onde a nadadeira peitoral se encontra com a cabeça). Eles também desenvolvem pequenas fileiras de tubérculos (estruturas ásperas que lembram mini espinhos) na parte superior dos primeiros raios das nadadeiras peitorais.

As fêmeas apresentam o corpo visivelmente mais gordo, arredondado e largo, com uma transição suave e contínua entre a cabeça e as nadadeiras peitorais.


Referências

Eschmeyer, W.N. (ed.), 1998. Catalog of fishes. Special Publication, California Academy of Sciences, San Francisco. 3 vols

Freyhof, J. and D.V. Serov, 2000. Review of the genus Sewellia with description of two new species from Vietnam (Cypriniformes: Balitoridae). Ichthyol. Explor. Freshwat.

Kottelat, M., 1994. Rediscovery of Sewellia lineolata in Annam, Viet Nam (Teleostei: Balitoridae). Zool. Med. Leiden

Sewellia lineolata em Practical Fish Keeping

Sewellia lineolata em Loaches Online

Publicado em Setembro/2026

EdsonRechi

Aquarista desde criança quando tentava manter peixes sem sucesso. Após um longo período sem aquários, voltei para o aquarismo em 2004 por influência de minha esposa. Desde então, já mantive diversos tipos de aquários e peixes. Articulista, além de organizar e palestrar em eventos ligados ao hobby nos últimos anos. Atualmente se dedica ao site que acabou se tornando outro hobby: escrever sobre peixes ornamentais.

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